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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Sinuca de bico

Matheus era um rapaz mais fodido que qualquer um de nós, mas gostava de parecer o tal. Na geladeira dele, o pai marceneiro e a mãe balconista mal podiam colocar ovo, água e cebola, mas ao guarda-roupas do rapaz, não podia faltar roupas de marca; no bolso, sempre o melhor celular da rua. Matheus estava naquela fase mais aborrecente da adolescência. Tudo pra ele era mico. Nem chamar mais de Matheusinho a mãe  podia mais, quando ele estava perto dos amigos.

Como os pais eram assalariados, quase sempre faltava algo para acompanhar o feijão com arroz à mesa deles. Quando acontecia isso, a solução, obviamente, era comprar ovos, a verdadeira comida dos pobres brasileiros. Mas claro que Matheus jamais ia comprar, a não ser que os ovos viessem acompanhado de uma farta compra, o que, nesses almoços improvisados, nunca acontecia.

Certo dia, a mãe de Mathues chegou doente do serviço. Muita febre e muita dor no corpo.

- O que a gente vai comer, mãe?

- Pega cinquenta centavos na minha bolsa e compra dois ovos lá, meu filho.

***

O cara gelou. Normalmente o que faria numa situação dessas era bater o pé e dizer que não ia e pronto. A mãe, sempre complacente, sabia que nem poderia contar com ele pra essas coisas, e sempre ia comprar. Mas nesse dia, Matheus sabia que era diferente, porque além da mãe estar doente, ele estava morrendo de fome, e comer um ovo pra quem está faminto e não tem mais nada pra comer com feijão, arroz e farinha é um verdadeiro banquete.

***

A mercearia ficava bem na esquina. O sol escaldante da Amazônia era completamente inofensivo contra o suor frio do menino. Tudo o que ele queria, era que ninguém mais estivesse na rua. Seu sonho naquele momento era fazer o trajeto de ida e volta da casa até  a mercearia (cerca de 100m ao todo) despercebido. Não pode haver vergonha maior para um adolescente com mania de grandeza do que ser visto comprando ovos pra almoçar.


***

No dia anterior, a prima de uns amigos chegou à rua, vindo de uma colônia no interior do estado para estudar na casa dos tios. Darlene o nome dela. Quando ela chegou, por acaso, ele estava lá com seu celular de último tipo e suas roupas absolutamente descoladas e cabelo cheio dessas frescuras que se usam hoje em dia. Ele a percebeu impressionada com ele. Estava em seus planos ir de novo à casa dos amigos pra ver se conseguia alguma coisa com ela.

***

Para o bem de Matheus, não havia ninguém na mercearia. Ele pediu os ovos com a rispidez de um chefe comandando um empregado ineficiente. A dona da mercearia olha feio pra ele, mas evita entrar em discussão. A mulher põe os dois ovos no saquinho de plástico transparente. "Não tem uma sacola plástica daquelas brancas?", pergunta ele, recebendo resposta negativa. "Puta que pariu!", pensa ele.

Pra piorar, próximo à taberna, Darlene sai da casa dos tios ainda recebendo comandos do que comprar. Apesar de ela já estar na rua, Matheus percebe que Darlene não o avistou, devido as últimas instruções da tia. E, a partir daí, enquanto o cu dele aperta mais forte que as mandíbulas de um jacaré, começa a fervilhar em sua mente um verdadeira enxurrada de idéias do que fazer a respeito. (digoaelaqueéprafazerbolo?devolvopramulheredigoquedepoispego?saiocorrendodaqui?digoqueépromeuvizinho?caralhooooooooooooooooooo!!!!).

A solução que ele encontra é tirar rapidamente do saco e colocar cada ovo em um dos bolsos da frente de sua bermuda. Como os bolsos eram grandes, ele conseguiu disfarçar pra ela o que era. Ele vai andando com o olhar leve, aliviado, e a encara muito mais regozijando o recém-triunfo do que qualquer outra coisa. Mas para ela, o sorriso estampado no rosto dele era um cumprimento qualquer. Ela fica esperando ele dizer oi. Ele não diz porque tudo que ele quer é chegar logo em casa. Ela passa por ele, e só aí parece que ele volta a respirar novamente. Alíviu...

