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terça-feira, 23 de julho de 2013

ESPIRITUALIDADE DAS JUVENTUDES - Transformar água em vinho

Enquanto a santidade de um beijo molhado casual, a caridade de uma noitada numa boate com as amigas e/ou a fé num mundo melhor e possível forem assuntos conversados sem filtros apenas ao lado de fora da igreja, dificilmente conseguiremos aceitar plenamente a dimensão da espiritualidade que habita/ emana das juventudes. Por mais que alguns organismos teimem em atrair jovens para um curral onde velhos discursos possam ganhar o verniz de novas gírias, em algum momento as cercas serão puladas, quiçá quebradas por eleas/es, por mais que nem toda novidade seja “louvável” para quem perderá alguma coisa com a mudança. 

A Boa Nova cristã vive um desafio perigoso desde a sua gênese: ela incomoda os poderosos. A jovem Maria sabia disso, pois segundo a comunidade de Lucas (Lc 1,52), ao carregar “A novidade” no ventre ela cantou que “Ele (...) derruba do trono os poderosos e eleva os humildes”. Ao mesmo tempo, segundo a comunidade de João (Jô, 1-11), o primeiro milagre de Jesus garantiu que a festa, a alegria e a bebida de alguns adoráveis bêbados não acabasse, e transformou a água da purificação em vinho. É como se Jesus transformasse água benta em cachaça, no primeiro grande símbolo nesse evangelho de que o Messias era Deus em forma de homem, vivendo isso até as últimas consequências; o Divino que adiante sangraria pelo bem dos homens e das mulheres.

Talvez não seja exagero pensar que hoje algumas pessoas realizam o trabalho de evangelização das juventudes trilhando o caminho inverso. São vinhos que são convidados a serem transformados em água, alegria que precisa ser desfigurada em respeito, sexualidade que precisa ser reduzida a pecado, ousadia que precisa ser regredida ao status de desobediência. Mas isso apenas no nível do discurso oficial, de algumas publicações talvez, porque na prática o “Espírito sopra onde quer, você ouve o barulho, mas não sabe de onde vem, nem pra onde vai” (Jô 3, 8). Quem sabe as juventudes ainda sejam aquele garotinho, “perdido” dos pais dentro de um templo, evangelizando quem acha que sabe mais do que ele (Lc 2, 41-51).

Quantas/os de nós, no trabalho com jovens sabemos enxergar que até dois pães e três peixinhos de um rapaz ou de uma moça são suficientes para alimentar uma multidão faminta (Jo 5, 5-15)?  Quantos de nós não somos os irmãos mais velhos daquele filho mais jovem e mais amado pelo pai, que por inveja o atiramos no poço e o declaramos morto, ou pior, o vendemos por qualquer preço?; ou mesmo não somos aquele irmão mais velho que se acha mais merecedor do abraço do Pai do que o irmão todo errado, como aquela jovem que engravida precocemente, seja o adolescente apreendido e exibido ao vivo nos telejornais, seja aquela menina rotulada como alguém que não tem nada na cabeça?

Querer o certo ao errado, aliás, é o maniqueísmo no qual caímos em tentação todas as vezes que não compreendemos que as juventudes precisam construir com as próprias mãos e sob auxílio dos mais velhos um caminho. O fetiche das multidões e grandes eventos tem sido o grande inimigo do processo no qual a/o jovem precisa amadurecer em todas as dimensões de sua própria existência, e não apenas ser mais um número. Não estaríamos querendo que os jovens apenas digam “Eis-me aqui”, ao invés de apresentar o desafio de um “caminho aberto”?

Já pensou se a pedagogia de Jesus Cristo fosse baseada apenas em fórmulas de fácil solução, como declarar a fé incondicional, só cantar coisas de Jesus e jamais desobedecer? Tadinho do São Pedro. Seria excomungado quando duvidou que atirar de novo as redes ao mar depois já ter tentado tanto daria resultado; seria convidado ao confessionário por ser um homem de pouca fé e não andar sobre as águas quando chamado; poderia ser preso ao cortar as orelhas do soldado que prendia o Mestre ou seria chamado de herege por negar Jesus no momento mais difícil. Mas foi esse “homem de pouca fé” que ganhou a honra de chefiar a igreja, de repente porque Jesus conseguia enxergar como poucos que os defeitos expostos não são necessariamente piores do que os ocultos.

Temos jovens nas periferias, no campo, nas obras, nas bocas de fumo, na cadeia, dentro do templo, num abrigo esperando adoção, na rua esperando esmola ou no seu quarto esperando um novo videogame. E temos ao redor deles uma sociedade e uma igreja adultocêntricas que se enamoram da beleza e a energia jovial dessas juventudes, e que gastam grande parte do tempo construindo fôrmas para elas. E para quê? Será possível construir um caminho para as/os jovens sem ter a frente disso elas/es próprias/os?

É interessante ver que de lugares onde a opressão do racismo histórico imperavam surgiu através das mãos dos jovens o Blues, o Roquenrol, o samba, o funk carioca, o hip-hop, o tecnobrega, o manguebeat, o cordel, o forró, os solos de Hendrix, alguns dos atletas mais maravilhosos da história, como Jordan, Bolt, Pelé e Cia. E se o Espírito falou através de Maria que Jesus viria para elevar os fracos e destronar poderosos, como não dizer que tudo isso é fruto do Espírito de jovens ousados apesar de tudo? Os sacerdotes e levitas de hoje deveriam voltar de onde acham que devem ir e aprender com a sabedoria desses samaritanos (Lc 10, 30-37), todos eles mais próximos dos jovens do que muitos sermões e pregações.

Como o padre Hilário Dick costuma dizer, “A juventude é o sacramento da novidade”. Essa espiritualidade renovadora e, por que não dizer, transgressora, brota de quem tiramos o alimento que parece pouco, mas suficiente para alimentar milhares de famintos; é o que ajuda a sobreviver os que são atirados no poço e ainda assim aceitam o desafio de entender os sonhos dos outros; é quem dá coragem para quem diz um sim conseqüente, independente do perigo; é o que ilumina aquela/e que erra pra caramba, mas que no fundo quer muito acertar.

A espiritualidade das juventudes, portanto, é o impulso fundamental da novidade, o novo que precisamos, mas nem sempre aceitamos. Querer a juventude em suas baias e não aceitar a novidade que ela trás é um contrassenso, é o mesmo que dizer amar o Jesus loiro, de olhos azuis, o da misericórdia e que não chama palavrão, e negar que ele também foi desobediente, transgressor, e revolucionário a ponto de desagradar todas as elites da época e sofrer as consequências disso. Da mesma forma, não adianta fazer o discurso de que aceita a renovação e não querer correr o risco de modificar o que aparentemente é puro, ou sem dar voz para falar o que pensam aqueles que de alguma maneira louvam. Ou gritam.


5 comentários:

Paulo Roberto Figueiredo Braccini . Bratz disse...

sensacional! um tratado e tanto querido ... só me resta compartilhar ...

Franci Martes disse...

Extraordinário, como não ler algo assim e sentir que seu pensamento foi traduzido. Excelente amor, você é a mente que traduz a minha.

Dama de Cinzas disse...

Muito bom seu texto! Até já tinha pensado nesse assunto, mas você colocou de forma escrita de maneira sensacional.

Beijocas

Douglas Marques disse...

Perfeito. Assino embaixo.

Eraldo Paulino disse...

Muito obrigado pelo carinho, Paulo, Franci, Dama e Douglas.

Abraços!