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quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Luta de Classes. Parte 3 de 3


Quando Guto chegou em frente à sede da DATA, sofreu o impacto  de vários carros adesivados estacionados. Logotipos do Conselho Tutelar, da Polícia Militar e de vários órgãos da imprensa ("Mas até imprensa?") gritavam na cara dele o tamanho da cagada na qual Carlinhos, o irmão dele, estava metido. Yasmin chegou um pouco depois. Teve dificuldades para encontrar uma vaga para estacionar. Quando finalmente conseguiu, ela pegou o que precisava no carro e andou rápido, quase correndo. Guto foi procurar Carlinhos no térreo. Yasmin tinha de subir ao terceiro piso onde ficava a sala do diretor, o delegado Ícaro Silva.

Era um prédio sem elevadores, mas, se houvesse, pais e responsáveis pelos adolescentes infratores certamente teriam de vir pelo de serviço. Repórteres e Yasmin certamente viriam pelo social, e mesmo a mãe dela permitiria que os pobres fardados de PM também as acompanhassem. Porém, só havia escadas. Três lances delas. Ela chegou suada e irritada por isso, mas as repórteres repararam só no seu lindo cabelo-porém assanhado-, as unhas bem feitas e as mãos sem aliança, a marca da saia e da blusa, o salto muito baixo e uma cor imprópria praquele ambiente e a maquiagem levemente borrada no olho esquerdo; os policiais e repórteres (não gays) repararam como ela era gostosa.

         Guto chegou onde o irmão estava e ficou parado um breve instante diante dele. Tantas coisas passaram pela sua cabeça nesses poucos segundos. Reparar o irmão enquanto a mãe ia trabalhar, chutar a bunda de uns moleques com quem ele brigava às vezes, o distanciamento quando Guto foi estudar em outro bairro e a história recente na qual as amizades ruins faziam a mãe passar mal quando o filho caçula demorava a chegar. Mas espera! Ali com o irmão não haviam malacos! Conhecia aqueles meninos. Não eram “de onda”. "Como foi isso, mano?!", perguntou. Enquanto o irmão contava a versão dele, foi dando uma raiva de ser pobre. Mas o ódio dominou seu corpo quando uma lágrima caiu no mesmo momento em que aquele menino que viu crescer falava: "Você contou pra mamãe?"

         O cabo Leo ao lado do delegado Ícaro iniciavam a entrevista. A Record tinha prioridade porque estavam ao vivo no Balanço Geral. O cabo foi o primeiro a falar. "O CIOP passou pra nós a denúncia da comunidade que não aguentava mais a atividade de tráfico naquela casa e nós fom[É MIL REAIS QUE VOCÊ QUER?! EU TE DOU]". Todos se olhavam sem entender de onde vinha a voz. Era um rapaz negro, com semblante de ódio e uma carteira em punho diante das câmeras. "Por que você não fala, policial, que pediu mil reais pro meu irmão e só quando não recebeu forjou a droga?! Pois saiba que isso tudo foi filmado. Tá aqui nesse celular!", denunciou.

         A imitação de jornalista que apresentava o Balanço pediu pra cortar. O delegado imediatamente pegou Guto pelos braços e o convidou para conversar. O jovem de repente olhou para o que estava fazendo e hesitou. Flashes e luzes de LED, microfones, perguntas, tudo aquilo ao mesmo tempo. Então de repente não pareceu ruim sair dali. Ao abrir a porta da sala do diretor, havia uma moça loira sentada diante de uma TV ligada na Record ao fundo. "Sente aqui. Vou despachar a imprensa e já conversamos", avisou Ícaro. As duas mãos pretas à cabeça, olhos lacrimejantes e nó na garganta. Nesse instante, eis que uma mão branca o toca. "Se você tivesse feito isso com minha mãe eu teria gostado", disse Yasmin. Ele levantou. Procurou palavras e encontrou um abraço. "Tá tudo bem".

         Os jornalistas foram informados pela produção de que a denúncia do garoto não seria veiculada. "Esse policial só passa coisa bacana pra gente", justificaram a maioria dos editores. Foram embora logo em seguida. O delegado mandou soltar todo mundo. "Isso aqui não é uma seccional. Nunca mais chame a imprensa sem antes falar comigo. Não vou prosseguir na denúncia, mas se algo acontecer à família desses jovens aqui, ou a eles, eu guardarei a gravação do celular do denunciante pra garantir que vou atrás de você", avisou o delegado. O cabo engoliu a seco.

         Enquanto isso, na sala do diretor, o abraço continuava. "Você está melhor?", perguntou Yasmin. "Não. Agora estou com outro problema", respondeu. "Qual?!", perguntou ela se afastando para encará-lo. "Você falou com a sua boca perto da minha. Senti o calor dela. Agora só vou ficar bem se prová-la", desabafou. "Você é cínico. Mas eu não estou aqui pra ajudar?", sussurrou. Os lábios grossos dele se misturaram aos lábios finos e rosados dela. Línguas ensopadas se misturavam quando o delegado interrompeu. "Obrigado por cuidar dele, Yasmin", descontraiu. Yasmin fazia pesquisa de campo sobre mediações de conflitos em delegacias especializadas. Saiu de lá com um bom exemplo pra pesquisa.

PRÓLOGO


         Ela deixou Guto e o irmão na Cabanagem. Sentiu medo quando viu toda força expressiva da periferia. Depois de três meses de namoro já conseguia ver aquilo como lugar de gente. Mas o namorado nunca ia ao prédio dela. Nem quando a velha da mãe dela não estava. Até que um dia ela teve uma ideia. Ligou alegando que estava só e passando mal. Ele teve de ir. De madrugada. Ela pagaria o táxi. Ela o esperava de camisola próximo ao elevador de serviço enquanto a essa altura o porteiro pensava qual conta pagaria com a grana que recebeu pra desligar as câmeras de segurança. "Não vai entrar ninguém aqui?", perguntou ele, excitado e assustado ao mesmo tempo. "Não. O elevador de serviço só é usado em horário comercial", disse ela. "O trauma dele passou depois disso", contou ela a uma amiga dois anos depois do fim daquele namoro.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Luta de Classes. Parte 2 de 3

Guto descia as escadas, degrau a degrau, com um nó na garganta e uma sensação de raiva misturada com vergonha. Lá em cima Yasmin observava a porta que dá acesso às escadarias balançar. Ensaiou várias vezes descer, mentir que a mãe não era tão chata assim, mas desistiu quando foi intimada a entrar pela velha.  No outro dia o rapaz não voltou. Ela perguntou por ele ao responsável pela impermeabilização da piscina, que não soube dizer para onde teria sido remanejado. Ele pensa nela na obra, num o mormaço sob uma sombra de concreto. É sempre bom lembrar, mas sempre dói. Ela pensa nele enquanto dirige com os vidros abertos para poupar gasolina. Lembranças estranhas de um momento estranho.

