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segunda-feira, 30 de junho de 2014

ÚLTIMA PAULINISSE - Derradeira parte de um mosaico inacabado

Este blog nunca vai sair do ar, se depender de mim, mas não mais postarei textos novos aqui, salvo na hipótese de eu conseguir publicar um livro com algumas das postagens contidas neste cantinho que há cinco anos é minha válvula de escape para o infinito. Não lembrava, mas quando criei este espaço, na primeira postagem eu disse que ele a realização de uma meta pessoal estabelecida no final do ano anterior. Eu descontinuo as postagens mais ou menos pelo mesmo motivo. Tenho vontade de publicar algo em papel e nada melhor para começar essa vida do que aproveitar o que já produzi.

Foram cerca de 71 mil visualizações nessa meia década. Não significa que cada pessoa que abriu o blog leu um texto todo (tão pouco se gostou), mas é alguma coisinha. Quando eu tinha tempo e disposição pra ser um blogueiro mais ativo eu consegui uma média de 3 mil visualizações/ mês e encerro com menos de um terço disso, um dos motivos pelos quais tomei essa decisão de parar. Se eu não tenho como alimentar regularmente nem como divulgá-lo como se deve, vou continuar publicando aqui pra quê? Se eu quisesse escrever só pra mim e meus amigos mandaria os textos por email ou registraria só no meu PC. Óbvio que criei blog pra que muitas pessoas leiam as porcarias que escrevo.

Eu paro de postar, mas não o tirarei do ar.  Aqui eu expus as minhas entranhas, minhas confidências mais profundas, e minhas loucuras mais desnudas. Também conquistei verdadeiras amizades no mundão da blogsfera. Por isso, enquanto o blogspot existir esse canto existirá.Em breve, além de tentar publicar alguns desses textos pretendo criar um blog só pra contos eróticos e blogar crônicas no site da organização onde trabalho. Darei um jeito de colocar nesse próprio post aqui no futuro os links para vocês conferirem. Também tenho em mente alguns argumentos para romances. "Vamu vê" no que dá.

SOBRE O TÍTULO E PROCESSOS
Como falei em algum post da vida, “Eraldo e suas paulinisses” é um neologismo que brinca com meu nome composto. É legal que o “paulinisse” desobedeça a norma gramatical. Se fosse seguir a “ordem” seria “paulinice”, mas a este cafofo literário aqui jamais quis se enquadrar em regra alguma e enquanto laboratório contém muitos erros de ensaio. Quando re-leio sempre edito uma coisa aqui e outra ali, mas ainda há muitas falhas de concordância, de ortografia, inadequações estéticas. Contudo, como valorizo processos, esses registros com "erros" não me são motivo de vergonha, e sim prova de que a gente muda o tempo todo e às vezes consegue aprender algo. E se noto equívocos é porque alguma coisa assimilei dessa maldita arte de escrever.

Aqui estão registrados textos, inclusive, muito ruins, outros bons, outros "marromenu", ou seja, fica muito do pior e do melhor de mim. Jamais abandonarei minhas Paulinisses e nem deixarei de ser um mosaico de eus, porque pra mim isso é muito mais que um título e um subtítulo. É princípio. Ninguém é a mesma coisa sempre e deixamos uma assinatura particular em cada um de nossos gestos. Esse blog me ajudou a aprender a sobreviver nesse mundo através da escrita. Pretendo continuar fazendo isso de leso que sou.

Aqui uma pequena seleção nos meus textos prediletos dos principais Eus deste mosaico:





Eu Romântico: Twittando

Eu Existencialista: Mosaico de eus em debate



Eu Religioso: Círio de Lucidez

Eu Poeta: Mel e Limão




quarta-feira, 11 de junho de 2014

Sobre andar descalço

Ele se sentia oprimido com as sandálias e sufocado pelos sapatos. Gostava mesmo era de sentir os pedregulhos empurrarem pra cima a palma do pé, ter contato direto e sem intermediários com a perfeição dos defeitos do chão. Sentia-se mais honesto consigo mesmo pisando em algo sujo, quente ou macio e agradável do que pagar para fazer propaganda de calçados famosos.

Mas ele não podia. Os espinhos, o calor, a pobre sujeira, a santa higiene (salve salve), a boa educação, a ordem da mãe, as regras da empresa, tudo era motivo pra não andar descalço. Ele aceitou essas desculpas chuviscadas durante a vida toda, mas sempre dava um jeito de viver a própria liberdade sob si quando dava, quando não era convencionalmente proibido.

