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quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O mercado dos ungidos

Antes de começar a descer o pau, gostaria de dizer que a minha crítica será direcionada muito mais ao discurso geral dos/crentes do que propriamente contra os/as crentes. Entretanto, se algum/a crente se sentir vilipendiado pelos meus comentários, sinta-se dedado/a pelo meu dedão do pé como forma de agradecimento.

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Todo mundo já ouviu alguém usando termos como: “música do mundo”, “instrumento consagrado”, “música de Deus”, etc. Especialmente protestantes de denominações neo-pentecostais e católicos neo-pentecostais. Basicamente, tais afirmações não são de todo sem sentido, muito pelo contrário, sem querer entrar num debate biblista, é plenamente coerente defender tal discurso com bases sólidas bíblicas, e com isso ser muito convincente. Mas assim como Cristo fez distinção clara entre cristãos e não cristãos, defendendo que os cristãos não deveriam se contaminar com as coisas que os afastem de sua fé, Ele também não fez isso em relação ao dinheiro? Ou ele não disse pra dar a Cézar o que é de Cézar e a Deus o que é de Deus? Ou ele não disse que pra entrar no Reino do Céu o rico teria que vender tudo que tem e dar aos pobres?

É aí que reside a minha crítica quanto ao discurso de músicos consagrados e tal, porque pra mim esse discurso é muito mais uma estratégia de Marketing do que propriamente uma filosofia de vida. Pensem comigo, se eu tenho um grupo enorme de pessoas, um grupo além de enorme, crescente de pessoas, e consigo incutir neles/as que os produtos de nossa organização são portas para o céu e tudo o que não for vendido por elas são portas para o inferno, eu não tenho uma ótima fonte de renda como resultado? Lógico que sim. Mas o quanto o mercado fonográfico gospel/católico é lucrativo ninguém comenta... talvez por medo de que sua consciência os/as force a dar tudo o que ganharam de excedente aos pobres.

Essa prática de demonizar a mercadoria do concorrente é muito recorrente no mundo dos “mundanos”. Alguns anos atrás um comercial do Guaraná Antártica mostrava um cara numa colheita dizendo que ele estava lá pra colher a matéria prima do Guaraná Antártica (o guaraná), e provocava a rival Coca-Cola desafiando a multinacional estadunidense a mostrar a sua principal matéria-prima (folha de coca). Entre o comercial censurado em menos de uma semana do Guaraná Antártica e o discurso dos/as crentes a respeito das músicas mundanas há uma enorme semelhança, pois, o sonho de todo empresário é derrubar a concorrente e ter o mercado livre da silva pra enriquecer e morrer podre de rico.

Eu não estou defendendo com isso que as pessoas não possam vender os seus produtos, ganhar a vida honestamente fazendo aquilo que amam. Estou questionando o tipo de discurso, pois já vi muitas pessoas serem discriminadas por essa balela proferida por padres, pastores e crentes afins. Hora, se esses caras querem realmente recusar aquilo que é do mundo, porque o vaticano não vende a sua propriedade bilionária e dá aos pobres? Por que as igrejas protestantes não vendem suas propriedades e dão aos pobres? Ou vão me dizer que o carro importado do pastor é consagrado e está a serviço de Jesus, o mesmo Rei que nasceu num lugar fedendo a cocô de vaca e disse que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que o rico entrar no Reino?

Recentemente a Som Livre contratou Padre Fábio de Melo, Adriana e Aline Barros. Contratou porque é lucrativo. Afinal de contas, crentes não compram tanto CDs piratas como os seres do mundo. E agora? A Som Livre é consagrada? Eu, pra falar a verdade, fico muito contente que isso esteja acontecendo. Músicas neo-petencostais são um saco mesmo, sempre com aquele discurso: “eu sou um pobre e miserável pedaço de bosta;, Deus me manipula como uma marionete e se eu erro é porque o Diabo roubou as cordinhas de Deus por minha culpa, porque deixei de louvar e orar”. Mas agora, pelo menos, talvez esse discurso excludente e opressor de separar o joio do trigo só pelo rótulo da embalagem caia, ou pelo menos diminua.

Como diria o professor de geografia Fabiano, o capitalismo não é orgulhoso, tanto é que é camisa pra tudo quanto é lado estampando o rosto do Che dando lucro pra burgueses. Como os neo-pentecostais bebem da ideologia liberal/neoliberal do mesmo jeito que eu não ouço músicas religiosas babacas, penso que os empresários travestidos de ungidos darão um jeito de mascarar o discurso pra manter a aparência de coerência. Eu, como consolo para os revoltosos, me comprometo a resenhar músicas neo-pentecostais aqui, especialmente as mais tolinhas, para pelo menos lavar a nossa alma mundana.

2 comentários:

Elaine disse...

Olá Agô,

vivemos um fenômeno novo no Brasil que é o interesse de empresas nada religiosas se interessarem por produtos ligados a uma religião específica, no caso o cristianismo.

Sim, o motivo é o lucro, mas não acho isso nada de errado, pois se elas lucram são mais impostos p/ o país e empregos.

A música gospel é um estilo de música diferente das demais e tem público, se é uma música mais vendável, que seja! O povo gosta.

Mas, prefiro as músicas do Pe. Fábio, são mais poéticas e te ensinam mais a viver. É música católica mesmo aquelas da MPB que ele canta, pois ele dá um novo sentido a elas. Na música "O Caderno" ele faz uma analogia interessante entre Deus e nosso primeiro caderno.

Paz e bem!

Agô disse...

Adoro as letras de Pe. Fabio de Melo, e adoro o fato de ele não entrar nessa de demonizar as músicas não católicas, pois consegue enxergar o sagrado fora das entranhas acimentadas dos templos. Não tenho nada contra quem ganha dinheiro fazendo música, tenho é contra os discursos opressores de alguns. Adorei seu comentário Elaine, um pouco de serenidade nesse blog não vai nada mal. rsrsr.
bjs!