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terça-feira, 18 de junho de 2013

Os 20 Mil de Belém

Foi na avenida Almirante Barroso que tive minha primeira experiência como manifestante. Na ocasião, há cerca de 15 anos atrás, eu enquanto estudante o como centenas de outras/os pelo grêmio estudantil do então Colégio Pedro Amazonas Pedroso (CEPAP aos mais saudosos) para engrossarmos as fileiras do MST quando fazia um ou dois anos do Massacre de Eldorado do Carajás. Não lembro de muitos detalhes, mas recordo que mulheres, homens e crianças marchavam já há dias para acampar em São Brás, na histórica praça do Operário.

Não sai da minha memória também que as pessoas a frente desse grêmio eram ligadas ao PSTU, e que me senti muito bem acolhido pelas pessoas em marcha. Rostos simples de gente que eu via na TV como baderneiros e que se preocupavam o tempo todo se os estudantes tinham sede, se estavam bem. Choveu naquele dia, assim como ontem, quando caminhei pela mão inversa da Almirante que já não é a mesma. Gritei por coisas parecidas com as que gritei outrora (Passe Livre para estudantes, por exemplo). Se foi histórico pra mim caminhar ao lado do MST em minha primeira passeata, foi histórico para o mundo a data de ontem: 17 de junho.

Nunca dei azar de participar de um ato com forte repressão policial, mas não lembro de uma na qual um ou outro indignado tenha errado na dose. Lembro de uma que participei, contra a ALCA, que paramos em frente ao consulado estadunidense e algumas pessoas chegaram a atirar pedras em vitrais, arrancar gramas e coisas do tipo. Naquela época eu não gostei daquela atitude, e qual não foi minha surpresa ontem quando, já nos primeiros metros caminhados, um rapaz encapuzado abaixou para pixar uma mureta e foi logo repreendido por centenas de vozes anônimas: “Sem vandalismo!”, gritavam. Porém, deixo claro, discordo do rótulo de vândalos manifestantes que reagem contra a PM, embora eu não acredite em violência como solução a nada.

Ontem vi muita gente que me lembrava a mim mesmo quando comecei a me rebarbar contra o sistema. Gente que se sentia motivado a gritar palavras de ordem, mas ainda com certo constrangimento. Gritavam, mas só no auge do coro, e comumente erravam algumas palavras. Mas apesar daquele ar de certa forma frágil de rostos joviais, havia um olhar perene naqueles semblantes, que é impossível de ver em qualquer outra faixa etária com a mesma intensidae: era o olhar da novidade. O novo que não nega tudo que é velho, mas tão pouco reafirma tudo que era dito até então. Por exemplo, se eu fui pra rua há 15 anos puxado pelo PSTU, ontem uma das palavras de ordem que mais ouvi foi o povo mandando a galera com as bandeiras vermelhas tomarem no lugar que rima com “U”.

Ah, mas não poderia deixar de falar do objetivo de mais de 20 mil pessoas que foram às ruas de Belém em consonância com outras centenas de milhares em todo Brasil. O povo tava na rua por causa de vinte centavos, contra a copa, contra a corrupção, contra...; pra ser honesto comigo e com todos os outros que compartilharam por algumas horas o mesmo asfalto sob os pés, essa é uma das diferenças mais atraentes e ao mesmo tempo preocupante desse novo momento: não sabemos onde isso vai dar, mas sabemos que não queremos ficar onde estamos. Eu acredito nisso. E acreditar nisso, senhoras e senhores, é ótimo.

O único congestionamento que eu lembro de ser aplaudido em Belém é o que causa a passagem da imagem da Nazica no Círio rodoviário, quando pessoas aparecem nas janelas e à beira da pista pra aplaudir, homenagear e etc. Ontem eu vi muito disso numa passeata.Talvez porque o povo na beira, sejam os que apoiavam com panos brandos nas janelas, sejam os que no fundo aguardavam uma porradinha contra a polícia para acompanharem de camarote viam ali na imensa maioria de pessoas o próprio reflexo. Uma gente que não quer depredar o Estado, ao mesmo tempo que queria deixar claro que não estava nada contente com ele, ao mesmo tempo que se demonstrava a favor das reivindicações dos “baderneiros”, mas deixaram claro que não querem servir de massa de manobra de nenhum partido e não toleram violência. Alguns verão nisso despolitização. Não que não seja em parte, mas não há como negar o espírito radical disso. Radicalizar não é apenas ir para um extremo, mas também criar outro.

DETALHES
É comum a manifestações fazer silêncio quando se passa em frente a um hospital, mas nunca tinha visto esse silêncio vindo de 20.000 pessoas. Não havia carro-som ontem animando. Ainda bem. Não houve quem manipulasse as falas ou que tivesse a pretensão de querer falar por todas/os. Assim, a recomendação do silêncio vinha de boca em boca, de dezenas de metros à frente até o fim. Foi de arrepiar ver essa grande rede social funcionando ao mesmo tempo que lia em muitos cartazes a mensagem “saia do facebook”.

Eu sempre critiquei as grandes produções cinematográficas e televisivas a respeito de atos públicos. Repare, leitor, que a única palavra de ordem que sabem dizer na tele-dramaturgia é “O povo unido jamais será vencido!”. Eu nunca tinha ouvido isso numa manifestação real. Até ontem. Também havia ontem manifestantes fantasiados de “Homem Aranha” (oi?), gente fazendo poses para fotos ao lado do delegado Eder Mauro, que para quem é de fora, representa aquela figura do policial brabo que mata mesmo os “vagabundo”. Há quem ache isso bonito. Pra mim ganhar fama de assassino supostamente matando a juventude negra deveria render a ele algumas das muitas vaias que berramos.

Talvez a manifestação mais ignorada de todos os tempos da última noite tenha partido de um jovem rapaz, que simplesmente parou sobre um bloco de concreto, de frente para a multidão com uma Bíblia aberta (oi?). Jamais entenderei qual a intenção daquele rapaz, também um radical, certamente. Mas confesso a Deus Todo Poderoso que ri dele. Por minha culpa, minha tão grande culpa.

