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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O Panteão Cristão


Por volta do século II, um homem chamado Marcião tentou pela primeira vez reunir os livros utilizados pelos primeiros cristãos em seus cultos (prática que nenhuma expressão religiosa do império romano além de judeus e cristãos tinham) numa única publicação canônica. Os cristãos déspotas que hoje usam a bíblia como escudo devem muito a esse cara, por ter tido essa idéia brilhante. Antes disso, todos os “livros sagrados” que conhecemos e outros que provavelmente jamais chegaremos a conhecer (como o apocalipse de Pedro, por exemplo) eram lidos de forma avulsa, dependendo da preferência de cada comunidade. Marcião entendia que o Deus de Jesus Cristo não poderia ser o mesmo Deus dos judeus. Ele não conseguia entender como o Deus que mandava apedrejar mulheres adúlteras poderia ser o mesmo que entregava seu filho para expiar os pecados dos injustos, por isso, dos livros que reuniu, nenhum pertencia aos livros da lei judaica.

Não gostaria de entrar nos méritos dos escritos em si por enquanto, gostaria de dividir com vocês uma inquietação. Ora, alguém poderia me responder quem criou o que primeiro? Deus criou a humanidade ou a humanidade criou Deus? Alguns poderiam me dizer que Deus, no alto de sua maravilha, se revela à humanidade limitada pouco a pouco, então jamais teremos a capacidade de compreender Deus integralmente (Agora vemos em parte, mas então veremos face a face - 1 Cor 13, 12), mas nem esse argumento me convence, porque o que questiono aqui não é a diversidade de cultos cristãos, não é as diferentes interpretações dos livros sagrados, o que questiono, é como um mesmo Deus pode ser tantos.

Quando Lutero denunciou os abusos da Igreja Católica, ação seminal (e sem querer?) da reforma protestante, tenho quase certeza que ele não esperava tantos "protestos" assim, ao ponto de hoje haver quase mais igrejas cristãs do que pecadores. Claro que aí já estamos falando da comercialização da fé, mas, o problema é que hoje podemos visualizar vários deuses diferentes dos "mesmos" cristãos. E qual é o Deus verdadeiro? Aquele que diz que somos meros pedaços de bosta, que Ele é tudo e que para irmos pro céu basta fazer coisas como não chamar palavrão, não gozar antes de casar e viver numa redoma de vidro isolados do “mundo”? Aquele que só está de verdade na "minha" igreja e no máximo visita a dos outros? Aquele que nos mima com bens materiais e prosperidade em troca de gordos dízimos? Ou aquele que faz opção preferencial pelos pobres? E NÃO VENHAM ME DIZER QUE PARA CONHECER DEUS BASTA LER A BÍBIA, PORQUE TODOS ESSES DEUSES ESTÃO “MOSTRADOS CLARAMENTE” NA BÍBLIA.

Só que eu, se fosse criar um Deus, criaria um que não perdesse o tempo se preocupando se eu trepei antes do casamento, se ponho as espadas ou as aranhas pra brigar (gay e lésbica, respectivamente), se eu decidi não ser infeliz num casamento eterno. Um Deus que não achasse que o próprio filho não tem capacidade de caminhar só, e que não apoiaria a institucionalização da fé da mesma forma como seria absurdo estabelecer leis para o amor. Um Deus que visse o meu valor pelo bem que faço aos outros e a mim mesmo mais do que pelo hino que eu canto. Um Deus que preferisse um maconheiro justo do que um limpo que só olha pro próprio umbigo.

E se eu descobrisse que Deus é um desses boçais que perdoa pedófilos e excomunga quem salvou a vida de uma criança estuprada, que exige que eu cante somente músicas de pecadores da minha igreja, que apóia líderes filhos da puta que se aproveitam da fé dos outros pra ganharem votos, que se preocupam mais com o cu e a buceta dos homossexuais do que com a própria imundisse da sua igreja, e/ou que me mandasse parar de falar palavrão porque é feinho, eu certamente o mandaria tomar no seu divino cu e pediria pra me mandar logo ao inferno, que lá, simplesmente por não ser da parte desse Deus, deveria ter muito mais amor, inteligência, generosidade e ternura do que "esse" céu.

É aí que concordo com Paulo apóstolo: De que adianta ter tanto Deus no coração se não amo? Prefiro os que amam, que defendem os mais necessitados e que vivem a sua própria vida sem pisar na dos outros, ainda que sejam ateus. O amor, para Paulo, está acima da fé e da esperança, ou seja, o culto e a Bíblia são ferramentas para nos animar a amar. A igreja é dispensável, o amor não. E só há tantos deuses assim, porque existe muita gente que quer se aproveitar de gente. E o Brasil, mesmo tendo tantos deuses... é o Brasil. Pronto, falei.

____________

Imagem: extraída do Google, da obra de Portinari.

15 comentários:

Luna disse...

não sei porque estou tão emotiva. mas clap clap. eu nem tenho nada a acrescentar, eu emburreco lendo coisas assim. sua observação sobre a igreja nao fazer diferença, mas o amor sim, me fez te admirar muito.

