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segunda-feira, 12 de julho de 2010

Pena de Dumbo


"As pessoas tem que acreditar
em coisas invisíveis pra fazer o bem
Tudo o que se vê não é suficiente
E a gente sempre evoca o nome de alguém"
(John - Pato Fu)

Quando era criança, lembro de ter visto o filme do Dumbo, um elefante que tinha as orelhas tão grandes que com elas podia voar. O filme mostra que alguns corvos percebem que aquele defeito (orelhas enormes) do elefantinho poderia tornar-se em uma grande virtude, mas não conseguiam convencer o animal depressivo disso. Para tanto, os corvos deram uma pena qualquer para o Dumbo, e convenceram-no de que aquela pena tinha poderes mágicos, e com ela ele poderia voar, bastando que ele batesse as enormes orelhas como asas. Funcionou. O elefante aprendeu a voar acreditando no poder da pena. Mas na hora da apresentação ao público da façanha, o elefante perdeu a pena, daí os corvos tiveram que convencerem-no de que a pena era uma mentira, e que na verdade o elefante voava porque simplesmente tinha essa capacidade. E com muito custo conseguiram, inclusive.

Para mim, essa história é o arquétipo das religiões, que utilizam simbologias para convencer os fiéis a fazerem o bem. Na verdade, gostaria de associar a estória do Dumbo ao processo de amadurecimento na fé. Pois, pergunto eu, como já perguntei antes aqui inclusive: Se inventássemos uma máquina do tempo para voltarmos dois mil anos atrás e descobríssemos que Jesus não ressuscitou ao terceiro dia e nem fez todos aqueles milagres tal como a Bíblia diz, será que ainda restariam muitos cristãos na face da terra? Provavelmente não.

Os corvos poderiam arranjar qualquer pena e dar ao Dumbo, e com isso continuar enrolando o "cara". Mas não. Preferiram revelar a verdade num gesto de amor. Entretanto, as religiões quase nunca fazem isso. Elas se apegam (e fazem apegar) mais à pena do que com a superação pessoal e social dos fiéis. A pena, ao invés de ser instrumento de um vôo libertador então acaba sendo um instrumento de dominação, segregação, e, por que não dizer, de burrificação. Toda fé que não amadurece ao ponto de perceber que a pena é uma mentira (bem intencionada ou não) é uma fé burrificada, superficial e demasiadamente apegada à instalação hidráulica em detrimento da água.

Um pastor que admiro muito (Carlos da Igreja Metodista) certa feita disse que a maior descoberta da vida dele foi perceber que Deus não é cristão. Está certo ele. Deus não é cristão, não é islâmico, não é hindú, etc. As religiões são dispensáveis. Deus não é, se for um Deus que até usa a estratégia da pena, mas que no fim contribui para que seu amigo (isso mesmo) voe por si só, mas não para si só, que seja verdadeiro e lute pelo que é verdadeiro, que tenha fé mas não renegue a inteligência. Se na tua igreja não te disseram que Adão e Eva e toda a bíblia são metáforas da vida e não A VERDADE ABSOLUTA, por exemplo, desconfie. Podem estar querendo que tu fiques dependente da pena, pra que na verdade tu fiques na mão de corvos malvados.

"É certo que milagre pode até existir
mas você não vai querer usar
Toda cura para todo mal
Está no Hipoglós, no Merthiolate, Sonrisal"
(John - Pato Fu)

12 comentários:

Alline disse...

É uma pena que o teu último parágrafo não teria apoio de muitas igrejas. Aliás, será que teria de alguma? As pessoas talvez preferiam viver com suas fantasias... eu acho que é isso.

Beijo, viu?

Lury Sampaio disse...

Eras concordo plenamente com a sua visão, acho que isto é um dos lados ruins que eu vejo em certas religiões.
Muito obrigada pelo carinho e pela dica, espero que facilite os comentários...
beijos.

Luna Sanchez disse...

Esse post tem um Q diferente dos demais, algo que ainda me escapa...mas tem.

Não percebo interesse nas religiões em colocar a "pena" no lugar que lhe cabe. Daria trabalho colaborar na formação do senso crítico coletivo, enfim.

Beijo, beijo.

ℓυηα

Atitude: substantivo feminino. disse...

Há muito corvo por aí.
O ideal seria que todos lessem seu post e fizessem essa bonita análise comprativa que vc fez entre a igreja e o Dumbo.
Pena que muitos só acreditem na pena..e não consigam voar.

Fátima disse...

Muito boa tua crônica. Gostei muito

Beijo meu

Valéria Sorohan disse...

Suas escritas são sempre fortes e a entrega sempre por um triz.

BeijooO

Altavolt disse...

Excelente post, Eraldo! Também concordo que o verdadeiro amor jamis prescinde da verdade. Falar a verdade e viver na verdade são sim as principais formas de amar. É claro que não estou falando daquela verdade maldosa, dita e aumentada apenas para ferir as outras pessoas. Estou falando da verdade boa e producente, que não quer iludir e enganar ninguém. Infelizmente, parece que ser verdadeiro e honesto está completamente fora de moda no mundo atual. Só vale a imagem e a aparência. A essência das pessoas tem sido cada vez menos valorizada. E como tem pilantra vendendo a verdade por aí e enganando todos aqueles que estão loucos para serem enganados! Desculpe a viajada, mas seu texto realmente abre toda essa possibilidade de discussão. Parabéns! Abração!

Batom e poesias disse...

É muito difícil viver sem fé. Achei que andava sem nenhuma, mas percebi (a tempo), que o que não tenho mais é religião.

Melhor, não quero mais me atrelar à nenhuma instituição onde no fim, tudo se resume em duas coisas: poder e vaidade.

Será que é um pecadão?

Muito oportuno seu texto.
Adorei a analogia com Dumbo.
Só você...
:)

bjcas

Nini C . disse...

Ah, eu espero que sim, bom saber que o que eu escrevo pode inspirar alguma coisa, kkkk...
Adorei seu texto, eles sempre me fazem pensar... Beijos...

[Ananda] disse...

bonito,gostei muuito moço.
a fé está em cada um e nao em religiões,e as pessoas as vezes precisam só de um empurrãozinho para ver q nao é a igreja q faz elas fazerem coisas boas e sim elas,a igreja serviria apenas para suporte,pena q atualmente as coisas parecem ter mudado de lugar,por isso q as vezes td isso me cria dúvidas sobre Deus,e etc,mas ele existe em quem acredita,está em cada um(minha idéia louca de Deus).bom,bjssssssss

Déia disse...

Post perfeito!
Pra mim, a pena, está em nós!

Mas é necessário que as igrejas emburreçam seus discípulos...sem pensamento crítico, sem decisões acertivas o mundo segue seu rumo na direção que eles querem!

que pena!

bj

Renata de Aragão Lopes disse...

As religiões são obras do homem.
Todas falíveis, portanto.

Um abraço,
Doce de Lira