As únicas confusões que existiram em todo o trajeto foram protagonizados esporadicamente pelos próprios ativistas. Na realidade, o batalhão que acompanhou todo o trajeto mostrava literalmente na cara que não estavam ali para brigar. Eram soldos, cabos e quiçá alguns sargentos nitidamente fora de forma, longe do padrão utilizado quando o Estado quer realmente bater em alguém. Houve também xingamentos e alterações quando um repórter da afiliada da Rede Globo quis fazer uma entrevista – nem tudo pode ser tão diferente mesmo.


Voltei pra casa com o coro mais clichê de todos na cabeça: “O povo unido jamais será vencido”. Essa frase, que mais parece um verso bobo de feicibuqui, simbolicamente saiu de pessoas convocadas em grande parte através desse aplicativo. Eu ri as primeiras vezes que ouvi. Debochei, na verdade, e me peguei subestimando a novidade. Não é de uma palavra de ordem sofisticada que precisamos, precisamos de berros gritados que façam os que estão à margem entender e se motivarem a virem pra avenida da luta. Independente de qual processo vai desencadear a partir daqui, a lição que aprendi na última noite foi que não é de pessoas num pedestal do conhecimento que precisamos, nem de vanguardistas pretensiosos. Precisamos do povo ao nosso lado, com todas as contradições lindas ou não que isso traga. “E precisamos todos rejuvenescer”.

segunda-feira, 18 de março de 2013

O Canalha - Caça 9


Era uma festa normal. Com risos fáceis e nem sempre honestos; porres chatos se achando muito simpáticos; pessoas falsas, porém amáveis e olhares de todo tipo, alguns curiosos, outros ligeiramente pidões e um ou outro explicitamente tarado. O Canalha estava cercado por rapazes e moças. Gente charmosa. Gente formada. Gente bonita. Bando de gene chata, na verdade, que parecia ter saído da mesma forma, daquelas que ainda se escreve com circunflexo. Não que o nosso anti-herói não tenha tesão por mulher bonita, é que ele tinha enorme dificuldade para se relacionar com gente que não era muita coisa além disso.

Eis que ela chegou. Não era feia, mas era uma de beleza difícil, que não pairava na superfície, e sim nas profundezas de tudo aquilo a transbordar dela naturalmente. Ficava a maior parte do tempo escondendo o sorriso, de repente porque tinha um dos dentes um tanto envergado para trás. Tinha os ombros meio fechados, de quem aparentemente passou parte da vida querendo esconder os seios fartos que ela cobria bem demais, pro gosto do Canalha, com uma blusa sem qualquer decote; mas mesmo assim era volume demais para passar despercebido. Ela devia ser afim de um dos caras ali, o mesmo que fez uma enorme careta para o lado quando a percebeu vindo em direção ao grupo. Aparentemente ele a convidou por convidar, como convidara um monte de gente do trabalho dele. E ela, como meio que estava sem programa e sem vontade de ficar em casa mesmo, foi.

De repente ela começou a discordar deles, falar sobre outras bandas menos modinhas e comentar sobre a profundidade de terminologias e a relação disso com as ideologias. No início, todos meio que tentaram embarcar na onda, até que ela sobrou nos argumentos, e aí ninguém mais quis mentir pra si mesmo que queria sair da comodidade da superfície e cansaram de tentar ser simpáticos com a “esquisitinha” e foram saindo um por um.

Antes que a moça terminasse sozinha na mesa, ela ouviu um determinado “discordo” do Canalha. A partir daí, ela argumentava, e ele contra-argumentava. Ela citava uma fonte, ele associava com uma letra de música argentina, angolana ou algo assim. Ela se surpreendia com o conhecimento dele, ele ficava cada vez mais excitado com a inteligência rebelde dela. Quando a conversa engrenou, a cada fala que ela fazia ele se perguntava se ela não faria finalmente a pergunta-chave. Conversaram mais. Muito mais. A essa altura já estavam a sós na mesa enquanto os outros dançavam ou interagiam com outras turmas. E a pergunta não vinha. Ele não poderia fazer indireta nem fazer a pergunta primeiro. Tinha que partir dela.

Enquanto a pergunta não vinha, o tesão dele só aumentava. “Será que ela não está mesmo se interessando? Será que ela está mesmo apaixonada por aquele cara?”, eram alguns dos questionamentos que invadiam a mente já alcoolizada do Canalha. A pergunta que ele tanto esperava era simples: “Você tem namorada?”. Quando essa pergunta surge em meio a uma conversa interessante entre pessoas que estão se conhecendo, sobretudo quando há charme despejado de alguma parte, quase sempre significa que algum interesse já surge da outra parte.

Mas a pergunta não vinha. Até que o Canalha parou de achar que ela viria, porque a conversa fluía muito bem. Então ela elogiou um verso que ele recitou. “De quem é esse poema?”, perguntou a moça. “Ah, é só uma bobagem que eu escrevi um dia desses”, respondeu, sem falsa modéstia. “Gostei muito”, disse ela, invadindo os olhos dele com os dela. Ele soltou um sorriso tímido, desviou o olhar, demonstrando certa fragilidade. “Você tem namorada?”, perguntou ela, inclinando a cabeça pra ver se recuperava aquele olhar que a pouco dominara.

Ele retribuiu o olhar. Não respondeu nada. Chamou-a para mais perto de si, a abraçou forte, deslizou as mãos sobre as costas dela, colocou os braços dela em volta do pescoço dele, e passeou mais com as mãos, chegando ora perto dos seios e ora perto do bumbum. “Não vai responder?”, perguntou de novo. Ele a puxou mais contra ele e pediu ao ouvido dela para ela repetir a pergunta. Ela repetiu. Ele começou a beijar o rosto dela, encostou os lábios carnudos dele o máximo que pode na bochecha macia dela e vagarosamente foi beijando até a boca. Ela comentou que ele tinha jeito estranho de responder as perguntas. Os dois riram. “Estou tão afim de você, que mesmo que eu fosse o Papa eu diria que estou livre, por isso minha resposta é o que menos importa nesse instante”, provocou. Ela tentou dizer que não ficava com homem comprometido, mas antes que ela começasse a língua dela estava o máximo possível dentro da boca dele, sugada, lambida... gostosamente chupada.

