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segunda-feira, 5 de julho de 2010

A Igreja como ela é - restauração da família

Baseado na obra de Nelson Rodrigues, conto aqui histórias que deveriam ser mentirosas, mas não são.

RESTAURAÇÃO DA FAMÍLIA

Periferia de Belém. Mais do que o casamento, a fiel cristã evangélica não aguentava mais carregar todo o peso do lar em suas costas. O marido bêbado e desempregado e os três filhos que teve com o alcoólatra crescendo e necessitando não só de alguma coisa pra comer e vestir, mas principalmente de uma estrutura pra mais tarde poderem usar aquele velho clichê com sinceridade em relação a família ser a base de tudo e tal. Tudo isso fez com que a fiel procurasse ajuda do pastor que pregava coisas tão emocionantes aos sábados em que ela conseguia ir à igreja carregando sua prole consigo.

Ela começou a fazer o tratamento espiritual sempre indo só à casa do Pastor que ficava num bairro distante dali. Ia lá porque a capela estava ainda em construção, e no lugarejo em que morava não havia espaço apropriado para uma conversa e uma experiência de oração tão sensível como a que estava posta. Para conseguir participar, ela deixava os moleques na casa da mãe. Enquanto o marido estava numa sarjeta qualquer tomando todas ela estava orando junto com o Pastor na casa dele, orando, chorando ou ambas as coisas (na maioria das vezes).

Mas, sem qualquer motivo e imersos a muita culpa, os interesses dela passaram a mudar à medida em que o tratamento ia ganhando contornos de intimidade. Em seus pensamentos, pelo menos, a partir da terceira sessão já não se tinha a real medida de quando começava a fiel e terminava a infiel. Os olhares deles, mais do que qualquer palavra, passaram a se cruzar. No início, cada um se perguntava "será?". Mas logo cada um se perguntava "será que alguém viu?".

Depois de dois meses de tratamento, a palavra "restauração familiar" não era mais discutida entre eles. Na verdade, nem ao trabalho de orar eles se davam. Quando não estavam transando com aquele misto de prazer e pecado que só aumentava a intensidade do orgasmo que tinham, estavam discutindo como sair do armário.

O pastor saiu daquele bairro. Ela saiu daquele casamento. A fiel voltou a ser fiel. E ao interior que foi, o pastor continuava pregando a indissolubilidade radical do casamento. As vezes até usava um daqueles três filhos que ganhou em sua família pré-moldada como exemplo da necessidade do matrimônio sólido, conforme diz a Bíblia. Amém!

12 comentários:

Sil disse...

Eita que este assunto é tão complexo quanto verdadeiro...

=\

Bjos...

Nathaly disse...

Tudo em nome do amor, meu caro... tdo em nome do amor...

Lury Sampaio disse...

Pelo menos com isso ela conseguir largar o bêbado imprestável...
beijos.

Luna Sanchez disse...

"Deus escreve certo por..."

Pois é, eis a prova!

=)

Beijo, beijo.

ℓυηα

Valéria Sorohan disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Valéria Sorohan disse...

Não a condeno faria o mesmo, nenhuma mulher sonha com bebados em sargetas!

BeijooO*

Raquel de Carvalho disse...

Retrato da vida, do ser humano!
Ninguém é obrigado a tolerar o que não quer ou de resistir à o que se quer!
Gostei muito!
Beijos

Rosane Marega disse...

O amor e a voracidade possuem mesmo uma relação safada e sublime...concordo com você Eraldo e saiba que adorei a sua visita em meu cantinho romântico, seja sempre muito bem vindo...gosto demais de passear em tuas escritas.
Beijosss

[Ananda] disse...

é a igreja como ela é,sempre assim com suas histórias cabeludas.

Alline disse...

E não é que a fiel cristã deu um jeito de ser feliz? Gostei do encaminhamento das coisas, pois é assim que a vida é: imprevisível.

Beijo, beijo, beeeeeijo, Eraldo!

Atitude: substantivo feminino. disse...

Sempre há um risco sujo de Nelson Rodrigues por detrás das cortinas das belas casas e das belas fotografias, pode apostar.
Bjou

Valéria Sorohan disse...

Eraldo, estou de casa nova e espero sua visita, meu endereço agora é http://rasurassobreviventes.blogspot.com

BeijooO* te aguardo!