Nos posts anteriores, Armando começou a aprender o que significa ser adulto. A matéria que escreveu foi publicada e por uma linha dela um policial que agrediu seus colegas militantes foi encaminhado à corregedoria. Enquanto isso, seus amigos militantes criticaram a matéria desconhecendo que a autoria é de um amigo que sempre atacou matérias do tipo. Uma carreira nas redações que podem não dar a ele dinheiro que compense uma possível incoerência com o discurso tão defendido na universidade ou arriscar ser pai de uma forma inesperada e irresponsável e ainda por cima ter de depender dos pais para sustentar o filho?
Armando põe o celular sobre uma mesa. No display a mensagem criticando a matéria dele ainda aberta. Ele olha a mensagem. A mensagem no celular, o celular na mão. Armando olha sua própria mão e nela seus dedos. Nas pontas dos dedos da mão esquerda que segurava o celular há cicatrizes do que no dia anterior eram calos. Os calos foram feitos depois de tocar com um violão de cordas de aço durante três horas seguidas. Antes disso, há três anos, bastavam alguns minutos para os dedos ficarem em merda. Os dedos estão diante dele, e depois dos dedos estão quadros. Retratos de outrora. O foco sai da mão para o retrato dele festejando o vestibular. A tensão do vestibular é como um calo anterior na ponta dos dedos de sua alma. Ele aprendeu a tocar violão de calo em calo. Olhando novamente ao celular, que por acaso foi colocado ao lado do jornal no qual está sua matéria, ele percebe que está na hora de superar mais um calo.
“A matéria que saiu no jornal hoje é minha”, escreve Armando no sms que encaminha a todos os colegas de militância, seja os mais experientes, seja os que chegam agora. Não demoram a chegar telefonemas. Ele em geral não gosta de responder à mesma pergunta mais de uma vez, mas dessa vez faz um sacrifício. A primeira coisa que passou pela cabeça dele foi dizer que aceitou a proposta de trabalhar no jornal porque teria um filho. “Coitada dessa criança. Nem nasceu ainda para assumir uma responsabilidade que não é sua”, pensou. Então resolveu contar aos colegas sobre a paternidade somente semanas depois de conversar com os colegas sobre o novo emprego e explicar que estava precisando arrumar trabalho, por isso aceitou. Ele percebeu que foi bem mais difícil para ele próprio aceitar isso do que os amigos. Fizeram muitas piadinhas, é verdade, mas aceitaram numa boa.
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Óbvio que o policial que foi à corregedoria não sofreu maiores punições do que alguns dias de reclusão. No entanto, encontrar com aquele policial na rua – que soube depois que foi ele quem escreveu a maldita matéria – e perceber que o PM o odiava, dava a ele uma pontada de orgulho.
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Armando trabalhou durante alguns anos naquele jornal, e conseguiu perceber que mesmo em um jornal de linha conservadora era possível fazer boas matérias, sobretudo quando quem estava no poder era um inimigo político do jornal. Depois, conseguiu o que sempre quis: foi contratado para escrever para uma revista de esquerda. Mas não qualquer revista de esquerda, e sim a mais conceituada do Brasil. Qual foi a decepção dele então ao perceber que numa revista de esquerda o ambiente de trabalho cercado por disputas internas e conflitos de vaidade faziam com que ele se sentisse bem pior do que trabalhando no jornal de direita. Meses depois ele aceitou o convite para ganhar mais num jornal de grande circução, agora como repórter especial.
PRÓLOGO
Aos 37 anos ele tem uma filha que não sabe se presta vestibular para jornalismo ou para matemática.
“Pai, eu não sei o que eu escolho. Eu estou desesperada já”, desabafou Adriana. Com um sorriso terno no canto da boca ele a encara e se vê. Ele fala para ela dizendo para si mesmo: “você vai descobrir que há coisas que escolhem a gente, filha”. “Será que vai demorar muito pra que isso aconteça, pai?”, pergunta ela, enquanto esfrega o rosto no seu ombro. “A gente só vive a vida vivendo , filha. Seja qual for a escolha que fizer, dê o máximo de si. Independente de qualquer coisa, os que te amam vão respeitar e amar o que você escolher. Porque os que te amam, o fazem pelo que você é, e suas escolhas fazem parte de você”, disse ele, diante de si. A filha achou todo aquele discurso muito chato, na verdade, mas gostou muito do abraço.
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Por sugestão da Lorena Prazeres do blog Infinito Particular, partilho essa canção, que tem realmente tudo haver com o post.