O tempo passa. Primeiro dias, depois semanas. Estudante de direito que era, Yasmin conseguiu acesso à Divisão de Atendimento ao Adolescente (DATA) para fazer uma pesquisa. Ele conseguiu outro emprego. Agora era barman dia sim dia não em uma choperia. De dia continuava fazendo cursinho. Numa noite dessas Yasmin apareceu lá. Junto com uns jovens, um homem mais velho e a mãe dela. Parecia celebração familiar. Ele pediu pra ir embora. Alegou estar se sentindo mal, mas o imediato dele pediu que pelo amor de deus aguentasse, que compraria até remédio, mas não havia como substituí-lo.

Para completar, logo depois disso "aquela bruxa", como ele a definiu, veio pedir um drinque especial para o sobrinho. Mas pediu que um garçom levasse só depois da meia noite. Ele completaria dezoito anos, seria o presente simbólico da maioridade. Ela até pareceu simpática. Não o reconheceu. Provavelmente ela falaria do mesmo modo com uma máquina de lavar do tipo que fica invisível quando desligada. A noite passou rápido. Antes que Guto notasse a família de Yasmin fora embora.

No dia seguinte ela acordou tarde. Não estava com ressaca, mas como só teria as últimas aulas a tarde, e estava em dia com as tarefas acadêmicas, resolveu ouvir música. Ele acordou cedo. Foi ao cursinho. Ela recebeu um telefonema. "Precisa vir aqui. Acabamos de saber que o Conselho Tutelar apreendeu muitos adolescentes numa boca de fumo com armas e muita droga", disse o contato dela na DATA. Ela se arrumou. Contrariada. E foi. Quase ao mesmo tempo o telefone de Guto tocou.

- Alô. É o senhor Augusto?

- É ele sim. Quem fala?

- Aqui é o cabo John da Polícia Militar. Acabamos de encontrar seu irmão, o menor conhecido como "Carlinhos" numa boca de fumo no meio de um bando de vagabundo no bairro da Cabanagem. Estamos levando ele pra DATA. É bom a mãe de vocês ou você mesmo se for de maior ir lá responder por ele.

- ...

A mãe é hipertensa e certamente passaria mal ao saber dessa notícia. O pai já se foi. Ele mesmo teria de ir à DATA.

Conclui semana que vem...

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Luta de Classes. Parte 1 de 3



Precisando de grana pra pagar o cursinho, Augusto teve de arrumar emprego logo. Um amigo dele conseguiu uma vaga como ajudante numa empresa especializada em aplicar impermeabilizantes na construção civil. Em seu primeiro dia de trabalho ele chegou atrasado. Ligou para o chefe que pediu pra ele ir até o primeiro piso onde ficava a piscina. Era um prédio de 12 andares recentemente entregue, com praticamente todos os apartamentos ocupados, cheios de gente de classe média puta com o serviço ruim da construtora por não entregar o imóvel sem ter piscina vazando.

“Guto” se identificou ao porteiro com seu crachá provisório e chegou ao elevador. Eram dois, na verdade. Pegou o de serviço sem reparar na diferença entre um e outro. Errou o andar. Foi parar no segundo piso. Desceu e apanhou o social. Nele desciam uma mulher e a filha dela. “Pra quê tem elevador de serviço?”, provocou a dondoca, irritada com a presença dele, que se olhou no espelho e se perguntou por que ela havia reparado que ele era empregado. No bairro da cabanagem (periferia de Belém) onde ele mora todo mundo perguntou se ele faria exame de fezes, de tão arrumado. “Será que tenho tanta cara assim de pobre?”, se questionou.

A crise interna dele foi interrompida por aquele rosto. A filha dela, com seus olhos verdes como o mar, os cabelos tipo os das moças das novelas, loiro, sedoso, brilhante, surpreendentemente saudável emitiu um sorriso parcial, meio que pedindo perdão pela mãe. Tudo passou muito rápido e ele desceu, trocou de roupa no banheiro dos empregados e foi trabalhar. Não era muito difícil a sua tarefa. Esfregar um produto de forma organizada e padronizada rápido o suficiente para que ele não secasse até estar corretamente espalhado.

Depois do trabalho a coluna dele conversava com a vontade dele de ganhar dinheiro sobre a necessidade de ir logo pensando em outra coisa melhor para fazer. A menina branca aparecera de novo. Sentada num banco diante de uma piscina vazia e em reforma. Ele precisou pegar seu par de sandálias esquecido num banco quase ao lado dela. Depois do episódio do elevador ele ficou se sentindo um lixo fora da lixeira, por isso não tinha a menor autoestima para cumprimentos. Ele apanhou o objeto e voltou sem levantar a cabeça. “Agora eu entendo”, ouviu uma voz falar atrás de si. “Oi?”, falou Guto voltando-se a ela. “Queria entender de onde tava vindo esse fedor de chulé”, descontraiu a garota. Ele voltou. Pegou os chinelos dela, jogou pra longe e brincou: “Pronto. Agora vai passar”. Os dois riram. Quando perceberam estavam sentados conversando sobre música, filmes.

De repente, já passava das oito da noite. Conversaram bastante, mas ele precisava ir embora. Ela perguntou onde ele morava. "Cabanagem", respondeu. “Eu te levo lá”. Se ofereceu ela. “Não pode.” Determinou ele. “Ué, por quê?”, se espantou a moça. “Porque não posso subir no carro de estranhas. Minha mãe não deixa”, provocou. Ela sorriu e pra Guto foi como se o mundo tivesse no pause. “Meu nome é Yasmin”, se apresentou ela e estendeu a mão. Ele segurou. “Prazer”, saldou a jovem. Ele disse o próprio nome, a puxou, deu um beijo no rosto, respondeu “satisfação”, em seguida a puxou para um abraço e sussurrou ao ouvido dela: “Me ensinaram que o prazer vem depois”. Ela tentou disfarçar ter gostado da surpresa e o chamou para ir até o aparamento dela buscar as chaves do veículo.