Ela demorou alguns segundos para perceber que estava andando para trás enquanto era beijada de forma alucinada. Aí percebeu que estava sendo levada ao banheiro. Tentou dizer que estava tudo indo rápido demais, mas já tinha percebido que era tarde pra isso, porque ela já estava ajudando ele a desabotoar a calça enquanto ele tirava o cinto. Ela queria muito fazer sexo oral nele, mas a vontade dele de descortinar aquele espetáculo no tórax dela era mais desesperado. Ela normalmente gostava de ser beijada ali com carinho, porque doía gestos mais vorazes do parceiro naquela região. Pensava nisso enquanto ele a chupava com força, mordia e apertava bem o outro seio. Ainda doía, mas era muito gostoso ao mesmo tempo. “Acha mesmo que vai me convencer a fazer isso?”, questionou a moça. “Quer argumento melhor do que esse?”, provocou o Canalha, enquanto o dedo dele a invadia vagarosamente. “Posso ao menos dizer pra você continuar, só pra não ficar por baixo?”, perguntou ela, meio rindo, meio gemendo. Depois disso, ouvia-se apenas alguns grunhidos e gemidos abafados vindo de algum lugar entre uma privada tampada e uma porta trancada de um toalete movimentado.

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Post dedicado à Mirella de oliveira (que não é a moça da história)

terça-feira, 5 de março de 2013

Sobre ser e desobedecer

"Vou errando enquanto o tempo me deixar"
(George Israel/ Paula Toller)

"Ai que prazer
não cumprir um dever"
(Fernando Pessoa)


"Outros que contem passo por passo
eu morro ontem"
(Vinicius de Moraes)

"Nossa cidade é tão pequena
e tão ingênua
Estamos longe demais das capitais"
(Gessinger)

"Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta,
que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda"
(Cecília Meireles)

Por Santiago S.V.


Definitivamente não nasci para frequentar lugares onde há certezas demais, onde tudo é muito certo dos caminhos e as regras merecem ser cumpridas. Deve ser por isso que eu nunca abandonei definitivamente a Igreja Católica Apostólica Romana, de repente porque nela encontro-me entre uma minoria de vozes que fazem eco à subversão que em mim habita, independente de ideologias. Deve ser por isso, aliás, que nunca me senti plenamente à vontade em partidos políticos, em grandes movimentos sociais ou algo assim, pois em geral sinto minhas contradições sufocadas nesses espaços e já me basta uma só religião a seguir.

Não desobedeço por desobedecer e não creio que todos devam pensar/ agir como eu, mas é muito chato estar em lugares onde minha beleza não tenha espaço para ser horrível; onde eu não possa ser idiota sem perder o status de inteligente; onde eu não possa ser revolucionário e ao mesmo tempo amar um sectário da mesma forma que amo um pelego ou um doce repressor; ou onde eu não possa fazer a coisa errada tendo a certeza que é a maneira mais certa de agir.

Tem gente que não percebe o "Cabeça Dinossauro" em gente que nunca lançou (ou talvez nunca lance) um álbum melhor que "Televisão". Há gente que enxerga apenas a própria coerência ou a coerência daquele dado grupo pelo qual é "devoto" como luz, sem levar em consideração que o foco dessa luz direciona as sombras. Há gente que entende de jardim, entende de buquê de rosas, de arranjo de margaridas, mas não repara numa flor sequer, muito menos se atenta à beleza subestimada dos espinhos. E há gente que não.

Contudo, já reparei que a gente se sente mais à vontade quando aponta nos outros os defeitos que nós mesmo temos de mais grave.
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Este post foi inspirado no delicioso blog 2 + 2 = 5

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Jornalismo Policial: Atarefa de contar histórias como a de Santa Maria



Sou da periferia, prefiro ser chamado de preto a moreno, não tenho problema nenhum em declarar quando acho outro homem bonito, mas, confesso, até hoje não me acostumei com o rótulo de “Repórter Policial” que me dão, devido trabalhar no caderno de Polícia de um jornal diário do Pará há um ano. Ser repórter dessa editoria quer dizer, por exemplo, que se trabalhasse no Rio Grande do Sul eu provavelmente teria participado da cobertura da tragédia que já matou até agora 235 e deixou outros 118 jovens feridos em Santa Maria/ RS por conta de um incêndio na boate “Kiss”. Lidar com números e informações fortes como essas, acompanhar imagens tensas assim – in loco – e me perguntar todo dia se essas coisas valem a pena é o que tenho feito durante esse tempo. Eu, que jogava esse caderno policial no lixo antes de folhear qualquer jornal, que classificava esse tipo de publicação como JA - Jornalismo Abutre, hoje defendo que a editoria policial não deve acabar tal como precisa ser, e sim tal como é.

Como exercício mental, não de quem precisa de um emprego, mas de quem precisa se sentir importante para a sociedade no que faz, resolvi criar em minha mente um mundo imaginário sem os cadernos de polícia. Cheguei à conclusão de que seria o cúmulo da banalização da vida quando assassinato cometido nas periferias da nação parar de render manchetes, ou quando a morte não for mais notícia. Aliás, é impossível desligar esse debate da questão da criminalização das periferias, ou do racismo propriamente dito. Para mim, a origem de todas as brincadeiras de mau gosto e de toda abordagem desrespeitosa que se faz nessa editoria vem justamente do desrespeito ao valor da vida dos empobrecidos, principalmente negros. Já vi uma jornalista perguntar ao delegado, após mais uma morte na favela, com as seguintes palavras: “Uma vez que a ficha policial desse elemento era extensa, podemos dizer que é ‘menos um’ pra perturbar”? Ela nunca perguntaria isso se fosse o homicídio de um deputado corrupto branco.
Imagem compartilhada no Facebook demonstra até que ponto o preconceito favorece o desrespeito à vida.