Certo dia ele voltava pra casa trilhando o mesmo caminho de sempre. Vinha pensando na vida, cabisbaixo, e reparou nos próprios passos, cada vez mais curtos. Não era mais a sandália que ele enxergava, mas sim amarras em seus calcanhares de pé a pé. Olhou ao lado, pro outro, pra frente, pra trás, olhou de novo e não conseguia mais enxergar calçadas e sim obediência. Correntes. Um pé atrás do outro. Cada pessoa puxava a outra e a outra puxava o um e por aí se ia.

Mas mesmo assim ele não conseguia se libertar a partir da própria base. Tinha vergonha desse negócio de fazer o que quisesse. Até que um dia, ao chegar da rua, deu um passo estranho. Era leve. Sentiu o mesmo peso dos pés de criança, quando procurava as pedras mais salientes indo rumo ao igarapé de Colares, de quando corria solto atrás de uma bola em campos de várzea, de quando lavava os pés e via naquela água suja escorrendo para o ralo todo o resumo do dia. Olhou pra baixo e viu a sandália arrebentada. Jogou ela e o outro par no lixo e ouviu o tintilar do metal quando elas chegaram ao fundo. Ele sorriu. Estava livre.

Desde então ele anda descalço pra onde precisa ir. Todos estranham, mas, se perguntam, diz simplesmente que a sandália arrebentou graças a Deus, ou que paga promessa, ou que tem trauma porque a mãe foi assassinada por um bandido fazendo-a engolir o próprio chinelo. Não precisava de razão para seguir a própria vontade, e sim das desculpas certas.  Quem não tinha intimidade suficiente pra perguntar estranhava não apenas aqueles pés imoralmente desnudos, mas também aquele olhar distante, meio autista e os sorrisos bobos do nada para o nada. Ninguém percebia como ele estava na verdade voando, como nos melhores sonhos de outrora. Com os pés no chão ele se conectava com todo o universo ao seu redor, principalmente com as coisas invisíveis e desimportantes.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Quando fui repórter de Polícia - parte 1


JORNALISMO-URUBU

Desde criança sou fascinado por o urubu. Impressionava-me o tamanho daquelas asas pretas com pontas brancas. Não sabia porquê mas ficava um tempão olhando a forma como voava diferente dos outros pássaros, e tinha nojo daquela cara feia, sobretudo quando ficava manchada pelo sangue da carniça devorada. Também era ainda um garotinho quando no início da década de 90 foi ao ar o jornal “Aqui Agora” do SBT. Gil Gomes e companhia popularizaram e consolidaram na TV brasileira uma forma de fazer jornalismo - importada dos istêitis - baseada na superexploração da violência e na criminalização da pobreza para gente na condição de pobre ver. E deu certo. Jornalismo em TV aberta hoje é resumidamente isso. Mas eu desde cedo não assistia. Não ouvia programas de rádio nessa linha. Não lia páginas de jornais ensanguentadas. Não curtia jornalismo-urubu.

Continuo não assistindo e nem ouvindo, mas por 22 meses eu li. Como não ler quando a primeira proposta para trabalhar numa redação de impresso, razão pela qual sonhei me formar em jornalismo, foi justamente pra essa porra? Caí em tentação. Eu pequei por não hesitar em responder sim? Não sei. Agora só consigo lembrar como uma fração de segundo depois de teclar enter no Gtalk dizendo sim pra trabalhar no Caderno de Polícia do Diário do Pará, imediatamente olhei assustado meu nariz crescer e juntar com a boca virando um bico cumprido e curvado na pontinha. Meus cabelos caíram e minha pele do pescoço pra cima enrugou. As pontas das minhas mãos ficaram brancas, depois meus pelos começaram a engrossar a ponto de tornarem-se penas pretas de luto. Minhas pernas afinaram ainda mais, entortaram pro outro lado; meus braços viraram asas e sem muito esforço comecei a voar. Não demorou muito eu comecei a avistar e desejar carniças.