Quando abriu a porta a mãe dela estava na sala. Ele a viu sentada de costas para ele no sofá. Guto não queria entrar, mas Yasmin insistiu. Ele mentiu que havia esquecido mais uma coisa na piscina e para não atrasá-los precisava descer para buscar. A moça argumentou que buscava as chaves num instante, e depois pegariam juntos o objeto na piscina, e já se preparava para falar mais argumentos quando foi interrompida pela dona. “Yasmin, venha cá”. Os dois se olharam. A pele dela de repente ficou branca de novo, os olhos dela eram de novo verdes, o apartamento dela pareceu coisa de rico e ele lembrou nem sonha em ter carro tão cedo. Ela voltou a perceber a pele negra dele, os cabelos “ruins” dele, a roupa com os panos desbotados de tantas lavagens dele e umas manchas de pele estranhas na face dele.

Ela entrou no apartamento sem dizer nada, mas deixou a porta entreaberta. Ele chamou o elevador. Chegou o social, mas ele não quis entrar. Chamou de novo. Ela saiu do apartamento. Ele já havia descido as escadas pensando se no outro dia voltaria ou não àquele trabalho escroto.


Continua...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

DIANTE DE SI – PARTE 3 DE 3


Nos posts anteriores, Armando começou a aprender o que significa ser adulto. A matéria que escreveu foi publicada e por uma linha dela um policial que agrediu seus colegas militantes foi encaminhado à corregedoria. Enquanto isso, seus amigos militantes criticaram a matéria desconhecendo que a autoria é de um amigo outrora crítico a matérias do tipo. Uma carreira nas redações com possibilidade de não dar a ele dinheiro suficiente para compensar uma possível incoerência com o discurso tão defendido na universidade ou arriscar ser pai de uma forma inesperada e irresponsável e ainda por cima ter de depender dos pais para sustentar o filho?
Armando põe o celular sobre uma mesa. No display a mensagem criticando a matéria dele ainda aberta. Ele olha a mensagem. A mensagem no celular, o celular na mão. Armando olha sua própria mão e nela seus dedos. Nas pontas dos dedos da mão esquerda que segurava o celular há cicatrizes do que no dia anterior eram calos. Os calos foram feitos depois de tocar um violão de cordas de aço durante três horas seguidas. Antes disso, há três anos, bastavam alguns minutos para os dedos ficarem em merda. Os dedos estão diante dele, e depois dos dedos estão quadros. Retratos de antigamente. O foco sai da mão para o retrato dele festejando o vestibular. A tensão do vestibular é como um calo anterior na ponta dos dedos de sua alma. Ele aprendeu a tocar violão de calo em calo. Olhando novamente o celular, que por acaso foi colocado ao lado do jornal no qual está sua matéria, ele percebe que está na hora de superar mais um calo.

“A matéria que saiu no jornal hoje é minha”, escreve Armando no sms encaminhado a todos os colegas de militância, sejam os mais experientes, sejam os novatos. Não demoram a chegar telefonemas. Ele em geral não gosta de responder à mesma pergunta mais de uma vez, mas dessa vez faz um sacrifício. A primeira coisa que passou pela cabeça dele foi dizer ter aceitado a proposta de trabalhar no jornal porque teria um filho. “Coitada dessa criança. Nem nasceu ainda para assumir uma responsabilidade de outra pessoa”, pensou. Então resolveu contar aos colegas sobre a paternidade somente semanas depois de conversar com eles sobre o novo emprego e explicar a necessidade de arrumar trabalho, por isso aceitou. Foi bem mais difícil para ele próprio aceitar isso do que os amigos. Fizeram muitas piadinhas, é verdade, mas aceitaram numa boa.

***
Obviamente o policial levado à corregedoria não sofreu maiores punições do que alguns dias de reclusão. No entanto, encontrar com aquele policial na rua – que soube depois que foi ele quem escreveu a maldita matéria – e perceber o ódio do PM, dava a ele uma pontada de orgulho.

***
Armando trabalhou durante alguns anos naquele jornal, e conseguiu perceber que mesmo em um jornal de linha conservadora era possível fazer boas matérias, sobretudo quando quem estava no poder era um inimigo político do jornal. Depois, conseguiu o que sempre quis: foi contratado para escrever para uma revista de esquerda. Mas não qualquer revista de esquerda, e sim a mais conceituada do Brasil. Qual foi a decepção dele então ao perceber que ali o ambiente de trabalho era cercado por disputas internas e conflitos de vaidade e isso fazia ele se sentir bem pior do que trabalhando no jornal de direita. Meses depois ele aceitou o convite para ganhar mais num jornal de grande circução, agora como repórter especial.
PRÓLOGO
Aos 37 anos ele tem uma filha que não sabe se presta vestibular para jornalismo ou para matemática.
“Pai, eu não sei o que eu escolho. Eu estou desesperada já”, desabafou Adriana. Com um sorriso terno no canto da boca ele a encara e se vê. Ele fala para ela dizendo para si mesmo: “você vai descobrir como na verdade as coisas escolhem a gente, filha”. “Será que vai demorar muito pra isso acontecer, pai?”, pergunta ela, enquanto esfrega o rosto no seu ombro. “A gente só vive a vida vivendo , filha. Seja qual for a escolha que fizer, dê o máximo de si. Independente de qualquer coisa, os que te amam vão respeitar e amar o que você escolher. Porque a amam pelo que você é, e suas escolhas fazem parte de você”, disse ele, diante de si. A filha achou todo aquele discurso muito chato, na verdade, mas gostou muito do abraço.
_______________
Por sugestão da Lorena Prazeres do blog Infinito Particular, partilho essa canção, que tem realmente tudo a ver com o post.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

DIANTE DE SI – PARTE 2 DE 3

Como vimos no último Post, Armando foi um universitário militante e combatente. Sempre era aplaudido pelas críticas densas e radicais que fazia contra os grandes veículos de comunicação nos painéis e seminários nos quais era orador. No entanto, cinco meses depois de formado e sem emprego, e, além disso, com a notícia da paternidade não planejada, foi à uma redação de um jornal conservador tentar arrumar o primeiro emprego. Entretanto, a primeira tarefa dele seria escrever justamente sobre um protesto feito pelos ex-colegas de militância reprimido violentamente pelos policiais. Agora, diante do PC, o ideal e o real travam uma dura batalha em sua mente. Ele sua frio. O colega que o acompanhou na apuração o vê há 10 minutos diante da tela com o word aberto e nenhum caractere digitado. “Depois que você começar, o resto fica mais fácil”, aconselhou.