De repente, uma tapa forte. Era a mão dela batendo no bolso dianteiro dele, objetivando bater na mão daquele menino tão legal que conhecera no dia anterior e que parecia estar tirando com a cara dela. A mão dela bate na mão dele. A mão dele bate no ovo. CRACK!

- Ei! Não vai falar comigo, não?!

- FILHA DA PUTA!

***

Com um ovo, um ego e uma futura namorada a menos, ele finalmente chega em casa e frita o único ovo que sobrara para a mãe. A ele, restou comer arroz e feijão com farinha para aquele almoço, e a lembrança traumática para o resto da vida.

15 comentários:

Adison César Ferreira disse...

Isso me fez lembrar do tempo em que comprava açucar ao invés de farinha, ou café ao invés de açucar, enfim... na minha infância em que comprava alguma coisa errada na taberna e minha mãe me obrigava a voltar lá e trocar o produto. bons tempos..

Michele P. disse...

Como diriam meus alunos: "Perdeu playboy!" risos

Curti o conto!

Raquel de Carvalho disse...

kkkkkkkkkkkk
Ahhhh que orgulhosoooo!!!!!
Foi bem-feito pra ele!!!! ehehehe
Adorei!
beijos

[Ananda] disse...

é perdeu playboy.
xD
é ,infelizmente,ainda tem um monte de adolescentes idiotas como esse,lá na minha escola tem um monte .args.

Kelly Criis disse...

hahhahahaha
ficou com fome o bonzão!
sifudeOu
amei o texto heheh

Luna disse...

toma, bem feito.

e tem gente assim, né? bando de mané.

e não sei aí, mas na minha cidade, um ovo caipiria com baião de dois, é uma delícia.rs

beijos.

Nini C . disse...

Nuss, adorei. Mto bom te ler.

Luna Sanchez disse...

Sendo otimista, uns 9 anos de terarpia darão jeito. ;)

Beijo, beijo.

ℓυηα

Valéria Sorohan disse...

De que adianta viver de aparência se o estômago está vazio.

BeijooO*

***MissUniversoPróprio*** disse...

Muito bom. Pena que hajam tantos Matheus por aí afora...

Ótimo conto!

Obrigada pela visita e pelo carinho, querido. Beijão!

Batom e poesias disse...

Oi meu lindo

Não sei se fico com dó dessa criatura em idade abominável, ou se acho que mereceu a lição.
Tento não julgar.
A vida dá um jeito de ensinar tudo.

Excelente crônica.

Bicadinhas (de leve)
Rossana

Altavolt disse...

É isso aí, grande Eraldo! Aborrecentes metidos e arrogantes (ou qualquer pessoa que come mortadela e arrota peru) têm mais é que tomar na tarraqueta mesmo! Abração!

Déia disse...

rsrsrsrs

O pior foi a meleca do ovo, saindo do saco e melecando a calça de marca kkkk

Chupa chatonildo kkkk
bj

Tânia Meneghelli disse...

Pô, mas esse Matheuzinho era bem cheio de coisinha, né? Que que tem traçar um zoião? Eu acho uma delícia! kkkkkkkkkkkk!

Beijocas!

Eraldo Paulino disse...

Adison:

Eu também sofria desse mesmo mal (e ainda sofro) rsrs

Michele P:

Perdeu legal mesmo rs

Raquel:

É, Raquel... e olha que conheço uns por aí piores... rs

Ananda:

Foi bem feito mesmo!

Kely:

Só lamento por ele rsrs

Luna:

Tem gente até pior, infelizmente.

Nini:

É recíproco. Me sinto muito bem no teu canto também.

Luna Sanches:

Com ele só tapaterapia mesmo rs

Valéria:

No caso dele, quase literalmente, né? rs

Miss:

Também fico sempre muito feliz quando desfilas por aqui.

Batom:

Me mele de batom sempre que quiser rs

Alta:

Melhor do que tomar no cu é tomar na tarraqueta rs

Déia:

Cheirinho bom, né?

Tânia:

Chupou legal mesmo!