Lá do outro lado da existência caí em tentação pela segunda vez: admirei a beleza, a leveza e a suavidade do voo dozurubus. Urubu não voa, simplesmente, ele divide a mesma maconha com o vento. O ato de voar dele é a tradução avoante de pairar. Lá de cima me impressionei como a incrível possibilidade de cheirar e enchergar com x o alimento mesmo de muito longe. No começo me senti estranho lá no alto. Todos pareciam pensar igual: carniçacarniçacarniça... mas não. Não era bem assim. Eu precisei subir sem redundância pra cima dos outros colegas para encontrar com alguns urubus que veem o choro por trás da morte, os porquês mais profundos dentro dos oquês, o antes e o depois ao olhar o fim. E se não houvesse urubus para testemunhar os descomeços? Caí na terceira tentação: urubus são importantes. Sem nós seria pior. E se eu simplesmente quisesse voar ao lado dos que anseiam circular ao vento no sentido contrário da maioria? Aí vi graça em ser urubu, olha. Descobri enquanto repórter de um caderno que sempre desprezei uma coisa legal: eu posso ser eu mesmo, fincado nos mesmos princípios, sendo o que eu quiser ser. Era legal voar. Meu melhor sonho de criança.

sexta-feira, 14 de março de 2014

DIÁRIO DE UM SERTANEJO - 82º DIA

Mesmo que eu lembrasse o nome daquela estrada carroçal, ou a exata razão de estar ali, isso não importaria agora. Nenhum detalhe técnico é mais importante em relação a qualquer ferida cicatrizada ou não do cachorro vira-lata sobre o qual escrevo agora. Dele sim gostaria de saber o nome. Esta história é sobre um cão cego, provavelmente. Louco, certamente. Ridicularizado por meus amigos e eu, ambos coadjuvantes neste relato feito sobre um cachorrinho que me ensinou coisas de amar e sobre como somos capazes de ser naturalmente escrotos.

Estávamos indo. Não me pergunte pra onde, porque mesmo que lembrasse eu não diria agora. Paramos para pegar informações, diriam os fatos, mas quem acredita nessas coisas de destino diria que só paramos ali para conhecê-lo. Desde o começo ele pareceu engraçado. Marrom, tipicamente vira-lata, carente de banho e de atenção, aparentando já estar algum tempo vivendo a vida adulta e o rabinho cotó. Quando nos viu pela primeira vez o cachorro nos farejava e se lançava a nossas pernas como se não enxergasse. Parecia tentar compensar a falta de visão tentando sentir o nosso cheiro. Já no primeiro contato ele me pareceu engraçado por parecer cego. Eu, que me julgo defensor da inclusão, ri da limitação dele e pedi para os outros rirem.

Precisávamos ir. Dessa parte eu lembro e posso contar: Não sabíamos pra onde. Mas fomos. Largamos o cachorro pra trás como quem joga fora uma meleca do nariz ou como quem vê os mendigos desaparecerem da borda de nossas existências quando o sinal abre. Fomos e não encontramos nada, então voltamos. No retorno, já havíamos passado quase cinco quilômetros do local onde encontramos pela primeira vez o tal cachorrinho. Demos uma parada. Ficamos cerca de dez minutos ali, ou menos, quando avistamos um pequeno borrão lá longe. “É aquele cachorro!”, alguns diziam. Eu não acreditava.

Ora, para ser ele, teria de ter percorrido pelo menos nove quilômetros. Continuamos nossos afazeres enquanto o borrão crescia. Ficava maior, mas não exatamente grande. Deixava de ser um pontinho para se tornar uma mancha marrom. “Era um cachorro”, reconhecemos. “É aquele cachorro!”,exclamei. E rimos de novo quando ele chegou. Balançava o rabinho. Rimos mais ainda ao perceber o mesmo jeito inconsequente de se atirar a nós. O rabinho ainda balançava. Caímos na gargalhada mesmo quando notamos as patas traseiras dele trêmulas após tanto esforço, pois ele não veio simplesmente correndo, correu o mais rápido que pôde. Ele não ligava para a fadiga denunciada pelas patas trêmulas. O rabinho balançava ainda. Parecia querer agradar a gente. O rabinho sempre balançava.

Depois simplesmente entramos no carro e fomos embora. Assim. Esqueci-me dele cinco segundos depois de conversarmos sobre outra coisa menos “hilária”. De noite, porém, antes de dormir, fui contar a história do cachorrinho e chorei. Mas chorei de soluçar. Ia contar a história pelo viés cômico, mas no meio do meu próprio discurso sobre aqueles gestos me dei conta do que realmente vi. Ora, se não tivéssemos parado o carro e permanecido naquele local durante aquele tempo o bichinho jamais nos teria alcançado, e se ele continuava correndo sem saber que pararíamos é porque para ele não importava alcançar, importava mesmo era correr atrás. De quê? De repente eu seja (ir)racional demais pra entender.