Na verdade, o problema não estava em começar o texto. O problema estava em começar a fazer algo que sempre criticou. Ele sabe. A única forma de conseguir o emprego é escrever meias verdades, pois a linha editorial do jornal claramente repudia atos como o que foi realizado pelo movimento estudantil do qual participou. Após ter uma ideia desesperada mas de repente viável, Armando levanta-se da cadeira e vai até o editor que vai avaliar a matéria escrita por ele. Pergunta se a matéria sairá com sua assinatura. “Não. Em geral colocamos assinatura depois do repórter devidamente contratado”, respondeu. Bingo! Ele escreve a matéria. Fala do ato, fala do congestionamento provocado, fala superficialmente dos argumentos dos estudantes em realizar o protesto e relata o discurso policial hipócrita que afirma ter agido pacificamente. Para não dizer que não falou das flores, ele cita a agressão do policial em uma linha. “Eles devem cortar isso, mas vou colocar mesmo assim”, pensou.

Na verdade, foi fácil escrever o texto. Ele só teve de fazer tudo aquilo que antes dizia que não era para se fazer quando estava com a fala nos auditórios ou empunhando mega-fones. No outro dia a matéria sai publicada. Ele vê os previsíveis comentários dos colegas a respeito da matéria que ele fez - o qual nem teve coragem de ler para não ter mais raiva. Ele ganha o emprego. Mas antes de encarar os colegas de militância para explicar o que ele está fazendo e porquê está fazendo, ele tem de descobrir por si próprio se isso tudo vale realmente à pena. Vai até a casa de um ex-professor repórter num jornal concorrente. Este era um dos poucos que respeitava o movimento estudantil. Quer saber como o professor conseguiu ser um dos mais respeitados jornalistas dos grandes jornais ‘comerciais’ da cidade, dados os ideais que ele partilhava nas salas de aula.

Ao chegar a casa do professor, o impacto. Um dos jornalistas mais respeitados da cidade, com um dos melhores salários, tem uma casa bem mais simples que a sua. É um apartamento pequeno, sem nada luxuoso. Móveis surrados, alguns quadros bonitos mas com a televisão pequena, apesar de ser LCD. O professor fala com ele, mas daqui a alguns minutos nenhuma das palavras do mestre ficará registrada em sua mente. O que marcou mesmo Armando foi ver um jornalista no auge da carreira possuir menos coisas do que o pai, que nem curso superior tem. O professor falava dos primeiros meses difíceis dele na redação e filtros ideológicos quando viu o ex-aluno sair correndo pela porta.

Armando desceu desde o oitavo andar do prédio onde o ex-professor morava pelas escadas. Ele queria muito chorar, mas o choro estava engatado todo na garganta. Ele chegou em casa e não falou com ninguém. Foi direto para debaixo do chuveiro. Ele se sentia sujo. “Como eu fui me vender por tão pouco?”, se condenava. Eis que a mãe bate na porta do quarto. “Armandinho, telefone pra ti. É do jornal”, avisou a coroa. “Vou atender aqui do quarto”, respondeu Armando. Era a chance. “Vou mandar esse jornal pra puta que pariu”, desejou. Ao atender, não era o editor e sim o colega jornalista que o acompanhou.

“O policial denunciado por você foi afastado da polícia pela corregedoria”, disse o colega preocupado (pois PMs costumam 'marcar' jornalistas que 'escrevem demais'). Mas Armando sorriu de felicidade, deixando o colega sem entender. Afinal, Como?! A linha que escrita do policial que agrediu o aluno covardemente saiu?! Ele pega o jornal depois de desligar o telefone. Procura pela linha. Estava lá! A linha saiu! De repente, o outro lado da profissão irradia diante dele. Em tantos atos e palestras para militante ouvir, nunca conseguiu fazer com que uma autoridade canalha fosse ao menos punida. Com uma linha de jornal ele conseguiu fazer algo concreto que não conseguiu em três anos de movimento. Em meio a alegria, chega um sms. “O jornal burguês mais uma vez criminalizou nosso ato”, enviou um colega militante. E agora? Ser ou não ser jornalista de um periódico burguês que, porém, fala mais alto que um palanque? Eis a questão...

Continua...

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

DIANTE DE SI – PARTE 1 DE 3


Durante a graduação ele não foi um aluno brilhante, mas nem de longe foi um aluno qualquer. Armando liderou por três anos o Centro Acadêmico de Comunicação Social, apelidado carinhosamente de CACOS pelos integrantes. Desde jogar o bebedouro quebrado na sala do reitor até ser preso por cuspir na cara de um PM durante um protesto, várias são as lembranças que aquecem o coração dele. A graduação veio com um canudo entupido de um passado honroso, aos olhos dele, mas de um futuro incerto. No momento que recebia os aplausos pelo nome chamado, no caminho até o palco ele ia refletindo sobre o que aquilo significava. Depois, lá de cima, olhando aqueles rostos maquiados, aqueles colegas perfumados e familiares orgulhosos, a pergunta que ele se fez foi: e agora?

Três meses depois, ele tinha o apoio da família, mas era estranho o aperto no coração que sentia ao saber notícias de seus amigos arrumando bons empregos em assessorias de comunicação, ou nas detestáveis redações de grandes jornais, que ele tanto criticou em vários momentos. Quatro meses depois, a bomba: “o filho é teu”, disse Alice, com uma barriga mínima para uma gravidez de cinco meses. Ele não quis acreditar. “Era uma orgia, porra! Você nem deve lembrar quantos te comeram naquele dia”, se desesperou. Ela argumentou que ele estava porre, mas deve lembrar que ela pediu muito pra que ele não gozasse dentro. Levando as mãos à cabeça, lembrou de como aquela irresponsabilidade foi deliciosa no momento. “Eu só descobri mês passado, porque minha barriga quase não cresceu e minha menstruação é irregular”, explicou ela, dizendo que nem sentir enjôos, sentia.