Enquanto a morte nas periferias ganham títulos derivados de + 1, são as mortes dos filhos da classe média que costuma ser espetacularizadas. Nesses episódios percebemos o quanto a curiosidade mórbida independe de classe social. Tanto em mortes de viciados negros quanto de estudantes brancos há jornais que vendem como água imagens que mais parecem parte de documentários de autópsia ou fotos de peritos do IML. Percebe-se também que a exploração da morte, da tragédia, da crueldade, é algo que definitivamente interessa às pessoas. Aceitar isso, aliás, foi o primeiro choque de realidade que levei no meu trabalho.

A ROTINA DA REPORTAGEM

A tarefa diária do jornalista de “Polícia” é correr atrás de notícia. Ao contrário das outras editorias, nós dificilmente saímos da redação com algo planejado. As coisas vão acontecendo e a gente tem que criar mecanismos para não perder nenhuma notícia. Possuir fontes no IML, e entre a população é fundamental. Mas nenhuma fonte é mais segura do que a polícia. Por isso existe historicamente nas editorias policiais de todo o Brasil uma relação muitas vezes promíscua entre repórteres e policiais. Diante de nós repórteres, toda sorte de abuso é compartilhada, há jornalistas que até mesmo batem em presos. Até mesmo a linguagem adotada no meio dá a exata ideia dessa relação. O ato de ir atrás de notícias nessa editoria chama-se “Ronda”, por exemplo.

Voltando a falar sobre morte, hoje posso dizer que consegui criar um mecanismo mental que me permite encarar qualquer tipo de imagem de pessoas mortas durante o trabalho. Alguns colegas meus defendem que não é necessário ver o corpo para escrever a matéria, mas eu discordo. O que faz um bom texto é a apuração, e às vezes um detalhe na cena do crime é o elemento mais importante da história a ser contada. Mas o que me faz perceber que eu ainda sou eu, como o peão para os personagens imersos em sonhos no filme “A Origem”, é a compaixão pelos que ficam. No dia que eu parar de ficar com nó na garganta quando percebo que aquilo que escrevo significa uma perda irreparável para muitas pessoas, certamente demonstrará que passou da hora de eu abandonar essa editoria.

Por isso penso que o caderno de polícia já começa errado pelo nome. Os jornalistas dessa editoria não deveriam agir como se fossem assessores de comunicação da PM. A linha de pensamento que move abordagens preconceituosas, racistas e que no fim das contas acaba por incentivar o ódio e a intolerância que geram violência letal é que precisa ser revista antes de tudo. Perceber que mesmo um ladrão, um estuprador ou um assassino de criança também é um ser humano, que existe um contexto sócio-político por trás dos homicídios nas periferias é algo que requer um mergulho muito além da superfície, o qual nem todos estão dispostos a fazer. Afinal de contas, compreender o processo não vende jornal, não rende status, continuar fazendo o que se faz sim. Mas, acredito, é possível prender a atenção das pessoas, vender, sem vender a alma. Vi muitos comentários interessantes a respeito de muitos textos a respeito da tragédia gaúcha – e brasileira – demonstrando que é possível re-humanizar o jornalismo sem perder a clientela.


Não, eu não acredito que isso vá mudar amanhã, mas penso que até lá, quem realmente discorda dessa linha não precisa esperar o dono do jornal passar por algum tipo de epifania para seguir os próprios princípios. A partir de pequenos gestos, como por exemplo ouvir o que os suspeitos têm a dizer, ao invés de escrever “populares” escrever “pessoas”, ao invés de dizer “bandido morto” escrever “vítima”, o olhar já pode ser modificado. O Brasil é considerado o maior país católico do mundo, possui um grande número de protestantes, mas não consegue ser cristão na hora de pensar em soluções para a violência além de punir. A pena de morte em nosso país é uma realidade velada, cujos juízes são os policiais e os advogados são os jornalistas omissos diante disso.

Rogo para que um dia os cadernos e as editorias que lidam com situações de morte possam ter como chavões não mais palavreados importados dos quartéis, e sim dos jardins. E como quem não precisa esperar o carnaval pra poder sambar, eu vou escrevendo como acredito que tenha que escrever, assim como outros bravos colegas. Portanto, é preciso evitar o olhar maniqueísta dos grandes jornais, porque nele há pessoas sensíveis e que quando são competentes conseguem fazer um trabalho digno. Defendo a humanização dos cadernos de polícia, e penso que o título da editoria também poderia ser revista, mas discordo de quem pensa que eles não deveriam existir. Parafraseando Vinicius de Moraes: “Cadernos de Polícia? Melhor não termos. Mas se não temos, como sabê-lo?”

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

SER UM HOMEM FEMININO NÃO FERE O MEU LADO MASCULINO



“Se Deus é menina e menino
Sou masculino e feminino”
(Baby do Brasil, Didi Gomes, Pepeu Gomes)

Não faz muito tempo eu soube de uma confusão armada por uma mulher na escola de educação infantil onde o filho dela estudava o maternal. Era a festa de aniversário de uma coleguinha, que levou bolos, doces e balões para celebrar o dia dela com a turma. Ela não levou balões azuis, apenas cor de rosa, e o filho dessa dita mulher quis levar uma bexiga para casa assim mesmo (apesar da cor). A babá foi buscar o garoto, que quando chegou ao lar, todo alegre, com o balão na mão, viu sem entender a mãe se revoltar e voltar na mesma hora à escola para tomar satisfações. O barraco só não foi pior porque as crianças já tinham ido embora. Ao voltar para casa, a raiva se voltou ao filho e depois de ter dito que aquela cor não era coisa de macho, ela certamente deve ter dito "homem que é homem não chora", ao ver o filho aos prantos.

Poderia dizer que é assim que as pessoas começam a se tornar machistas, mas na verdade não é. O buraco é mais embaixo, ou melhor, mais antigo. A opressão de gênero tem início no mesmo período em que o homem começou a dominar técnicas para literalmente se apossar dos territórios e se iludir ser dono de onde (e de quem) pisa. Através da força, o menino subjuga quem não tem a mesma força física ou não é “detentor” dos mesmos bens, e entre as vítimas principais estão, sobretudo, as meninas.