Ainda lembro do rabinho cotó dele balançando. Das patinhas trêmulas. Minha dor é saber como a gente nem sempre está ao lado dos bons. Minha alegria é saber que sim, o amor existe, e ele não liga pra essas coisas do impossível, nem pra risada dos ridículos.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Galos, Noites e Quintais - Aventura 5

Minha infância na periferia de Belém é analisada por mim muitas vezes a partir de um olhar sociológico e pedagógico. Mas se pudéssemos voltar no tempo e perguntar ao menino Eraldo Paulino, na época conhecido como Agô, ele provavelmente responderia com um sorriso fácil e tímido que se divertia muito. Foi um período recheado de brincadeiras que a gente construía junto com a turma, coletivamente, de forma autônoma, e algumas vezes longe dos adultos, de preferência. Como já contei antes, a iniciação sexual das crianças, pelo menos na minha época, era feita de forma lúdica, com dinâmicas feitas por nós e para nós mesmos. A primeira descoberta desse universo afetivo e erótico foi bem cedo, quando tinha cinco anos. Eu conto.

Estávamos nos enturmando com os novos colegas do então bairro da Guanabara, meus irmão e irmã mais velhos e eu. Decidimos brincar “Pira-se-esconde”, conhecida mais como “esconde-esconde” por aí. Estávamos num grupo de cerca de 10. O mais velho de nós deveria ter no máximo 10 anos. Escolhemos uma construção abandonada como local para esconderijos. O lugar estava um pouco sujo, tinha a alvenaria quase completamente levantada, mas não havia reboco nem portas, embora alguns cômodos estivessem cobertos.

Já na primeira rodada, enquanto contava até 10 a “mãe” (Como chamávamos quem deveria procurar a turma) todo mundo se escondia eu fiquei parado. Estava achando ótimo estar ali, mas naquele momento descobri não saber brincar direito daquilo. De repente fui ajudado por uma menina cujo nome não revelarei. Segurando meu braço me levou pra uma das salas. Estava Escura. Ela pediu silêncio. Deu uma olhada lá fora pra saber se vinha alguém enquanto eu estava nervoso. Não queria perder, embora não soubesse como ganhar. Ela me encostou perto dela. Me senti protegido. Depois ela começou a me beijar.

Ela deveria ter uns 09 ou 10 anos. Eu fiquei estático enquanto ela me dava beijos e beijos. Não eram de língua. Eram selinhos. Seguidos. Muitos. Na bochecha também, por todo o rosto, mas principalmente na boca. Ela era afoita. Parecia estar querendo aquilo a algum tempo. E tinha mais. Ela se abaixava e se esfregava em mim. Várias vezes. Tinha pegada. Devo dizer que fui ter noção básica de sexo uns três anos depois daquilo. Não entendia nada, portanto, mas lembro de ter ficado excitado na ocasião. Quatro centímetros de pinto duro.

Aquilo durou alguns estranhos e gostosos minutos, durante algumas rodadas, até sermos interrompidos pela mãe. Não a da brincadeira. A literal. A minha. Foi tenso. De repente comecei a me perguntar se estávamos fazendo algo errado porque o clima ficou bem pesado. Foi uma tarde muito confusa. Foi do extremo da libido ao extremo de repressão. Ambos incompreensíveis. Mamãe não repreendeu meu irmão ou eu, só minha irmã. Não sei se a mana passou por algo semelhante em outra sala escura durante a  brincadeira, mas não conseguia entender (e até hoje não entendo) porque uma menina poderia me beijar e minha irmã não poderia beijar e ser beijada.

Como D. Fátima suspeitou de algo erótico numa brincadeira onde só estavam crianças? Porque ela também brincou da mesma coisa, será? Não sei. Mas a partir dali, pra mim, brincar de beijar não pareceu diferente de nenhuma outra brincadeira, só precisava ser escondida pra depois não ficar chato. Eu gostava. Brincar era legal. Beijar era legal. Transgredir era legal.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

DIÁRIO DE UM SERTANEJO - 11º DIA

Sou um amazônida me aventurando no Sertão. Parte dessa aventura registrada diariamente em meus manuscritos compartilho com quem possa querer saber...

Acordei às cinco e meia, mas o sol já entrava em minha janela aberta antes disso. Estava ansioso para conhecer as profundezas do sertão. Sou e acho que sempre serei um rato urbano, mas conhecer o interior do mundo me fascina. Seria minha primeira vez onde, conforme imaginava, certamente seria um dos locais mais doloridos, fascinantes e poéticos do Brasil. Fiz questão de abrir bem os olhos e o coração. E fui, como quem mergulha naqueles rios largos, escuros e profundos da Amazônia de onde vim.