Cinco meses depois de formado, a família já o pressionava para arrumar emprego. “Um eu sustento, mas sustentar mais uma criança eu não posso”, avisou o pai de Armando. A angústia já o dominava quando soube que um jornal impresso estava contratando. Ele revia as fotos de um protesto a favor da democratização da comunicação que fez dois anos antes em frente à redação em que ele poderia estar no dia seguinte. A noite foi longa, mas depois de ter rolado na cama por muitas horas ele finalmente cochilou e sonhou com uma linda criança sorrindo pra ele. Ele a pegava no colo, e em seguida o bebê fofo mordia os ombros dele com a gengiva. Ele acordou às seis, com aquela imagem do bebê na cabeça. Antes das oito da manhã ele estava na redação. Ele foi indicado por um professor que sempre o achou promissor. O teste consistia em acompanhar uma equipe de reportagem e fazer uma ou duas matérias ao voltar para a redação.

Para a surpresa dele, a primeira pauta era cobrir um protesto de estudantes. Quando chegaram ao trecho da avenida bloqueada pelos manifestantes, ele logo identificou alguns "companheiros". Para justificar-se aos colegas jornalistas, disse que ficaria olhando de longe “pra fazer uma apuração por outro ângulo”. A equipe desceu, fez fotos, entrevistou estudantes, polícia e transeuntes. E Armando lá, escondido e morrendo de vergonha. Eis que um policial começa a provocar os estudantes. Chama-os de veadinhos. Um estudante, como de praxe, reage atirando pedras. Basta. A confusão se generaliza. Balas de borracha. Pedradas. Cassetetes descendo. Sangue escorre. Eis que, bem diante de Armando, um policial passa a rasteira num estudante e covardemente o acerta uma coronhada na cabeça. O estudante grita. Armando mira o rosto. É semelhante. Lembra muito. Não. Não lembra, é: o sucessor dele no CACOS.

A confusão se dissipa. A polícia consegue desbloquear a via. Motoristas de carro e ônibus e muitos trabalhadores nos coletivos xingam os estudantes detidos quando passam por eles. Armando vê tudo isso também. A equipe volta à redação de um jornal de linha editorial extremamente conservadora. Agora ele tem que escrever, sabendo que se escrever como pensa ser a verdade o emprego não será seu. Ele lembra-se da militância. Do discurso, do filho, do passado. Pensa no futuro... pensa no agora... e agora?
Continua...

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Ladrão de super-mercado - Parte 2 de 2

Na postagem anterior, vimos que um sujeito mal vestido e com cara de pobre fora capturado pelos seguranças de um supermercado e estava sofrendo um lixamento moral quando tirou do bolso a carteira da OAB.

Aos olhos dos seguranças e do gerente, toda aquela certeza imagética e preconceituosa que rotula o perfil dos vagabundos foi gradativamente desbotando e dando o tom cinza das incertezas angustiantes. O rapaz levantou da cadeira como quem vira a amante de quatro. "Do que é que vocês estavam me chamando mesmo?", perguntou o rapaz. O gerente, acostumado a ser indagado naquele tom somente pelo chefe, tentou colocar aquela figura exótica no seu devido lugar. "Não me interessa o que você é, se é que é advogado mesmo. Você deve saber muito bem que roubo é roubo. Mesmo sendo um pacote de M & M, você roubou", reagiu o gerente.

O rapaz puxou um gravador de voz do bolso e disse que tudo o que foi dito até então fora gravado. Imediatamente um segurança, tentando garantir a próxima promoção provavelmente, reagiu dizendo que o furto dele é que tinha sido gravado pelo sistema de segurança. "Você tá fodido, seu ladrão", concluiu berrando o segurança, dando um pequeno banho de cuspe no rapaz que tranquilo, com uma soberba real, disse aos demais que aquilo era o que precisava ouvir mesmo. Nesse momento, o gerente aproveitou a deixa do segurança pra descontar nele toda a frustração daquele momento, com xingamentos e tapas na cara do funcionário que deveria ter quase o dobro do tamanho do chefe ali. Sem perder o pique da indignação, o gerente virou para o rapaz. "Olha só, nós temos tudo gravado, mas é bom pararmos logo por aqui. Pode ficar com esse negócio, come até ter dor de barriga e some", falou puxando o rapaz pelo braço em direção à porta.

"Eu só saio daqui depois que pagar", disse o rapaz, mas foi ignorado pelo gerente. Então, num rompante de fúria o rapaz agarrou o braço magro do gerente e empurrou contra a mesa. "Acho que você não tá me entendendo, então deixa eu explicar", gritou o rapaz, parecendo o almirante da tropa. "Tenho uma câmera escondida aqui na camisa. Lá fora, tem uma amiga minha que é jornalista captando e gravando todas as imagens desa conversa, agora olha a porra do preço do M & M no sistema, caralho". O Gerente, engolindo um enorme sapo, começou a procurar o preço. "Anda, caralho", ordenava o rapaz, e quem escutasse de fora, imaginaria que se tratava de mais um menino pobre do bairro levando uma lição e uns tapas pra deixar de ser vagabundo. Entretanto, quanto mais o gerente procurava e não achava o preço, mas ele suava. "Não está registrado no sistema, senhor", falou com voz fina o gerente.

"É claro que não, seu filho da puta", urrou o rapaz. "Assim como a dez anos atrás, eu peguei essa porra dessa embalagem aberta, de um produto que não vende aqui. Só que a dez anos, eu era um moleque da favela que foi humilhado, e mesmo eu dizendo que não havia roubado, fui torturado moralmente, mas hoje eu sou um advogado formado que veio se vingar", berrava o rapaz. "Naquele dia, tu não quis olhar a gravação, mas agora tu vai olhar. Olha aí a gravação daquele corredor as dez da manhã. O gerente viu e atestou. O próprio rapaz havia deixado lá a embalagem, sob algumas outras. 

Então, o gerente começou a implorar para que o advogado ali pedisse o que quisesse. A exposição da imagem dele, e pior, da imagem do supermercado na mídia seria o fim da carreira dele, a humilhação perante parentes, amigos e conhecidos, então ele se colocou de joelhos diante do rapaz e começou a implorar clemência. "Levanta, seu fodido do caralho, que nem os moleques que tu humilha aqui são tão fracos assim", disse o advogado empurrando-o contra a parede. "Agora vira de costas aí, encosta as mãos na parece e abre as pernas", esporrou o vingativo, que logo foi obedecido pelo gerente. Em seguida, ele pediu para que o segurança humilhado a pouco, o maior dos dois, com cerca de 2m de altura enfiasse o dedo médio no cu do gerente.

