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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Minha utopia

Semana passada explodiram nas ruas de Belém grande manifestações de trabalhadores da construção civil reivindicando melhores condições de trabalho (pois só esse ano já morreram 09 trabalhadores nas obras de Belém), além de salários mais dignos¹. Belém é uma das cidades que mais lucram com a construção civil atualmente. Em cada esquina há um prédio sendo levantado, os condomínios horizontais também se proliferam, e enquanto os ricos ganham casa nova e os empreiteiros enriquecem, os trabalhadores continuam na miséria, morando em bairros desestruturados e tendo acesso a péssimos serviços públicos essenciais, como educação, saúde e segurança. Portanto, é claro que eu fiquei emocionado (e frustrado por não ter podido estar somando nas fileiras) ao ver uma multidão vermelha na rua, pois eu sou filho de pedreiro, e sei o que significa a exploração sofrida por essa classe.

As manifestações me fizeram lembrar porque eu sou socialista². Sim, eu sou socialista. E não me tornei socialista depois que li Karl Marx, depois de vestir blusa com rosto do Che Guevara ou quando fui convertido a algum partido político; eu me percebi socialista ainda criança, crescendo numa família cujos pilares eram um pedreiro e uma secretária do lar, vendo meus pais trabalharem mais que todos os meus tios metidos a riquinhos e mesmo assim ganhar menos. Na verdade, na minha infância eu não ganhava mais que um par de tênis por ano, só ganhava roupa nova em dezembro ou quando tinha alguma festa importante (tipo 15 anos, casamento, etc.), nunca fui com meus pais almoçar em restaurante chique ou viajar (se quer) a outro estado a passeio, enfim, não tinha luxo, mas jamais essas limitações foram para mim motivo de insatisfação, pelo contrário, eu tinha minha família, minha casa (ainda que humilde), quintais pra brincar, comida na mesa - ainda que fosse só um ovo frito com farinha, amigos, eu tinha tudo que uma criança precisa de verdade pra ser feliz, mas também tinha tudo o que uma criança pobre precisa pra saber quanto o capitalismo é nefasto.

O que mais me revoltava era a forma como me tratavam só porque eu não tinha o que a televisão dizia que eu tinha que ter, porque minha pele demostrava que eu não comia todas as vitaminas que tinha que comer. E antes de ser discriminado nos lugares que a elite escolhe pra frequentar sem a presença desagradável da ralé que não esteja uniformizada como serviçal (e fui discriminado nesses locais como ainda sou até hoje), eu fui discriminado pela minha própria família. A ala da minha família que era de classe média tratava os filhos dos tios pobres de maneira diferente a que tratava os filhos dos tios "bem de vida"³. Era gritante e revoltante a diferença. Certa vez, quando disse que ia ganhar um videogame, eu tive que ouvir que pra eu ter um videogame eu teria que passar fome por três meses pra isso. Outra vez um primo meu foi esbofeteado por um tio, porque brincava e fazia barulho perto dele, só porque ele também era um primo "da ralé". Foi ali, convivendo com essas violações, que eu fui perceber na prática, que não ter é diretamente proporcional a falta de respeito, e eu não conseguia naturalizar aquilo.

Mais tarde, lendo os teóricos, eu simplesmente fui entender racionalmente o que meu coração já me dizia: Que esse mundo é injusto porque existe gente injusta e outras injustiçadas. Sinceramente, quando eu dedico boa parte do meu tempo a militar, a tentar somar com aqueles que ousam se inconformar com o que está posto, não são as violências que sofri o que mais me motiva a continuar, e sim o sentimento dilacerante que me vem ao peito quando penso que muitas crianças sobrevivem em condições bem mais cruéis do que as que  vivi. O mundo em que vivemos é pior que Esparta, pois quando não matamos a crianças que não servem, a maltratamos até que ela se arrependa de ter nascido. Por isso sou socialista, porque caminhar para nunca mais ver uma criança sofrer me motiva mais do que ficar parado achando que isso nunca vai acontecer.
_____________
1 - O Sindicato das Indústrias da Construção Civil se recusa a dar reajuste de 20% aos trabalhadores mas não  se importa em lucrar mais de 200% em cima do esforço que cada um/a trabalhador/a faz nos canteiros de obras. Os/as trabalhadores/as estão no sétimo dia de greve.
2 - Eu disse que sou socialista, não aquilo que o Stalin dizia que era.
3 - Alguns pequeno-burgueses da minha família são legais.
Hoje eu também estou nos Imputáveis.

14 comentários:

Michele P. disse...

