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domingo, 7 de novembro de 2010

Sobre o Tropa de Elite 2

“Como pode a gente ter uma polícia cujo o símbolo é uma caveira? 
Ter uma polícia cujo o símbolo é a morte?”
Frase do "Cara dos direitos humanos"

Eu lembro que vi o primeiro filme numa daquelas cópias piratas que vazaram antes mesmo de ser lançado nos cinemas. Em resumo, o que comentei sobre a película na época foi que apesar de ser uma porcaria policial com violência gratuita, pelo menos era uma porcaria bem melhor que as porcarias holywoodianas. Tropa de Elite apresentava um formidável anti-herói, o Capitão Nascimento, fazendo exatamente tudo aquilo que a elite gostaria de (ver) fazer com a ralé da sociedade: cuspindo, torturando, matando, executando, humilhando, etc. Mas ganhava dos filmes policiais tradicionais (segundo os padrões estadunidenses) porque ao mesmo tempo que saciava a sede de sangue do povo, também fazia uma certa reflexão social a respeito da violência. Inclusive, apontando o dedo rude na cara dos próprios filhos branquinhos da sociedade. 

Mas em última análise, não gostei do primeiro, porque apesar da qualidade inegável do filme, ao fim, parecia que todos os problemas do mundo seriam resolvidos pelo BOPE. Aliás, nunca na história do cinema mundial vi um filme se pendurar tanto nos colhões de um batalhão especial como aquele. O filme parecia ter sido encomendado pela PM, sinceramente. Com essa impressão eu fui com meu amigo ver o segundo. Compramos exatamente os últimos ingressos da última seção para ver o filme.

No início, o principal algoz de Nascimento é exatamente um defensor dos direitos humanos. A platéia lotada, óbvio, ficou incondicionalmente ao lado de seu herói, o agora Coronel Nascimento, quase de forma passional, ainda que o roteiro muito bem escrito dispusesse o militante fazendo uma reflexão serena e madura a respeito da violência policial. Parecia que a própria platéia estava afim de pegar uma daqueles fuzis do BOPE e sair atirando em pretos favelados toda vez que Nascimento criticava o "cara dos direitos humanos". Mas, no decorrer do filme, experimentei uma das melhores sensações da minha vida, pois, na medida em que a trama ia se desenrolando, Nascimento ia desconstruindo a sua própria tese e vendo que o inimigo era outro: o sistema. E o público outrora xingando os direitos humanos, descobriu ao lado do herói todos os alicerces da carnificina em nome da lei perpetrada pela polícia e pelo próprio BOPE ruírem sob a sujeira do sistema.

Me lembrou a história que nunca confirmei ser verdadeira utilizada por um pai para convencer o filho a deixar de usar drogas. O coroa começou a se drogar junto com o filho. O filho então, percebendo que o pai estava mal por sua sua causa, resolveu de desintoxicar junto. Foi exatamente essa a sensação. E já que a história era uma ficção, eu saí da sala de cinema pensando se talvez o diretor José Padilha arquitetou isso desde o primeiro filme. Pensem comigo: o filme vaza, e estoura, trazendo todos os elementos que certamente o povo adoraria, como violência desmedida, um personagem bonitão e carismático etc. Depois, o próprio diretor lança um outro filme corajosamente "desdizendo" tudo dito no primeiro sem deixar a peteca (do carisma de Nascimento) cair. Uma forma perfeita de fazer o povo refletir dando exatamente aquilo que o povo quer e depois fazendo o próprio povo ver o que nem sabia se poderia.

O Coronel Nascimento não subiu só de patente do primeiro para o segundo. Mas, levando milhões de espectadores consigo, percebeu que somente a inteligência dos incomodados superará aquilo que causa a maioria dos males de nossa gente: a inteligência dos ímpios. Se ao fim do primeiro filme temos vontade de sair atirando, ao fim do segundo, saímos cometendo a heresia contemporânea de refletir sobre a vida. E quem disse que o maniqueísmo não pode ter fins pedagógicos? Eu por exemplo, antes já cogitava, agora decidi que vou fazer meu TCC sobre a influência da mídia sobre a violência nas periferias - outro elemento muito bem apresentado no filme.

21 comentários:

Foose disse...

Olá meu caro!

Brilhante sua analise!!! Me senti até um pouco ameaçado!Depois dessa vou parar de fazer críticas de filme!Rsrsrs... Vc falou tudo... o filme é realmente bom! Amadureceu os personagens e a historia! Saí sessão com a impressão de que nosso cinema está amadurecendo! E isso é muito bom! Só acho que esse filme tinha que ter sido lançado antes das eleições! E as frases do "cara do direitos Humanos" Foi inspiradas nas baboseira que o sylvestre stalonne falou a respeito do BOPE e do Brasil. Parabéns pelo belíssimo texto, amigo!!!


Um grande abraço...

Priscilla Marfori... disse...

Esse filme foi uma das melhores produções do Brasil, particularmente posso dizer até do mundo, é um filme real, que em base com a história do Rio, fez-se repleto de espectativas, todas superadas!
Exelente e olha que eu não sou lá muito fã de filme nacional hem! hehe.
B-Jos.