Antes dos garotinhos começarem a brincar de oprimir e cometer genocídios nefastos para provarem a si e aos outros que são grandes, quando a humanidade sobrevivia da coleta, a solidariedade aferia mais grandiosidade às praticas das pessoas. Nesse período, não por acaso, a figura feminina era endeusada. Mas não era um poder de cima para baixo, e sim uma relação circular de poder, horizontal, de quem prefere olhar ao outro e à outra a mesma altura, e não com a cabeça inclinada para baixo.

E se o branco é superior ao negro, tudo que vem do negro é pecado, criminoso ou feio; se o ariano é superior ao judeu, todo judeu merece sofrer o que o ariano quiser; se sulista é melhor que o povo do norte-nordeste, tudo que vem da parte de cima do mapa é coisa de pobre, mal educado, de quem não sabe votar, desse povinho disposto a invadir a minha terra me roubar. Ou seja, a mesma lógica vale para o homem em relação à mulher. Numa sociedade patriarcal, tudo aquilo que é atribuído à mulher é inferior, merecedor de chacotas e indigno dos seres superiores: os meninos. Na verdade, isso tem até um nome: Misoginia, ou seja, ódio a tudo que vem do lado feminino da vida.

Já se perguntaram por que as meninas usam calça e os meninos não podem usar saia? Já se questionaram por que a mulher diz que a outra mulher é bonita e os meninos não podem? Já se intrigaram com o fato de que menina chegando com balão azul em casa não dá confusão, mas os meninos não podem? Já se inquietaram com o fato do homem gostar de ver mulher pegando mulher, mas não o é assistir a homem fazendo enxerimento com homem? Está tudo interligado. Tudo relacionado ao feminino é tolerável nas mulheres, ainda que considerado inferior, mas, homem traindo a dita superioridade herdada de Deus é inconcebível. Por isso gays , travestis e transexuais são os maiores alvos dos homofóbicos violentos em relação a lésbicas.

Na verdade, como diz a feminista e teóloga biblista Tea Frigério, o patriarcado não fez mal somente a mulheres. Fez mal também ao homem, que negou o lado feminino que todos nós possuímos. Ao homem restou o papel de ser frio, calculista, o que não chora, e à mulher foi colocado o papel de ser mãe, tolerante, a do sim, que não arrota, não peida, e tem de sempre ser linda aos padrões eurocêntricos; sendo que isso tudo é apenas uma capa, pois todos nós somos dotados de ternura e força, sensibilidade e ousadia, carinho e agressividade.

Então o homem mesmo se colocou nessa prisão de não poder demonstrar carinho, sobretudo para com outro homem, nem sensibilidade demais, sob o risco de parecer gay. Ou melhor, de demonstrar que possui algo daquele ser “inferior” do outro sexo. Portanto, aceitar que há uma menina em todo menino pode sim começar a provocar novas relações de poder, uma outra visão de mundo onde a diversidade  e a tolerância podem ser acolhidas com um doce abraço de menina e (até que não reprimam) de menino também. É preciso entender que um balão rosa é mais recomendável aos meninos do que reproduzir as práticas milenares do patriarcado opressor.

sábado, 13 de outubro de 2012

Círio de Nazaré: Ao colo da Deusa



Parafraseando Heidegger, aonde quer que vamos estamos indo de volta pro colo da mãe. O Círio de Nazaré é muito disso. É uma espécie de carnaval de desobediência a nossa sociedade erguida sob forte influência do patriarcado, aonde foi forjada a imagem Deus como Pai. Como o menino, mesmo acreditando que ser dançarino é coisa de veado, mesmo assim vai lá e dança, nós acolhemos Nossa Senhora como o rosto materno de da divindade a qual tentaram limitar nas catequeses ou nos cultos. Porque Deus jamais vai deixar de ser a imagem e semelhança do povo. O Círio de Nazaré é o culto à mãe, à Deusa, ao sublime rosto feminino da humanidade.

Houve um tempo em que a humanidade era nômade. Nessa época as pessoas viviam de coleta, e tudo era comum entre todas e todos. Ali a figura cultuada como sagrada era a da Deusa, e os símbolos religiosos remetiam a partes típicas da mulher (seio, vulva, útero, etc.). Essa era a época do "Poder Com". Depois o homem passou a dominar técnicas de agropecuária, passou a ser senhor de territórios, até esses se tornarem parte de Estados e depois Impérios. A partir daí o homem instaurou o "Poder Sobre". O Deus então matou a Deusa. Deu-se a era dos tais homens fortes, na qual a mulher precisa ser secundária, dona de casa, mãe dos filhos, e só. Mais uma propriedade dos homens.

Mulher pagando promessa pela casa própria alcançada.
Há quem diga que a devoção a Maria de Nazaré é culto a Jesus, querendo limitar a figura mariana como sendo apenas mulher do sim e do silêncio. Alguns católicos doutrinalistas até podem ter essa fé, mas vai explicar ao fiel que só vai à igreja em batizados ou mesmo a umbandistas, aos proibidos de ser o que de fato são nas paróquias (como gays, lésbicas, travestis, etc.) que Maria intercede ao filho, para este levar o pedido ao Deus Pai, para só depois atender os desejos dos fiéis. Arrisco dizer que a maior parte do povo nem liga para essa “burocracia celestial”. Acreditar no poder da Mãe faz ano a ano milhares de romeiros caminharem quilômetros de outras cidades, uma multidão se espremer numa corda,  ou percorrer a romaria de joelhos. Tudo para pagar uma promessa, ou, simplesmente, pela mãe. Para a grande massa Nazica é poderosa e faz milagre. Pronto.

Trasladação - Procissão no dia que antecede o Círio, em que a santa vai até a igreja da Sé para sair à grande procissão
Saber que o festejo já dura mais de 200 anos e existe antes que a igreja do Papa o reconhecesse (chegando a proibi-lo em algumas épocas), é mais uma prova de como a figura da mulher plena jamais morreu. Além disso, é demonstração generosa de qual forma a força da tradição pode existir sem as amarras do tradicionalismo. Assim como ocorre na devoção à indígena Guadalupe ou à negra Aparecida, o culto à "Senhora de Nazaré" nasceu da força popular. Óbvio que a igreja tenta colher os louros, delimitar elementos profanos e sagrados na festa, mas não tem jeito: o Círio é do povo. Os elementos contidos em toda a grandiosidade do Círio, como corda, brinquedos de miriti, pratos típicos e etc., são em grande parte desobedientes às doutrinas carcomidas da igreja de Roma – que até hoje proíbe a mulher de ser sacerdote, por exemplo.