Beijos.

Michele P. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Michele P. disse...

"o que questiono, é como um mesmo Deus pode ser tantos."

E eu te pergunto:

Como um mesmo Eraldo pode ser um mosaico de "eus"?

19 de agosto de 2010 17:58

Jamylle Bezerra disse...

O questionamento sobre a existência de Deus (ou de deuses) é algo para o qual nunca teremos resposta. A humanidade nunca chegará a um consenso. Mas quanto ao amor, sim! Esse existe e pode ser sentido. Quem ama, tem Deus sim no coração... não importa de qual Deus estamos falando.

A imagem que ilustra o post é de Portinari não é?

Beijos

Atitude: substantivo feminino disse...

Aplausos.
Seu textop não precisa de mais nada senão aplausos.

Qd vc estiver no Rio, me avise. Vou colocar vc sentado numa mesa de bar com meu marido, que é filósofo, e vcs vão ficar horas conversando.

Valéria Sorohan disse...

Eu não acredito na religião, em nenhum tipo delas. Mas Deus, eu tenho o meu. E tenho minha fé.

Beijo, amigo.

AGENTE FOOSE disse...

“...O cristianismo seria perfeito se não fossem os cristãos!...”- Ghandi

Acho o cristianismo a mais linda religião... Jesus Cristo existiu de fato e deixou a mais linda mensagem. Tanto que se todos tivessem a simplicidade e a humildade para admitir que nosso próximo vale tanto quanto a gente. Se agirmos assim nós já teríamos o Paraíso em nossas mãos aqui e agora! E assim não precisaríamos discutir religiões e todos esses blábláblás, existentes! Na verdade ,se não fossem esses cristãos que seguem doutrinas e tradições inventadas,se não fossem outros que usam o nome de Deus para encherem seus bolsos e suas contas bancárias... o cristianismo seria perfeito!
Obrigado por suas palavras amigo, te agradeço pela atenção com meu humilde espaço!!! Vc está linkado! Um grande abraço...

Batom e poesias disse...

Eu creio que Deus criou o homem, e este criou as instituições, as religiões, a culpa e os pecados.
Por poder e vaidade.

Eu tenho só perguntas também.

Eu gosto muito das paulinices articulistas.
Mosaico é pouco...
bj

Rossana

Fátima disse...

Eu tenho um amigo, que me diz que o Deus que ele crê é aquele que corre no sangue de suas veias. Mas.. identifico com vc essa mesma duvida de como enxergar Deus.
Admiro Jesus, perfeito tudo oque Ele nos deixou como lição de amor, a máxima: amar ao próximo como a nós mesmos.
Quanto a Deus, religiões, como disse a Rossana eu tb só tenho perguntas

Excelente teu texto, intenso da forma que vc é em teus escritos.

Beijos meu

Adison César Ferreira disse...

Os melhores textos que eu leio são aqueles que quando acabo de ler digo "eu queria ter escrito, isso". E aqui está um belo exemplo. Parabéns, querido. Ah, sim eu queria muito ter escrito isso. Pois, o Deus que creio é menino e menina,não faz plantão em igrejas e está em qualquer lugar q o deixam entrar.
Bjus, abraços e aperto de mão

António Rosa disse...

Eraldo

Por falecimento do meu cunhado na sexta-feira, de manhã, não tive sossego suficiente para acompanhar os blolgues amigos. Mais vale tarde, do que nunca. :)

Gostei muito do seu post. Lindíssimo.

«Os cristãos déspotas que hoje usam a bíblia como escudo devem muito a esse cara, por ter tido essa idéia brilhante.» - brilhante!

Cada cabeça, sua sentença. Cada cabeça, adredita num Deus que lá entende ser o único.

Muito agradecido pelo comentário que deixou no meu blogue.

Abraços

António

SolBarreto disse...

Não creio em nenhuma tida "religião" sou mais adepta a filosofia espirita kardecista...mas não deixo nunca de me questionar sobre as mesmas coisas que você.
Adorei o texto! a forma claa como você se expressa sem rodeios ou recio de dizer o que pensa,gosto disso, dessa clareza de ideias exposta sem receios...
Passo a te seguir para ir mais afundo no seu cantinho e observar as novas ideias, então ate mais!

Déia disse...

Que lindo!

Amo te ler!

bj

Alline disse...

Por isso eu não frequento a igreja. Meu Deus, eu carrego em mim.

Beijobeeeeeeeeijo!

Crônicas do Cotidiano disse...

Oi Paulino!

Tema delicado hein! Mas a grande chaga da humanidade é a RELIGIÃO. Penso que Deus não tem nada haver com isso. Foram nós homens que fugimos de uma normalidade e em cima de erros tão nossos, criamos parâmetros para um certo que nos foge ao hábito.

Quando ao quem criou Deus... Prefiro não comentar. Afinal aqui entra a crença de cada um. Há quem não creio, e já existem outros que acreditam, por isso...

Um abraço meu amigo e parabéns pelo seu pertinente olhar social!

= )