Suzana Martins disse...

Acredito que foi a melhor crítica que já li sobre o filme. Uma análise sobre o primeiro filme e o despencar de palavras que atingiu o seu eu no segundo. Fiquei impressionada com a verdade dita e analisada. Sensibilidade pura!!

Adorei demais!!

Beijos

tonhOliveira disse...



Não vi o 1,
nem o 2,
não verei o 3
e nem o 4...

Mas quero uma realidade com um "happy end"!

Mete o PAUlino!

:)

Luna Sanchez disse...

Pode-se dizer, então, que foi quase um orgasmo mental coletivo, hein?

Ainda não assisti mas gostei muito de saber a tua opinião a respeito, meu querido.

Beijos enormes!

ℓυηα

Valéria Sorohan disse...

Você traduziu o filme perfeitamente. Essa sua crítica ficou excelente. Sutil, sonoro, supremo. Eu amei. Vc acertou o alvo, descaradamente. BINGO.

BeijooOs

Jamylle Bezerra disse...

Foi exatamente essa a impressão que eu tive ao assistir ao segundo filme. Parece que ele (o José Padilha precisava fazer o primeiro filme exatamente daquele jeito, para que o segundo viesse como um balde de água fria para todos os que defendem a violência e a atuação do Bope. Muito bom o filme. Vale a pena assistir!!!! MESMO!!!

Boa semana!!!

Hana disse...

Olá, então eu vi o filme, achei super violento, detesto este tipo de filme, fui em companhia do meu filho, mas olha adorei a ideia do tema para seu TCC, vai ser muito show assunto não faltara sobre o tema!!
com carinho
Hana

disse...

Nossa... será q essa historia é verdadeira? Porq se for... realmente nao dá pra explicar o amor existente na relação entre pais e filhos... eu me lembro de uma vez que a uma senhora me disse que como nao tinha R$ pra pagar os exames do filho pra saber se ele tinha diabetes, ela simplesmente tomou o xixi do filho pra saber se estava doce ou nao e então ter certeza q o menino tinha...

Excelente texto, como sempre, bjoka e boa semana!

Nini C . disse...

Assisti o 1, mas não sinto a menor vontade de assistir o 2.

Boa semana, beijos...

Batom e poesias disse...

Você vai se dar muito bem no seu TCC, pois além de articular muito bem, a mídia é mesmo tão, mas tão influente que ando me sinto culpada por ser branquinha e heterosexual.

bjim
Rossana

Atitude: substantivo feminino. disse...

O dois é realmente melhor que o primeiro pela amplitude..pela reflexaão do entorno.
Aqui..não sei se te ajuda ou se tem algo haver mas meu cinhado defendeu uma da influência dos jogos violentos (videogame) no crescimento.
Talvez ajude. Posso te passar uma cópia da dele e o contato.

Alline disse...

Oi, Eraldo!
Eu vi o primeiro e gostei, mas sem fazer nenhuma análise mais profunda. E não tinha nenhuma intenção de ver o segundo, porque perco o interesse quando falam muito num filme. Agora que você levantou essa bola, uma luzinha se acendeu. Vou conferir, sem esquecer teu comentário.

Um beijo!

Lizzy S. disse...

Eu ainda não vi o segunda, mas o seu comentário a cerca do filme me deixou com muita vontade de vê-lo.
beijos.

so sad disse...

ainda nao consegui ir ao cinema pra ver o filme.
aumentou a vontade...rs
beijo!

***MissUniversoPróprio*** disse...

Olá, querido!

Olha, não tive nem vontade de ver, nem o 1, nem o 2... a gente se decepciona tanto com os noticiários, vendo policial vendido e etc, que não me apetece ver um filme onde, ao que me parece, a polícia é mostrada como salvadora da pátria.

Claro que existem [ainda e apesar de] os policiais guerreiros e corretos, mas acho que são tão poucos, que nem animam a gente.

Beijão e obrigada pela visita e pelo carinho. ;)

Fátima disse...

Oi Eraldo,
Saudades!

Ando numa louca correria..rs mas bem.
Vim te deixar um beijo, eu volto.

SolBarreto disse...

Sei que é direto e claro, entao nao sei se gosta dese tipo de coisa...mas gosto tanto do seu Blog...que essa foi a forma que encontrei de expressar isso, espero que goste!
http://palavraspelocaminho.blogspot.com/2010/11/selinhos.html

C. Mantovani disse...

Muito sincero e direto! Esclarecedor!

Boa semana....mega beijo!

Crônicas do Cotidiano disse...

Mas tú tá me saindo um crítico cinematográfico de primeira hein!Rs...
Gostei da tua análise Paulino! Muito bem tecidas... Não assisti ao bope 2, mas vou olhar e futuramente debato contigo.
Um abraço meu nobre e parabéns pelo brilhante post!

Dai disse...

Eu gostei muito do segundo. Você falou muito bem, inclusive. Eu achei que essa faz uma reflexão muito maior que o primeiro, mas ao mesmo tempo você sai um pouco desesperançado, acho que nada, nada derruba o sistema.

beijo