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terça-feira, 9 de agosto de 2011

A Ideologia da Língua

Gente, a partir de quarta feira eu ficarei ausente por pelo menos 15 dias. Durante esse período deixarei uma postagem programada pro dia dos pais e não poderei visitar meus companheiros de blogsfera no período. Aqui escrevo um texto que a muito queria fazer, mas que não cabe em dois parágrafos. Como vou ficar um tempo longe mesmo, caso não tenham paciência de ler de uma vez, leiam por parte, caso queiram. Fiquem bem, tá?

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"Não há nada mais ideológico do que a língua", comentou um amigo meu, na época estudante de letras na UFPA. Estávamos sob o efeito sagrado do vinho na ocasião, e como a "pauta" não era aquela acabamos falando sobre outras coisas. Mas tal frase ficou na minha cabeça como uma das poucas coisas que minha memória errante (no sentido de errar mesmo) não esqueceu. No primeiro momento, avaliei que isso era o tipo de frase normal (apesar de forte) de quem estava empolgado com o curso ou coisa parecida, mas como bom aspirante a jornalista, procuro ir a fundo de tudo que me provoca curiosidade. E assim fiz.

De fato, cheguei a conclusão de que pode existir algo tão ideológico quanto a língua, mas não encontrei nada mais. A língua oficial é muito mais do que um patrimônio cultural de um país, é um elemento de dominação e imposição ideológica. Temos cerca de 194 países no mundo, e a maior parte destes falam inglês, francês espanhol ou português, e isso só é possível graças a dominação violenta que os países de origem dessas línguas impuseram a países belicamente mais frágeis. Até mesmo nos próprios países, o dialeto oficializado foi imposto como identidade nacional à população que continha várias etnias até a língua ser o que é hoje nesses locais.


Ou vocês acham que na gramática oficial da língua portuguesa nós usaríamos "fato" e não "facto" se o Brasil não fosse politica e economicamente mais importante que Portugal na atualidade? O acordo de países que falam português é mais fraudulento do que o fato da ONU existir pra manter a paz, e só tem servido mesmo aos interesses brasileiros, tanto que o novo acordo ortográfico é praticamente uma imposição do português falado aqui. Querem ver uma coisa? Desafio aqui qualquer um a assistir um filme português falado por portugueses ou ouvir uma música cantada por portugueses sem qualquer legenda e me trazer uma resenha disso em seguida. Não conseguirão. O português falado em nenhum lugar é igual, e em alguns locais a diferença é bem considerável. E é só na Globo que brasileiros do sul falam igual a brasileiros do norte, graças a padronização imposta pela emissora.


Alguém aí estuda idiomas estrangeiros? Sabem que pra eu aprender língua estrangeira eu tenho que conhecer o contexto do país que fala aquela língua, né? Pois é. Até aí tudo bem. Qual é a língua mais falada no mundo? Quais são os idiomas que as pessoas mais procuram aprender? Será que isso tem alguma coisa a ver com ideologia ou é paranoia minha chegar a essa conclusão? Será que a linguagem dos africanos e dos povos originários do território brasileiro também não eram interessantes? A gente aprende inglês só pra conseguir emprego melhor? Será? Ein? Ein? Ein?


Apesar disso, a linguagem, forma autônoma e viva que a humanidade usa pra se comunicar melhor, acaba não ficando presa a fórmulas. A língua portuguesa é patrimônio cultural nosso? Claro que é. Assim como os canhões antigos usados pra matar índios também são. Errar o português oficial é feio? Um tio lá do nordeste que não fala como a gramática diz é feio? Claro que não. Aliás, devo dizer que só falamos o que falamos hoje graças aos "erros" de outrora. Ou alguém acha que falamos hoje "farmácia" e não "pharmácia" porque algum gramático achou legal? Não. escrevemos assim porque a língua muda, e o sistema precisa se adequar a isso pra que continue querendo assumir o controle através dela.