De início, o gerente tentou negociar, mas a pressão do advogado foi muita, e coube ao gerente continuar de perna aberta. O segurança, bastante constrangido, mas no fundo querendo rir, enfiou então o dedo no cu do gerente como quem procura o útero de alguém. O gerente se esguichou pra cima e soltou um gemido de desconforto. Depois, o advogado ordenou que o gerente não demitisse aquele vigia por pelo menos um ano, e que no dia seguinte, àquela mesma hora, procurasse no endereço dado o cartão de memória com a gravação, a qual teria certeza que se trataria da original.

O gerente, com muita desconfiança, mas sem muita escolha, teve de aceitar. No dia seguinte, no endereço marcado, estava lá o envelope com o cartão de memória. cinco dias adiante, quando finalmente criou coragem para ver, pra sua surpresa só havia um arquivo de power point com uma mensagem escrita ali: "A única parte verdadeira dessa história é que eu fui uma vítima sua a dez anos atrás". Restou ao gerente, portanto, dar o ano de estabilidade ao segurança, para que este não desconfiasse que tudo aquilo era bem pior do que parecia.

Não pararam de tentar roubar o supermercado depois daquele dia, mas depois de alguns dias o gerente percebeu que no cartão de memória havia uma sigla também de três letras: E C A. E após tomar no cu, o gerente começou a deixar que a justiça fosse aplicada como se deve naquele supermercado.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Ladrão de supermercado - Parte 1 de 2

Ele entrou no supermercado com uma roupa aparentemente normal. Blusa de algodão, calça jeans, tênis. O problema é que era tudo gasto, desbotado, um tanto sujo. Assim que entrou o guarda começou a falar ao rádio, pedindo aos colegas da segurança que ficassem de olho. Ele aparentemente não percebeu e continuou a andar pela loja com um carrinho quase vazio, com apenas duas ou três garrafas de vinho barato. Chegando mais a frente, ele avistou uma embalagem de m&m. Parou perto, disfarçou, andou para um lado, para o outro e acabou pegando a embalagem e colocando no bolso. O fiscal do sistema de câmeras de segurança gravou tudo. O rapaz ainda andou pelo super-mercado por mais uns cinco minutos, abandonou o carrinho e foi saindo quando os seguranças o abordaram. Pediram para acompanhá-los. Ele, com a cara fingida de quem não estava entendendo nada acompanhou os seguranças que tinham o dobro do tamanho dele cada um.

Chegando a sala da gerência, o guarda o encostou de frente pra parede, revistou os bolsos e retirou o pacote de m&m. "Aonde você ia com isso?", pergunta o guarda. Ele não responde, e apesar de estar de costas, o guarda tem a sensação de que ele está rindo. "Seu vagabundo, filho da puta. Tu vai se queimar com chocolate?", debocha o guarda enquanto o força a sentar numa cadeira. Quando ele levanta a vista, se percebe rodeado por três guardas do tipo armário e um engravatado. Essa era a estratégia adotada pela loja pra coibir os pequenos furtos que quase sumiram depois que aquele engravatado (gerente) chegara ali 10 anos atrás.

Conforme o treinamento, o gerente começaria a tortura psicológica com ameaças, berros e humilhações. Em seguida, o gerente jogaria a nota com o valor do(s) produtos(s) na cara do infeliz e ordenaria que ele pagasse aquilo até o dia seguinte. Do contrário, a polícia o acharia onde fosse e só Deus sabe o que viria depois. O meliante então, com medo, contava o endereço correto e no outro dia ia pagar. Essa estratégia jamais falhou durante 10 anos, e afastava os ladrões sem gerar repercussões que pudessem fazer os granfinos que iam a loja se sentirem inseguros. para a loja, espetacularizar os crimes era sinal de prejuízo.

O gerente começou. Berrou ao ouvido dele que lugar de vagabundo era na cadeia. Em seguida, os seguranças, muito bem treinados, continuavam gritando e cuspindo toda sorte de ofensas e ameaças. Mas, inexplicavelmente, a reação do vagabundo ali era de calma. Nem semblante de ódio, nem de desespero. Nada. A face dele estava serena, como se ele fosse o patrão ali. Em meio aos gritos, ele tirou a carteira do bolso. "Ah, agora tu vai pagar, é seu fodido?", berrou um dos guardas, meio sem graça com a situação inusitada. Mas ele não puxou dinheiro nenhum, e sim uma carteirinha. Os gritos silenciaram. Os guardas não haviam treinado para aquilo. O gerente recolheu a carteirinha e ficou que nem um menino quando é pego se masturbando no banheiro pela mãe quando percebeu do que se tratava. Olhou o rosto do ladrão. Olhou a foto de novo. A carteirinha poderia ser falsa, mas também poderia ser verdadeira. O gerente então, sentindo gosto de merda na boca, mostrou a carteirinha aos seguranças, apontando para três letras em especial: O A B.

Conclui na próxima postagem...

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

No Ramal - Parte 3 de 3

Em muitas noites, quando crianças ou não, quiseram acordar de um pesadelo os dois gaúchos, mas noutros, como no vivido por eles agora, gostariam de não estar acordados, e sim  dormindo sob o manto cosmopolita e subtropical do Rio Grande. Estavam  diante da praga, mas não podiam bater ou correr simplesmente porque não sabiam se poderiam. Devido a iluminação de velas, os outros não poderiam ver o semblante de medo dos dois. Ele lembrou o que havia prometido a ela, mas conforme recordava não era no mesmo dia que se pagavam as dívidas prometidas à Matinta, e sim no dia posterior. E ainda assim, conforme lembra muito bem o gaúcho, seria uma velha a desgraçada a perturbar e não uma nova como aquela.

"Bom, como estamos todos estão apresentados, vamo lá pra beira do rio ver a noite passar, depois, quando tiverem pedindo arrego de tão cansados, vocês dois vão dormir aqui com a nossa anfitriã, pois lá na casa do trapiche não tem mais espaço pra atar rede", disse o amigo paraense aos gaúchos, mas a sulista logo disse da melhor forma como conseguiu disfarçar o desespero que não seria de bom tom eles ficarem lá, pois, pareceriam privilegiados perante os outros. O paraense tentou explicar que a razão, de fato, era a da ordem de chegada mesmo, pois quem chegou primeiro atou lá fora suas redes e, além do mais, a dona da casa odiaria ter de dormir só, e, quando soube da chegada de pessoas de outro estado, foi ela mesma quem pediu para se alojarem dentro da casa mesmo.