O Círio, embora também seja católico, é uma representação do quão a humanidade ganha resgatando a figura da deusa, pois a festa é sobretudo sinônimo de diversidade. Na programação (não oficial) do Círio há a Festa da Chiquita (de homossexuais), o Cirial (festival de rock independente promovido por muitos ateus), o Auto do Círio (encenação ao ar livre feito por artistas, cuja maioria nem católico é), Arrastão do Círio (festa folclórica) além de homenagens das religiões afro, da participação de fiéis de religiões orientais, etc. O Círio de Nazaré é a nossa homenagem à mãezinha. É deitar no colo dela e receber cafuné. É a devoção ao rosto materno de Deus, a face da inclusão e da tolerância.

*Todas as fotos são do meu amigo e fotógrafo Celso Rodrigues.

**(Texto originado da entrevista que fiz com a Xaveriana Ir. Tea Frigerio, assessora do CEBIestudiosa da Bíblia na Ótica da Mulher)

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Rótulos



"Só não se perca ao entrar
no meu infinito particular"
(Antunes, Montes, Brown)

Os rótulos não preenchem a totalidade nem da mais rasa das pessoas. Certamente porque ninguém é raso a ponto de não ser extremamente profunda/o.
As pessoas são idiotas geniais, pacifistas atrozes, artistas insensíveis, safadas românticas, sábias arrogantes, e tudo mais disso que nem é mesmo isso.
Se as pessoas não fossem mais do que podemos compreender, não existiria literatura e a forma primária da escrita seria uma bula de remédio; e não existiria música, apenas gritos de desespero; e provavelmente não criaríamos arte antes de inventar a fórmula de Báskara.

domingo, 9 de setembro de 2012

O Descobrimento do Universo

Texto feito em parceria com a blogueira Alana, do blog Palavreando...



Ele escrevia contos de fada sobre ela. Fazia daqueles cachos castanhos o travesseiro das suas palavras. E de lá, elas brotavam sorrateiras para cada parte do violoncelo, que para ele, era o corpo dela.

Ela aceitava aqueles olhares com a culpa de quem foi criada num jardim aonde as flores eram proibidas de desabrochar. Tinha vontade de ir, mas só quando já estava de volta. Sonhava com fogo sem ao menos poder ter sido fagulha, e pedia perdão a Deus por imaginar que todas aquelas notas que ele tocava eram sempre lá.

Nas sobrancelhas levemente arqueadas pelo olhar temeroso, ele a observava como se as palavras fizessem dela pôr-do-sol, início e fim ao mesmo tempo, abrindo espaço para um eclipse que aconteceria adiante. Para ele, nas pupilas dilatadas ela era o dragão fêmea, que inescrupuloso cuspia fogo e fumaça em meio ao quarto vazio de tudo que não fosse os dois.

Ela então passou a olhá-lo como quem abre a porta e a tocar nele como quem abre as pernas. Sorria de tudo que ele falava, mirava tudo que ele fazia, mas parecia que quanto mais ela andava menos saía do lugar. Era pecado demais chegar e dizer que o queria. Na verdade, ela se culpava pelo simples fato de querer tanto, mas aquela brasa não parava de incendiar - e um fogo que ela já não conseguia acreditar que aquecia os dois. Por que ele não a tomava para si, se ela já era dele?

Ele, confuso em meio àquilo que o corpo dela lhe dizia, se perdeu. Afundou-se no conto de fadas do qual sonhara fazer parte, e pensou ver sua musa musicista perder-se também nas notas, no fogo e no colchão, deixando-o desnorteado. Ele fugiu então pelos labirintos de onde viera até cruzar com os primeiros olhos castanhos que o esperavam na esquina. Estes olhos, que de musa não eram, trouxeram-no à realidade que não queria viver. Agora, era só o corpo, a culpa,  a puta, o gozo, a roupa, a polpa da noite que chegava ao fim.

Restou a ela a rua da dor que todos percorrem quando a paixão é via de mão única. Ele e a outra. Ela consigo. Ela, ela mesma, e ele nas lembranças. É o que ela tinha, e o que ela era conforme se descobria. Todos aqueles desejos fizeram com que ela achasse com as próprias mãos o caminho do desejo em si mesma. Ela sonhava e a mão descia, apalpava, esfregava. O dedo dentro. A mexida; o contorcer; o contorcer; o mexer; o entrar; o arreganhar e apertar de pernas; o gemido que escapava; aquilo que veio lá de dentro quando ela finalmente chegou. Ao abrir os olhos depois de experimentar o orgasmo, ela viu os olhos que a observavam pela fresta da porta que esquecera aberta. A mãe, ao perceber-se flagrada, foi rezar como quem sente inveja, e a moça sentiu a vergonha de quem não se arrepende.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A Igreja Como ela é - Ela e Eles

Inspirado na Obra de Nelson Rodrigues, conto aqui histórias que deveriam ser mentirosas, mas não são





Era a missa de casamento dela com ele. Ele, o noivo, estava no altar todo contente. De certa forma, aquele momento era uma espécie de troféu para quatro anos tentando conquistar aquela moça linda que, apesar de sempre ter sido solteira e demonstrar carinho por ele, jamais quis namorar. Mas ele conseguiu finalmente emplacar o namoro depois do primeiro e inacreditável beijo. Menos de duas semanas depois disso já estava noivo. Passado um mês, lá estava ele. No altar. Orgulhoso de si próprio. Um vencedor.