Desde os primeiros metros na estrada de chão olhei com carinho a vegetação completamente diferente da que estou acostumado. Ia tentando entender o significado daquilo. Plantas secas e entre elas árvores com folhas de verde bem vivo. Cactos ao lado de galhos floridos. Vi alguns Jegues. Como o jegue é poético. O olhar bem dentro do olho de um animal desses faz você tocar sua própria existência mais profundamente do que se pode estar preparado. É um olhar doce, prestativo, profundo, misterioso. Talvez se um jegue e uma preguiça se encararem lágrimas cairão mutuamente.

À media que o caminho se alongava a caatinga parecia dançar forró, recitar cordel. Numa viagem pessoal em meio aquilo lembrei de Gonzagão quando vi os galhos secos e as cercas de estaca decorarem a estrada. Pareciam nos dar boas vindas. À primeira vista parecia tudo coisa morta, sem vida. Mas logo havia folhas verdes de novo. Comecei a confrontar aquilo com o xote, os cordéis, as quadrilhas e todas as outras referências carregadas por mim daquele lugar onde jamais havia estado.

Comecei a pensar que caatinga é o retrato do Brasil. Basta um pequeno sereno, basta um pequeno sorriso de água para tudo ficar pleno. Inicialmente desistimos daquele lugar cheio de espinhos, cheio de galhos secos e cinza. Mas é apenas a vida em estado de dormência e adaptada escassez d’água. Basta um pouco de irrigação pra ficar tudo verde, colorido, explicitamente vivo. O sertão é uma lição de vida. Ensina que é preciso muito pouco para ser possível viver. É um cenário formado por versos com rimas fáceis, com estrofes simples, mas com conteúdo rico, vivo, inteligente.

De repente comecei a pensar que não há lugar no mundo mais verbal do que o sertão. As piadas, as músicas, o cordel, as histórias, tudo é dito, escrito e cantado de uma forma muito especial por estas pessoas de sotaque forte. O cearense então, não fala, recita. O sotaque nordestino, especialmente o cearense, foi feito para o verbo. Toda cultura nordestina é muito verbal e verbalizada. O cearense, tenho a impressão, é mais.

Se é verdade que o meio interfere no sujeito e na sujeita, se o mineiro é um tanto mais tradicionalista sob influência da firmeza das serras e o carioca é expansivo e alegre influenciado pela liberdade do mar, então eu só posso supor que a caatinga é uma obra de arte travestida de bioma. Um poema disfarçado de lugar.
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Todas as fotos foram feitas por mim neste mesmo dia.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Sobre gostar de sofrer


“Tudo é dor e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor
Renato Russo

“O meu delírio é experiência com coisas reais”
Belchior

Eu gosto de sofrer, ir ao fundo do poço, chorar, me desesperar, me sentir inútil, um lixo, um grande pedaço de bosta, um idiota quando finalmente chega a época. Sim, eu gosto. Experimento a dor como quem fuma uma maconha, como quem chupa uma língua volumosa e deliciosamente saliente em minha boca, como quem resiste até o fim antes de morder o pirulito, como aquela transa na qual a gente não quer gozar nunca. Afinal de contas, a felicidade é o Super-Homem, a dor é o Batman; As coisas boas da vida são o Kid Abelha, as desgraças são a Legião Urbana; a bonança são “oncinha pintada, zebrinha listrada, coelhinho peludo”, o conflito é o “vão se foder”; as coisas que dão certo são o marido, as que dão erradas são o amante; a alegria é o Pierrô, o sofrimento é o Arlequim, e no carnaval da vida somos todos Colombina.

Custou, mas aprendi a conviver com meus próprios demônios, e ainda os acalento quando posso, com direito a por música deprê para eles ouvirem comigo. Não nego a mim a chance de quebrar a cara quando acho que algo vale a pena. Procuro não ter medo de me jogar do precipício, de arrebentar a cara. Eu não tenho a menor vergonha de chorar. Eu não procuro a dor, não nego que é ótimo estar bem, ser  chamado de comível, de inteligente, de amigo, fiel e coisas assim. Contudo, depressão é não querer dar colo pro desespero, tadinho. Eu já tive vontade de me matar, mas na hora exata não tive coragem, porque fui seduzido por minhas próprias lágrimas, saboreei o gosto salgado e fiz delas uma canção.