"Tá bom, a gente vai ficar aqui mesmo", disse calmamente o gaúcho. A gaúcha arregalou os olhos claros e ficou a imaginar que seu companheiro já estaria sob algum tipo de feitiço quando, percebendo instintivamente como ela o encarava, ele mexeu os lábios enquanto subia as sobrancelhas e disse sem precisar de voz: "CAL-MA". Para tomar aquela decisão, ele começou a imaginar que jamais houve qualquer história comprovada cientificamente. As lendas não eram apenas lendas, e, se aquele grupo já teria ido lá várias vezes e nunca aconteceu nada, ao ponto de sempre voltarem lá ano após ano, não seria só ficando com o cu na mão que entenderia aquele mistério. Depois de breve argumentação, ainda sob discreto protestos da moça, o casal de fora resolveu ficar ali dentro. A parceira conseguiu se acalmar um tantinho com a segurança passada a ela pelas palavras do agora destemido gaúcho. Depois do último "boa noite! Vamos deitar porque já estamos cansados", seguido de "nós vamos brincar de beber um pouco lá fora", agora eram só ele, ela e a Matinta na casa.

Foi tudo muito rápido. A porta bateu. A iluminação em todo o ambiente ficou completamente cinza. Ela se mijou mas não conseguiu se contorcer de vergonha. Os olhos dele arregalaram-se, mas não conseguiu gritar. A Matinta não se movia, mas ao mesmo tempo parecia estar em todos os lados; hora distante, hora encarando-os nariz a nariz, hora era um pássaro, hora era a jovem horripilante. Diferente do que aconteceu na mata, eram eles mesmos quem não se moviam. Tinham vontade de gritar, mas não conseguiam; tinham vontade de sair correndo mas as pernas estavam imóveis; tinham vontade até mesmo de pular no pescoço dela pra ver o que acontecia, mas nem isso. Estavam, acordados, vivendo um pesadelo, e o pior: não havia ninguém ali a não ser eles mesmos. Pior do que sentir o terror e o medo, é não conseguir externar tudo isso. Estavam presos num pesadelo alojado dentro de si.

De repente, tudo o que era cinza, passou a ficar absolutamente escuro. E no breu total, ele recuperou os movimentos. "Eu poderia comer os dois aqui e agora, mas não. Vou comer só essa branquinha aí, só pra ela deixar da pavulagem dela", sussurrou a Matinta ao ouvido do forasteiro. Ele, que havia lido sobre a "lenda" mas jamais leu ou entendeu o porquê de temerem-na tanto, agora não conseguia responder nada. Ele esperava resolver aquilo com a razão, mas não há razão sem experimentação, sem certeza previamente testada, e aquele momento era absoluta e aterradoramente inédito. Mesmo tremendo, só conseguiu foi sussurrar, não porque queria falar baixo mas porque só foi possível emitir aquele tanto de voz: "Tenho como te arranjar tabaco agora". Conseguiu ainda pedir, para a criatura deixá-la em paz e levá-lo no lugar. Mas ela somente começou a assobiar como resposta. Todo o breu começou a ser salpicado por pequenos mas constantes flashes de luz. O assobio aumentava, o vento também, os flashes seguiam o mesmo ritmo, e agora ele é quem gritava, dessa vez com a permissão da Matinta. Súbito os flashes pararam, e ainda com a mesma intensidade de ventania e de assobios, ele viu a boca com dentes encavalados da Matinta crescer, alargar-se, dilatar-se até consumir toda a sua amiga gaúcha. Ele correu pra impedir, mas de repente toda aquela boca escancarada virou-se para ele. Ia engoli-lo...

...

O gaúcho acordou com a gaúcha chorando ao lado dele no mesmo colchonete. "Ela me engoliu", dizia ela com o rosto ensopado de lágrimas. "A mim também", pensava ele tentando consolá-la. Suavam frio. Se abraçaram. Eram por volta das seis da manhã. Depois de um tempo abraçados, passaram a ouvir o som dos punhos de uma rede reclamando por ter de balançar. Era um som constante e semelhante ao de uma porta sem lubrificação abrindo e fechando rapidamente. A garota arredou para trás. O coração dele esfriou de novo. Os dois deitaram e ficaram esperando os outros acordarem. De repente bateram muitas dúvidas nele. Aconteceu mesmo aquilo tudo na noite anterior? Como os amigos não ouviram os gritos? Por que não morreram? Como ele e a amiga lembravam a mesma coisa? Bater nela? matá-la? Fugir dali? "Eu não comi vocês porque não estava com fome, mas não prometam mais tabaco se não têm. Eu  já fumei a maconha que vocês tinham aí e estou bem. Só nunca contem essa história a ninguém, a não ser como se fosse lenda", disse a voz entre entre idas e vindas daquela rede encardida.
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* Antes de mais nada gostaria de dizer que amo gaúchos, conheço vários virtual e pessoalmente, e quando pensei em pessoas para ilustrar este conto, não tive dúvidas em por estes.
** A história é baseada em muitas histórias que ouvi a minha vida toda por aqui, e que, por incrível que pareça, adoraria tê-las vivido eu pessoalmente.
***Meu HD queimou, e estou temporariamente sem PC, por isso demorei a postar, e não tenho visitado vocês. Mas prometo que logo-logo volto a encher o saco de todos de blog em blog.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

No Ramal - Parte 2 de 3

Depois do primeiro capítulo...

Quando ele percebeu o assobio aumentar vertiginosamente, ao mesmo tempo em que uma aterradora ventania começou a balançar as folhas, ele quase gritou. Conforme um amigo paraense havia contado e o como ele mesmo já havia lido em livros didáticos, algumas centenas de anos atrás, a Matinta Perera era uma ave que assobiava e assombrava até se transformar em uma velha feia que só a porra; e a monstra só descansava quando o/a perturbado/a em questão prometia tabaco a ela.

Só aí ele percebeu que sua colega de caminhada pelo ramal já estava quase roxa de gritar. Ele teve muita vontade de encher a cara branca dela de tapas, mas seria mais masoquismo do que produtivo, então a abraçou. Nisso, o céu de 18h finalmente desabou dando lugar a uma escuridão total. O assobio parou. A ventania também. Eles ouviram o som de algo pousar, algo pesado, fedorento. De repente, a lua apareceu cheia, mas não iluminava toda a mata. Como um holofote, destacava só aquela criatura, franzina, vestindo um trapo que mal cobria-lhe as pernas magras e o busto. Fedia. Mas não era uma velha, era uma moça.