Pra finalizar, gostaria de dizer que o estudo da língua portuguesa vem mudando ultimamente para melhor, mas ainda não houve quem me convencesse de que estudar morfologia e sintaxe na sexta série (e em qualquer lugar que não seja numa academia de linguística) só serve mesmo para satisfazer o sadismo de alguns professores. A gente aprende a falar ouvindo, e aprende a escrever lendo. Não ganharíamos muito mais tempo lendo livros e discutindo em sala o conteúdo deste do que querendo saber onde é a sílaba tônica? Por acaso alguém conta quantos monossílabos há num livro do Marcelo Rubens Paiva? O Brasil fala dezenas de dialetos, centenas de sotaques, milhões de vozes. Sou a favor de que o povo leia, e leia bastante, mas sou radicalmente contra tudo que desrespeite a diversidade e principalmente sou contra a gramática oficial. Querem me ver queimando livro? Me presenteiem com uma gramática do Pasquale, o Adam Smith da língua portuguesa.

11 comentários:

Paulo Braccini - Bratz disse...

clap clap clap ... contundente e magnificamente crítico e inteligente ...

vá mas volte logo viu?

bjão

L. Sampaio disse...

Eras,sempre achei uma idiotice estudar gramática, se o interessante mesmo é você saber ler, interpretar, compreender o que te passam.
Muito bom o texto, concordo plenamente com essa visão de que a língua nos domina hoje em dia, quem não sabe ler, escrever ou até falar direito, é um ninguém.
Beijos. Sentirei sua falta.

Luna Sanchez disse...

É verdade : a Língua é patrimônio e arma.

Ótimo texto, gostei muito.

Beijo grande, moço querido.

Michele P. disse...

Tive um orgasmo com o texto.
Escutou meus aplausos?
É claro que vou puxar brasa para a minha sardinha e dizer que amei o texto e que concordo com as ideias contidas nele (principalmente no último parágrafo).
Sugiro como leitura, o livro "Preconceito Linguístico" e "Português ou brasileiro" do Marcos Bagno.

Beijos emocionados

Batom e poesias disse...

"A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria: tenho mátria e quero frátria!"
(Caetano Veloso)

Adorei a abordagem e o texto.

bj
Rossana

Diogo Didier disse...

Ninguém melhor do que eu paa falar disso. Sou estudante de letras e reflito muito sobre as mudanças ocrridas com a língua portuguesa, seja na forma escrita ou na sua forma oralizada.

De fato, muito do que é ensinado em escolas não contempla a realidade discursiva vivida por muitos alunos, favorecendo assim a perpetuação de erros e conceitos ultrapassados q de nada servirão para os estudantes.

Mirella de Oliveira disse...

Noooossa, mas pessoa inteligente é outra coisa, hein? (Eu ia dizer que teu texto ta BOM PRA CARA**O, mas diante da seriedade no negócio, me abstenho! hehehehe)

Concordo que a nossa língua é muito melhor aprendida com prática, com leitura e com audição... Mas devo confessar que sempre gostei de aprender gramática. Curto MUITO aquelas regrinhas de sintaxe, morfologia, acentuação. Sempre fui FÃ da nossa língua e ACHO SIM que devemos escrever de acordo com as regrinhas. Mas isso é coisa de maluca, mesmo! Adorei teu texto e assino embaixo! :)

Átila Goyaz disse...

Concordo, mas também aprendemos a escrever escrevendo. :p
Muito bom o artigo!
Beijos, seu puto!

[Ananda] disse...

nossa que perfeito,essa semana estavamos discutindo isso na aula de redação sobre a língua como uma coisa viva,respeitar as variações linguísticas,concordo com sua conclusão uma droga ter q aprender predicativo,verbo intransitivo,predicativo do sujeito num sei mais o q do sujeito putz até hj nunca aprendi esses negócios e nem me interessa aprender;acho um saco.Sou muito mais a favor de ler um bom livro q ganho mais.^^

vou sentir falta do moço vou ter q voltar a sumir tbm..=(
Um beijo a vc.=)

Valéria Sorohan disse...

O principal objetivo da linguagem, verbal e não verbal, foi, é e será sempre o de permitir comunicar, e que, não menos do que o excesso de simplicidade, a riqueza e a rigidez excessivas de uma língua serão sempre um entrave para a sua correta utilização.
Saudades de “Vossa Mercê”.

BeijooO*

Alline disse...

Se é lendo que se aprende a escrever, isso é sinal de que o povo não está aprendendo a escrever... não é isso?

Beijão, mô quiridu!