Diante do noivo, ele: o padre. Como era o único presbítero daquele lugarejo, não havia outro a não ser ele para celebrar aquele matrimônio. Claro que havia alguns fofoqueiros que só estavam naquela igreja pra procurar defeitos, é verdade, mas todo mundo aparentava felicidade. Menos o padre. “O que o senhor tem? Está passando mal?”, perguntou uma madrinha do altar, pouco antes da cerimônia começar. O padre, sempre faceiro, estava muito sério. “Senti uma pontada no coração, mas não se preocupe. Vai me fazer bem celebrar, tenho certeza”, respondeu, já se saindo para a sacristia afim de vestir a batina.

Ao lado dele, o noivo, e um pouco abaixo dele, o padre, estava ela, a noiva. Ela não chorava. Não sorria. Estava séria. Prestando bem atenção ao que o presidente da celebração falava. A cerimônia seguiu normalmente. À medida que o tempo passava, o semblante dela ia mudando, de passividade à raiva. Ele, o noivo, não notava. Estava muito feliz. Ele, o padre, parecia olhar pra tudo menos nos olhos dela. Conforme o rito já conhecido, ele jurou fidelidade a ela na tristeza, na doença e nas outras coisas. Depois do “aceito”, dele, o noivo, foi a vez dele, o padre, perguntar a ela que antes de responder puxou uma arma debaixo do vestido.
...
Era uma tarde quente da Amazônia quando finalmente o novo padre chegara ao vilarejo. Recém-ordenado, ele foi visitar a casa da coordenadora da comunidade, orgulhosa do fato de que todos os cinco filhos, quatro homens e uma mulher, eram lideranças da igreja. Antes mesmo que o presbítero chegasse, ele já havia se comprometido em ir primeiro a casa dela e depois ir à igreja, tamanha era a moral da mulher. Os filhos na mesa batiam papo com o sacerdote. A filha ajudava a servir. Num desses momentos a moça e o sacerdote se encararam. E ninguém viu quando ele chegou perto dela na cozinha, com o coração palpitante, e sussurrou na orelha escondida sob os cabelos sedosos "você é muito linda!". Ela não fez cara de espanto, ou de irritação. Ela sorriu discretamente desviando o olhar. E ele teve as boas vindas que queria.
...
Ela sentia dor. “Quer que eu pare?”, perguntou ele, todo preocupado. “Pode vir, mas vem devagar, por favor. Não tenho toda a sua a experiência”, respondia ela, recém-desvirginada, a ele, o padre. Antes disso, ele já tinha dito saber que aquilo não era certo, mas estava apaixonado, por isso não conseguia ficar longe dela. Ela disse à mãe que iria à capital. E para a comunidade o padre estava em retiro. Se encontraram numa cidade a 100 km dali. Local onde seria ponto de encontro semanal dos dois a partir de então.
...
Ele, o pretendente, era muito querido por ela, a coordenadora da comunidade. Ela queria que a filha casasse com ele. Posses. Trabalhador. Família boa. Partido melhor não podia haver. Ela, a filha da líder comunitária, não o maltratava por causa da mãe, mas achava ele um babaca. Chegava lá falando de como fez pra comprar o carro novo, como era linda a fazenda, como era viajar de jatinho. Quando isso a irritava em demasia, mais tarde, depois que ele ia embora, ela, a amante do padre, costumava entrar pelos fundos da casa paroquial, e levar tapas na cara, puxadas no cabelo, mordidas no cangote e soltar berros sussurrantes de “Ai meu Deus!” involuntariamente enquanto gozava.

...
A menstruação atrasou. De repente ela viu a chance de finalmente ficar com o ele, o padre. “Eu não posso assumir essa criança! Sou filho único e minha mãe não aguentaria tanto desgosto”, inventou a melhor desculpa que pôde. Durante duas semanas ela tentou convencê-lo de que poderiam ser felizes, e ele já não conseguia mais ter criatividade para desculpas. Então ela, a futura mãe solteira, resolveu tomar uma medida desesperada. Aceitou namorar com o panaca do pretendente, e aceitou casar, desde que fosse logo. Ela arranjou tudo para o padre não ter tempo de fugir ou arrumar outro religioso para presidir a celebração. Ela não queria esconder o filho ou coisa parecida, queria provocar ciúme. Ela aguardava ele falar a qualquer momento pra parar com aquilo.

...
Com a arma na mão, ela disse pra ele confessar que a amava. A igreja toda gritando, a velharada correndo, gente desmaiando, o noivo se mijando, e o padre lá, covarde como era, fingindo não entender nada. Aliviava o coração do homem de batina saber que ele ao menos morreria ali, sem ter de conviver com aquela culpa. Diante do silêncio dele, o padre, e das calças mijadas dele, o noivo, o tiro. Seco. Escorreram do padre, as lágrimas. Do noivo, mais mijo. Pelo vestido, o sangue. Com um só tiro, várias vidas se perderam.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Caiamos em tentação...

... a única coisa que pode ser nova
é nenhuma regra ter.
É nunca fazer nada que o mestre mandar.
Sempre desobeder. Nunca reverenciar.
(Belchior)
O que nasceu primeiro, o pecado ou a lei? Não sei dizer. Mas o romance astral entre a obediência e a desobediência costuma parir as grandes e profundas mudanças da sociedade ao longo do tempo. Estou convencido de que, para o bem ou para o mal, jamais chegaríamos no ponto onde estamos não fosse a desobediência das regras postas. Acredito que a imoralidade de nossa alma nos faz transcender.

A maior figura de nossa era foi, no mínimo, desobediente, graças à desobediência às regras impostas pelas autoridades religiosas e políticas do seu tempo, e por obediência ao que ele acreditava ser um bem maior. Jesus era transgressor. O Evangelho, a "Boa Nova", é uma aula de desobediência. E atire a primeira pedra quem nunca desobedeceu uma regra que lhe pareceu absurda.

Um bom exemplo de que a desobediência desconstrói e constrói é a nossa gramática desgraçada - no sentido de ser desprovida de graça mesmo. Ou como acham que farmácia deixou de ser pharmácia? Como pinguim perdeu o peso chato da trema sem deixar de ser o que sempre foi? Como o chapeuzinho do vovô foi aposentado no por? Graças aos erros. À desobediência. A ortografia oficial, de tempos em tempos, acolhe os erros que aceita. Mas o povo continua "errando" e construindo os futuros "acertos" de amanhã..

