Seguidores

Nuvem de Tags

sexta-feira, 14 de março de 2014

DIÁRIO DE UM SERTANEJO - 82º DIA

Mesmo que eu lembrasse o nome daquela estrada carroçal, ou a exata razão de estar ali, isso não importaria agora. Nenhum detalhe técnico é mais importante em relação a qualquer ferida cicatrizada ou não do cachorro vira-lata sobre o qual escrevo agora. Dele sim gostaria de saber o nome. Esta história é sobre um cão cego, provavelmente. Louco, certamente. Ridicularizado por meus amigos e eu, ambos coadjuvantes neste relato feito sobre um cachorrinho que me ensinou coisas de amar e sobre como somos capazes de ser naturalmente escrotos.

Estávamos indo. Não me pergunte pra onde, porque mesmo que lembrasse eu não diria agora. Paramos para pegar informações, diriam os fatos, mas quem acredita nessas coisas de destino diria que só paramos ali para conhecê-lo. Desde o começo ele pareceu engraçado. Marrom, tipicamente vira-lata, carente de banho e de atenção, aparentando já estar algum tempo vivendo a vida adulta e o rabinho cotó. Quando nos viu pela primeira vez o cachorro nos farejava e se lançava a nossas pernas como se não enxergasse. Parecia tentar compensar a falta de visão tentando sentir o nosso cheiro. Já no primeiro contato ele me pareceu engraçado por parecer cego. Eu, que me julgo defensor da inclusão, ri da limitação dele e pedi para os outros rirem.

Precisávamos ir. Dessa parte eu lembro e posso contar: Não sabíamos pra onde. Mas fomos. Largamos o cachorro pra trás como quem joga fora uma meleca do nariz ou como quem vê os mendigos desaparecerem da borda de nossas existências quando o sinal abre. Fomos e não encontramos nada, então voltamos. No retorno, já havíamos passado quase cinco quilômetros do local onde encontramos pela primeira vez o tal cachorrinho. Demos uma parada. Ficamos cerca de dez minutos ali, ou menos, quando avistamos um pequeno borrão lá longe. “É aquele cachorro!”, alguns diziam. Eu não acreditava.

Ora, para ser ele, teria de ter percorrido pelo menos nove quilômetros. Continuamos nossos afazeres enquanto o borrão crescia. Ficava maior, mas não exatamente grande. Deixava de ser um pontinho para se tornar uma mancha marrom. “Era um cachorro”, reconhecemos. “É aquele cachorro!”,exclamei. E rimos de novo quando ele chegou. Balançava o rabinho. Rimos mais ainda ao perceber o mesmo jeito inconsequente de se atirar a nós. O rabinho ainda balançava. Caímos na gargalhada mesmo quando notamos as patas traseiras dele trêmulas após tanto esforço, pois ele não veio simplesmente correndo, correu o mais rápido que pôde. Ele não ligava para a fadiga denunciada pelas patas trêmulas. O rabinho balançava ainda. Parecia querer agradar a gente. O rabinho sempre balançava.

Depois simplesmente entramos no carro e fomos embora. Assim. Esqueci-me dele cinco segundos depois de conversarmos sobre outra coisa menos “hilária”. De noite, porém, antes de dormir, fui contar a história do cachorrinho e chorei. Mas chorei de soluçar. Ia contar a história pelo viés cômico, mas no meio do meu próprio discurso sobre aqueles gestos me dei conta do que realmente vi. Ora, se não tivéssemos parado o carro e permanecido naquele local durante aquele tempo o bichinho jamais nos teria alcançado, e se ele continuava correndo sem saber que pararíamos é porque para ele não importava alcançar, importava mesmo era correr atrás. De quê? De repente eu seja (ir)racional demais pra entender.


Ainda lembro do rabinho cotó dele balançando. Das patinhas trêmulas. Minha dor é saber como a gente nem sempre está ao lado dos bons. Minha alegria é saber que sim, o amor existe, e ele não liga pra essas coisas do impossível, nem pra risada dos ridículos.

4 comentários:

Lindalva Galdino disse...

Pow! Confesso que me emocionei e senti raiva ao mesmo tempo. Porque não cuidou dele? Porque rejeitou o amor que lhe foi ofertado? Porque? Enfim esses e muitos outros "porquês" nos perseguiram por toda a vida. Obrigada por dividir essa história, ela me fez refletir sobre meus atos também. Me fez desejar ser melhor, embora saiba que... enfim desejar mudar já é alguma coisa. Paz e Bem!

Paulo Roberto Figueiredo Braccini . Bratz disse...

nem sempre estamos aberto para a vida de forma simples ... acho e ele tentou nos ensinar algo muito simples ... afeto ...

lindo

beijão

Camila barreto disse...

Confesso que senti mais tristeza e raiva do que qualquer outra coisa. poxa! porque não cuidou dele? :'(

Anônimo disse...

É uma história que mistura os sentimentos de raiva e dó na gente... mas que nos serve para percebermos que precisamos prestar mais atenção nos detalhes de nossa vida, nos simples gesto de carinho que recebemos e que muitas vezes essa nossa vida agitada não nos permite ver... Ariane