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quinta-feira, 10 de abril de 2014

Sobre seca, cerca e orações*



Em qualquer livro de gramática, em qualquer aula sobre sujeito e predicado, as orações sem sujeito são exemplificadas com fenômenos da natureza, porque as ações contidas nestas não podem ser atribuídas a nenhum agente. Por exemplo: “Choveu no semiárido”. O verbo “chover”, como todos os fenômenos naturais, quando usados no sentido literal e não metafórico possuem um caráter impessoal.

Contudo, o ato de chover pode ser substantivo, principalmente em momentos de lamentação, como neste caso: “A chuva não veio”. E a precipitação de água também pode estar contida num outro tipo de oração, mas no sentido de prece: “Que Deus mande as chuvas esse ano para que não haja seca, tenhamos condições de beber água o ano inteiro sem sacrifício, isso melhore a agricultura e possamos ter pasto e bebida pros animais. Amém!”.

Mas, no que se refere à escassez d’água no semiárido brasileiro, chover sempre será parte de uma oração sem sujeito, pois a região com sua característica própria é mesmo um local onde se chove pouco. Se há sujeitos que causam grandes problemas durante a estiagem não são fenômenos da natureza, e a culpa não é das preces não atendidas. Os sujeitos culpados são os latifundiários, os governantes incompetentes e opressores ao longo da história. Jamais as chuvas ou a falta de fé, tadinhas.

O semiárido brasileiro possui a maior concentração de água desse tipo de bioma no mundo. São cerca de 37 bilhões de metros cúbicos estocados em cerca de 70 mil represas que garantiriam, em tese, recursos hídricos para todas as pessoas sem depender da chuva. Mas grande parte desses recursos estão em propriedades privadas e distantes do/a pequeno agricultor/a. Por isso não a seca, mas as cercas e a má distribuição ocasionam a escassez, principalmente para as famílias camponesas. É absurdo que em pleno século XXI o Brasil, atual 6ª economia do mundo, ainda não tenha conseguido vencer os desafios da estiagem, pois apesar do baixo investimento em pesquisa nesse país já há conhecimento científico suficiente para apresentar soluções eficientes a tal demanda. Bastariam para isso sujeitos determinados nos governos.

Culpar as chuvas, depender de preces foi tudo o que organizações como a Articulação no Semiárido (ASA), a Cáritas e outras deixaram de fazer quando passaram a propor tecnologias de armazenamento e produção alternativas para a convivência harmoniosa com tal bioma. Na maior seca dos últimos 40 anos na região - vivida de 2011 a 2013 - por exemplo, já se nota o resultado positivo com um número bastante reduzido de migração, ausência de grandes saques, e daquela típica imagem de retirantes, etc. Com estiagens bem menores os interiores viravam “cidades fantasmas”, as estações lotadas, e hoje o cenário é diferente, porque mudou em parte a forma como as pessoas se relacionam e acessam os recursos.

Portanto, “choverá amanhã” deve continuar sendo uma oração sujeito. Que nenhuma oração deixe de ser o ato de orar e agir; que nenhum sujeito composto (homens e mulheres, campo e cidade) teime em ser oculto diante dos desafios da política de recursos hídricos; nenhum sujeito simples seja vítima de sujeitos determinados e egoístas; que na gramática da vida "chuva" seja sinônimo de "direito" e não de "milagre".
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*Texto publicado originalmente na agenda do projeto Educação Contextualizada no Sertão Cearense, uma realização da Cáritas Diocesana de Crateús, com patrocínio da Petrobras. Versão editada.

3 comentários:

Paulo Roberto Figueiredo Braccini . Bratz disse...

Sensacional sua reflexão ... este fechamento então é portentoso ... guardei ... "que na gramática da vida "chuva" seja sinônimo de "direito" e não de "milagre"."

Amém e que assim seja ...

Eraldo Paulino disse...

Muito obrigado, caro Bratz. Vindo de você qualquer elogio é uma grande honra =)

Bjs!

Michele Pupo disse...

Admiro-te! <3

Que tal uma carreira paralela, de cronista?

Se quiser um empurrãozinho, posso te indicar para a minha Editora.