Segundo o rabino Nilton Bonder, é nossa alma que nos leva a trair. Quando a menina foge de casa com o namorado; quando fumamos maconha dentro do quartel da PM; quando fazemos sexo dentro da casa paroquial; quando fazemos algo dito imoral, que só nos eleva, é nossa alma que nos está elevando a uma outra condição, que não esta, que não limitada, que não perecível.

A transcendência de nossa existência só é possível a partir da traição, da desobediência à regras que não criamos, e que, ainda que não admitamos, não aceitamos. Mais tarde, essa desobediência se torna regra, até que outro venha e desobedeça. E assim caminha a humanidade. Oprimindo através do corpo e as leis. Libertando atráves dos pecados da alma.Então, que saibamos cair nas tentações que nossa alma grite serem certas.

sábado, 5 de maio de 2012

Mel e Limão - Postagens Retrô 12


Tu és a calamidade de um abraço
O terrorismo de um sorriso
O aconchego de uma tapa.
A mais linda flor do nosso espinho...


Nunca pouco.
Nunca fácil.
Do tipo que manda, grita e bate.
Do tipo que chuta, morde e late.
És mulher que domina para ser dominada
por mãos grossas que a controlem,
uma língua que a inunde,
ou uma tora que a rasgue.
Abre-te apenas à masculinidade da desobediência,
a revolta de quem a jogue na cama;
a veia pulsante do mastro da indecência
(rígida, nervosa e insana).


Uma safada que faz carinho.
Mulher pura que goza.
Amiga; musa da punheta do próximo.
Sonhadora da alameda da loucura.
Terrível como a brisa,
és terna, como o mais doce temporal.


És tu, ela.


Mel e limão!

segunda-feira, 30 de abril de 2012

A Carta


Semana passada, mais precisamente na terça dia 24, eu fui cobri a maior tragédia que já presenciei. Nove pessoas morreram em um acidente horrível numa estrada que liga a Grande Belém ao interior. Tive meia hora pra traduzir o que vivenciei por mais de uma hora, num local recheado de dor, morte, e ao mesmo tempo de solidariedade e de gente viva, na tradução mais intensa que possa existir. Até agora, nesses quatro meses de jornalismo, foi o texto que eu mais gostei de ter escrito (Acidente mata 9 e fere 14 na Alça Viária.)

No dia seguinte eu fui enviado pelo jornal até a cidade das vítimas. Fui com o fotógrafo Sidney, mais experiente e muito bom profissional, e o motorista Gerson, que conhecia muito bem a cidade e foi um apoio e tanto. De lá escrevi a repercussão da tragédia na cidade (Tragédia comove milhares em Tailândia) e o velório e enterro de algumas das pessoas que havia visto mortas (Adeus às vítimas da Alça Viária). Também dei dois furos importantíssimos, nessa última matéria: o fato de que um dos motoristas, o que não teve culpa, sobreviveu quando todos achavam que ele tinha morrido, e o motorista do micro-ônibus, o irresponsável, que, além de ser acusado de ter provocado as mortes, ainda é sargento dos bombeiros.

O resultado veio em uma carta que um leitor enviou ao jornal, parabenizando as matérias. No primeiro momento, achei que seria muita presunção ficar falando disso. Por outro lado, a carta foi publicada no jornal em que trabalho, no último domingo. Portanto, não fui eu quem a divulguei, e seria muito esnobe de minha parte achar que isso não é bom o suficiente que não mereça ser comemorado. Por isso, partilho com vocês a carta que ele enviou. Quem quiser ver as fotos e a edição como ela foi feita, pode procurar matérias no caderno de Polícia nos dias 25 e 26/04 e no caderno de Cidades no dia 27/04 (cuja foto de capa, é uma das fotos mais impressionantes que já vi publicada nos últimos tempos, na mesma que exibo aqui) na edição eletrônica disponibilizada no canto superior direito no site do jornal.

Publicação da carta
UMA VERDADEIRA AULA DE JORNALISMO

Carta ao leitor publicada no último domingo (29) e escrita pelo professor Marcelo Andrade.

Acompanhei, com grande atenção, a excelente cobertura que o DIÁRIO deu ao acidente na Alça Viária, em que morreram 9 pessoas  de Tailândia. Quem leu as páginas e páginas dedicadas à tragédia certamente teve a impressão de estar lá, ao vivo, conferindo o que os jornalistas tão bem traduziram em textos e imagens.

E o que mais me impressionou foi o fato do motorista da carreta ter escapado com vida, sendo a que cabine do veículo foi destruída, esmagada. E as palavras dele disseram tudo: "Só pode ter sido coisa de Deus". Por outro lado, impossível não se comover com a dor das famílias que perderam seus entes queridos. Também me emocionei com a história daquele senhor que perdeu a esposa no acidente e sobreviveu, em meio àquele pesadelo.Disse ele que só lembra do choque, da batida e dos gritos de dor e horror à colisão. E lá pelas tantas os vários corpos, já sem vida, que ainda caíram por cima dele.

Certamente imagens que ele jamais vai esquecer. Assim é a vida: uns morrem, outros escapam, outros nascem de novo. E o que fica é a lembrança, a saudade, o afeto. E é nessas horas que a gente se questiona: Por que o destino parece tão injusto para alguns, que partem de forma tão violenta?

Na verdade, por mais que saibamos que vamos partir um dia, não estamos preparados para isso. E toda essa reflexão me veio a cada dia, a cada página, a cada palavra que li no DIÁRIO sobre a tragédia.

Confesso que não sou muito de ler as notícias policiais, mas o material foi tão bem produzido, escrito e editado que acompanhei a sequencia do trabalho e não me arrependi. Trata-se de um verdadeiro testemunho de momentos difíceis e superação a partir de um trabalho bem feito.

Como já disse, não sou muito de acompanhar o caderno com as notícias policiais, entretanto, já guardei em uma pasta as páginas sobre esse acidente e seu desdobramento. Um trabalho tão bem cuidado merece ser cuidado e novamente lido de tempos em tempos. Parabéns.