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quinta-feira, 22 de março de 2012

Sobre água e conflitos...

Até os cinco anos de idade minha família e eu morávamos numa casa de madeira, no bairro da Sacramenta em Belém. Vivíamos sobre o igapó, ou, como queiram, uma espécie área alagada com água insalubre. Nossas ruas eram pontes nem sempre seguras. Vez ou outra alguém caía delas na água suja - devo ter caído algumas vezes, inclusive. Quando chovia, as casas que lá se encontravam ficavam mergulhadas no igapó. O nosso drama familiar só foi resolvido porque o irmão do papai nos cedeu o terreno em área seca no qual minha família mora até hoje.
Partilho isso porque há 20 anos a ONU celebra no dia de hoje (22/03) o Dia Mundial da Água. E quando a gente fala de água, não falamos só de água pra beber.Enquanto minha família, empobrecida, não teve outra escolha na época a não ser morar numa região onde havia águas indesejáveis. Até hoje muitas pessoas na Amazônia acabam tendo que morar sobre pontes (palafitas) ou a beira de canais onde estão as "águas que não servem". Ou seja, as pessoas que para a sociedade capitalista "não prestam" moram perto da "água que não presta", enquanto que, as "pessoas que prestam" vivem perto da "água que presta", como em frente a praias badaladas.
Eu moro na Amazônia, que concentra cerca de 8% de toda água doce do mundo. Daqui a 20 anos, nós mesmos aqui na Amazônia podemos não ter água pra beber, e isso não vai ser porque desperdiçamos água, e sim porque as águas que temos estarão todas contaminadas pela ação indiscriminada do agronegócio, das mineradoras, das indústrias, e até mesmo pelos esgotos de lares que não passam por tratamento.
Daqui a 20 anos, nós teremos praticamente a mesma quantidade de águas que temos hoje, mas elas estarão poluídas devido à irresponsabilidade desse sistema que vivemos e a falta de um desenvolvimento solidário sustentável e territorial.
Água não é mercadoria, nem propriedade dos ricos e dos seus empreendimentos. Água que não presta não deve ser bebida de quem não tem dinheiro para comprar água mineral nem moradia para quem não tem onde morar. Privar as pessoas do direito de usufruir da água, que é dada para nós gratuitamente pela grande mãe Gaya, é cruel. No futuro, muitos não morrerão de sede. Muitos morrerão pela sede de poucos.

8 comentários:

Paulo Roberto Figueiredo Braccini . Bratz disse...

Parabéns Eraldo ... é impressionante como tudo isto fica só no discurso né? Autoridades só pregam mas não fazem nada e a sociedade se omite ...

bjão

Michele disse...

Eraldo

Você é o tipo de pessoa que deveria estar no "poder", agindo em prol das "minorias".

Um beijo

Mirian Oliveira disse...

adorei tua reflexão sobre o assunto...

consegues perceber coisas que os outros não percebem ou pelo menos fingem não perceber... e sei o quanto isso te aflige e te incomoda...

parabéns mesmo!!!

bjs

Fátima disse...

Oi Eraldo, saudades do cê.

Obrigada pela partilha e por essa critica social, muito bem escrita, realista, derramando sentimentos.

Beijo meu

tonholiveira disse...



Tim-tim!


Traga-me um copo d'água
tenho sede...♪


Sabe lá
o que é morrer de sede
em frente ao mar...♪

♫...pode ser a gota d'água...♪

"Sem mágoas!"

Chega de gan...ânsia!

Abraço-tchê!

:o)

Batom e poesias disse...

Uma confissão, uma denúncia, um manifesto.
Uma triste realidade.

Você ainda vai fazer a diferença!
bjs♥

Rossana Masiero

♥cinderela♥ disse...

Parabéns pelo texto!
Que bom seria se a maioria pensasse no próximo assim como você!



Beijos e Sorrisos.

[Ananda] disse...

Vc faz a diferença meu querido.Sinto uma enorme falta tua.É um absurdo que ainda exista essa situação,sei bem o que é,já vi lugares assim.
Espero sinceramente que as coisas melhorem,que haja uma mobilização maior de todos os lados para essa situação mudar ,há tempos essas pessoas já deveriam morar num terreno em área seca,na verdade,nunca deveriam morar num lugar desses.Nunca deixe de fazer suas críticas.Bjs moço.