Quando crescer, quero ser igual a você!
#aplausos

Beijos

Mirella de Oliveira disse...

Como é que vc faz?

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Nossa, Eraldo! Estou sem palavras.

Bom... Eu me emocionei com o teu texto e compreendo e concordo MUITO com a tua luta!

Injustiça sempre haverá! Mas sabe o que me faz nunca perder as esperanças em um mundo melhor!? PESSOAS COMO VOCÊ!

Parabéns!

Muitos muitos muitos aplausos!
:D

Luna Sanchez disse...

Eu sou tua fã e isso vai além do carinho todo que tenho por ti : sou fã da tua postura crítica, consciente e do teu idealismo.

Um beijo, seu bonito.

Batom e poesias disse...

Eraldo
Seu texto é intenso como sempre, e permeado por tão grande franqueza, que fico em dúvida se a força motriz dessa ideologia é senso de justiça social ou apenas rancor dos seus tios...
De qualquer forma, o resultado foi ótimo.

bjs
Rossana

Titi disse...

grande texto.. ótima reflexão
abraço =)

[Ananda] disse...

Porra,acabei de escrever um texto e tentar mandar e deu erro,tava tão legal.
enfim,vou tentar reescrever bah esquece vou simplificar na minha linguagem chula de garota,mina ,guria ,sei lah o q mas dá ralé.

1) eu acho escroto e uma puta falta de sacanagem isso e não consigo me naturalizar com esse tipo de coisa,eu sofri já com isso e essa tbm é uma das coisas q me faz ter tendências a socialista ,anarquista e sabe isso faz parte de mim já.
2)Estou conhecendo algumas dessas literaturas e até me esforço pra aprender essas coisas de onde ou aonde q pra mim não faz diferença mas sempre me cria um abismo pq algum puto vem falar q falo errado e escrevo em português errado.
3)É ralado sofrer esses preconceitos e outros por" I don't have money,money"..
Bom,um beijo garoto ralé que eu amo evou continuar a ouvir blink e Pink Floyd daqui.Te adoro.

Alline disse...

Tu me fazes ver que a vida é capaz de doer. E eu te agradeço por isso.

Beijo, meu querido!

O Impenetrável disse...

super interessante essa sua visão sobre a realidade das coisas.

grande abraço.

Maggie May disse...

acho que todos que têm consciência são socialistas!
mesmo uma pessoa que tenho nascido com alguns privilégios, mesmo que nunca tenha passado algum tipo de privação, mesmo que só tenha conhecido tempos bons, se existe um coração batendo lá dentro do peito, este sempre vai entender as necessidades do outro!

Paulo Braccini - Bratz disse...

Querido amigo, desculpe a ausência, estive viajando ...

Esta sua postura crítica e o seu idealismo me fascinam ... parabéns ...

Sil disse...

Oiii
Vim agradecer o comentário..
Só que vc me deixou com um ponto de interrogação na cabeça, o que é "Scandurra"??...rs

Bjos

Átila Goyaz disse...

entendo a sua frustração, eu faço parte da parte pobre da família, mas nem por isso também busco a felicidade, mesmo que à beira de uma derrota. bjus!

Altavolt disse...

Grande Eraldo,

Parabéns pelo post honesto e corajoso. As similaridades das nossas infâncias são tão grandes que cheguei a pensar que eu mesmo tivesse escrito o texto. Fico mais feliz ainda por se tratar do ideário de um rapaz muito jovem. Nossa juventude precisa de bons valores e belos conceitos, e você os tem em profusão. Ao ler esse texto, sinto um grande conforto, ao ver que existem pessoas lutando e querendo um mundo melhor, mais humano e mais justo em termos de oportunidades para todos. Grande abraço!

Eduardo Rodrigues disse...

Tive a oportunidade de participar da marcha de abertura dessa greve. Foi uma experiência muito interessante. Estar ali, junto com a classe mesmo, com trabalhadores, saca? É diferente de você participar das mobilizações estudantis onde todo mundo ou boa parte das pessoas integram o seu círculo de conhecidos (próximos ou só "de vista")... Passamos de construção em construção, primeiro com poucos trabalhadores, depois o número foi crescendo e a coisa foi ficando cada vez mais emocionante, ficando mais séria. O peso da realidade foi se dando e aquele entusiasmo que dá, aquela sensação de estar vivo, caminhando meio a uma mar de gente... nossa.

Queria muito que a gente pudesse estar junto nesse dia pra botar o papo em dia, discutir umas idéias, mano. Dividir um pouco dessa sensação bacana, desse espírito que se fez presente no teu texto.

Abraço forte