A gaúcha achou a bruxinha uma coisa horrível. Dentes encavalados apesar de branquinhos, cabelo suplicando por hidratação, unhas sujas, pernas muito tortas, enfim, toda sorte de defeitos que uma mulher consegue achar em outra numa frações de segundo. O gaúcho achou-a tal qual a comida do Ver-o-Peso experimentada naquele mesmo e fatídico dia: meio estranha mas dá pra comer. "Se tu for embora e deixar a gente ir, passa mais tarde lá pra pegar tabaco", disse ele com o cu na mão, lembrando-se da saída sugerida nos livros para aquela situação.

Ocorreu que a jovem Matinta sumiu. Na verdade, nem foi ela quem sumiu, a lua simplesmente deixou de focá-la. Tudo escureceu novamente, e num piscar de olhos, os relógios voltaram ao normal e a lua nova voltou para o lugar de onde não deveria ter saído. Eles se abraçaram. Ela chorava e ele apenas respirava aliviado. Momentos depois eles ouviram vozes. Eram os amigos paraenses que, por já se tratar de mais de dez da noite e sem qualquer contato resolveram verificar se havia algum problema. De fato, havia, mas nenhum dos dois turistas teve força pra contar. "Nos perdemos", justificaram.

Chegaram estourados. A casa onde ficariam era simples. Não dava pra ter muito a dimensão do espaço porque a noite já se ia com muita profundidade. Restou a eles, antes de repousarem, conhecer os anfitriões. "Vamos te apresentar quem está tomando conta da casa. A avó dela, a simpática senhora que sempre nos recebeu aqui já não se encontra entre nós. E esta, gente fina como é, está aqui ao invés de estar viajando a Belém apenas para nos acolher", apresentou o paraense amigo do gaúcho. A anfitriã apareceu lentamente, contra a luz. Os cabelos ressequidos, as unhas, a perna torta. Era ela. Quando os viu, focou toda a sua atenção à gaúcha, e sorriu com os dentes encavalados. A anfitriã era aMatinta. e o cu dos dois voltou a contrair...

Conclui sexta que vem.
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Recebi este selo do meu amigo Antônio Rosa, do maravilhoso blog Cova do Urso.

Como regulamento, para este selo, devo ainda divulgar uma imagem e dizer o que vejo demais nela. A imagem é esta:

Escolhi essa porque representam as coisas com que mais aprendi na última década.

E também recebi da maravilhosa So Sad, de um dos blogs mais originais da blogsfera, chamado 2 + 2 = 5


Gostei muito de receber estes prêmios, mas, quebrando completamente o protocolo por completa falta de jeito pra cumprir a tarefa de escolher entre os blogs que amo, anuncio aqui que esses dois selos são presentes para todos os que sigo e que me seguem. Beijos e Abraços!

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

No Ramal - Parte 1 de 3

A vontade de chegar logo quase cegou os olhos do casal para a estonteante vista da baía do Guajará e o belo por do sol que havia como decoração. Cruzaram numa embarcação diferente, apelidada pelos moradores de Belém de "pô-pô-pô" devido o barulho típico do motor. No início da viagem, inclusive, entenderam logo o porquê do apelido, mas só notaram mesmo o quão barulhenta foi a viagem quando o motor foi desligado, tamanho o alívio para os tímpanos. Após desembarcarem, um ônibus os aguardava próximo ao porto com destino a uma pequena comunidade ribeirinha que despertava o interesse dos dois pelo fato de lá não haver energia elétrica, televisão, e/ou apetrechos "urbanizantes" do tipo. E para quem veio de Porto Alegre passar as férias na Amazônia pelo exotismo, aquele programa os excitava e muito.

Desceram num ramal*, só os dois. Já estava quase na hora das 18 quando sentiram um estranho frio no espinhaço. Um olhou para o outro, e sem falar nada continuaram. 18h em ponto o relógio dele apitou. A hora do remédio teria de esperar um pouco até chegarem ao alojamento. Pelo caminho, só mata os acompanhava de ambos os lados. Durante a andança reparavam que as árvores maiores ficavam  mais ao extremo nos flancos enquanto uma vegetação densa, fechada e aparentemente homogênea faziam uma espécie de muro verde para caminhos brancos encardidos e paralelos, entrepostos por uma espécie de pentelho verde demarcando nitidamente um caminho forjado por pneus. Ela, decoradora, se encantou por um tronco à beira do caminho, pois poderia servir de encantadora mobília para uma casa naquela região equatorial. Depois de andarem bastante, ele resolveu ver quanto tempo já haviam caminhado. Para a surpresa dele, ainda eram 18h. E, mesmo sabendo que o celular estava sem rede, resolveu confirmar a hora. Para o espanto dele, também eram 18h ainda. Ela também olha a hora no celular: 18:00. Frio na barriga. Nas duas.

Uma angústia começou a sambar no peito dos dois. Agudo. Um grito. Uma árvore. Uma possível mobília. A mesma árvore por onde haviam passado estava novamente diante deles. O que era virtualmente impossível até mesmo porque eles estavam caminhando a quase meia hora numa linha reta. Era improvável terem voltado. Eles, desesperados, sem combinar nada um com o outro resolveram correr. E correram. E correram. Correram por um caminho melancolicamente familiar, e novamente chegaram à mesma árvore. Ela começou a gritar. Ele, psicanalista mais ou menos experiente, teve vontade de bater na cara dela mas preferiu pedir calma. Ele precisava pensar. Ela precisava gritar.

Nesse momento, ele lembrou do que o amigo paraense havia falado a respeito dos ramais daquela região. "Como vocês são sulistas é melhor virem no barco das 16h, porque assim vocês caminharão no fim da tarde e não tostarão. Só tomem cuidado pra não entrarem depois das 18h, porque a mata se fecha", recomendou o amigo em tom de brincadeira, avisando ainda que depois das seis da tarde os guias da mata não gostam de visitas sem autorização. Naquele caminho fechado e transbordando de desespero, ele parou, e quando ela chorando gritava para ele falar alguma coisa o gaúcho notou um assobio agudo de uma ave e cada vez mais crescente. "Puta que pariu, agora todas as lendas da Amazônia resolveram sair dos livros didáticos?", pensou ele. Na mata (fechada), o choro, o desespero e a agora a Matinta Perera.

Continua na próxima sexta-feira.
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* Ramais são caminhos quilométricos que ligam pequenas comunidades, ribeirinhas ou não, a estradas viscinais.