Não, eu não procuro coisas ruins, só parei de negar infantilmente a mim mesmo que elas existem. Uma hora o baile funk, o sertanejo universitário, o tecnomelody e o novo episódio dos Ursinhos Carinhosos acabam. Sempre acabam. Quando tudo acaba mergulhamos em nosso próprio poço, e nenhum deles é raso, só precisamos parar de ter medo de ir lá no fundo e voltar. Sempre podemos ir mais fundo, e sempre podemos voltar.


terça-feira, 5 de março de 2013

Sobre ser e desobedecer

"Vou errando enquanto o tempo me deixar"
(George Israel/ Paula Toller)

"Ai que prazer
não cumprir um dever"
(Fernando Pessoa)


"Outros que contem passo por passo
eu morro ontem"
(Vinicius de Moraes)

"Nossa cidade é tão pequena
e tão ingênua
Estamos longe demais das capitais"
(Gessinger)

"Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta,
que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda"
(Cecília Meireles)

Por Santiago S.V.


Definitivamente não nasci para frequentar lugares onde há certezas demais, onde tudo é muito certo dos caminhos e as regras merecem ser cumpridas. Deve ser por isso que eu nunca abandonei definitivamente a Igreja Católica Apostólica Romana, de repente porque nela encontro-me entre uma minoria de vozes que fazem eco à subversão que em mim habita, independente de ideologias. Deve ser por isso, aliás, que nunca me senti plenamente à vontade em partidos políticos, em grandes movimentos sociais ou algo assim, pois em geral sinto minhas contradições sufocadas nesses espaços e já me basta uma só religião a seguir.

Não desobedeço por desobedecer e não creio que todos devam pensar/ agir como eu, mas é muito chato estar em lugares onde minha beleza não tenha espaço para ser horrível; onde eu não possa ser idiota sem perder o status de inteligente; onde eu não possa ser revolucionário e ao mesmo tempo amar um sectário da mesma forma que amo um pelego ou um doce repressor; ou onde eu não possa fazer a coisa errada tendo a certeza que é a maneira mais certa de agir.

Tem gente que não percebe o "Cabeça Dinossauro" em gente que nunca lançou (ou talvez nunca lance) um álbum melhor que "Televisão". Há gente que enxerga apenas a própria coerência ou a coerência daquele dado grupo pelo qual é "devoto" como luz, sem levar em consideração que o foco dessa luz direciona as sombras. Há gente que entende de jardim, entende de buquê de rosas, de arranjo de margaridas, mas não repara numa flor sequer, muito menos se atenta à beleza subestimada dos espinhos. E há gente que não.

Contudo, já reparei que a gente se sente mais à vontade quando aponta nos outros os defeitos que nós mesmo temos de mais grave.
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Este post foi inspirado no delicioso blog 2 + 2 = 5

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Jornalismo Policial: Atarefa de contar histórias como a de Santa Maria



Sou da periferia, prefiro ser chamado de preto a moreno, não tenho problema nenhum em declarar quando acho outro homem bonito, mas, confesso, até hoje não me acostumei com o rótulo de “Repórter Policial” que me dão, devido trabalhar no caderno de Polícia de um jornal diário do Pará há um ano. Ser repórter dessa editoria quer dizer, por exemplo, que se trabalhasse no Rio Grande do Sul eu provavelmente teria participado da cobertura da tragédia que já matou até agora 235 e deixou outros 118 jovens feridos em Santa Maria/ RS por conta de um incêndio na boate “Kiss”. Lidar com números e informações fortes como essas, acompanhar imagens tensas assim – in loco – e me perguntar todo dia se essas coisas valem a pena é o que tenho feito durante esse tempo. Eu, que jogava esse caderno policial no lixo antes de folhear qualquer jornal, que classificava esse tipo de publicação como JA - Jornalismo Abutre, hoje defendo que a editoria policial não deve acabar tal como precisa ser, e sim tal como é.

Como exercício mental, não de quem precisa de um emprego, mas de quem precisa se sentir importante para a sociedade no que faz, resolvi criar em minha mente um mundo imaginário sem os cadernos de polícia. Cheguei à conclusão de que seria o cúmulo da banalização da vida quando assassinato cometido nas periferias da nação parar de render manchetes, ou quando a morte não for mais notícia. Aliás, é impossível desligar esse debate da questão da criminalização das periferias, ou do racismo propriamente dito. Para mim, a origem de todas as brincadeiras de mau gosto e de toda abordagem desrespeitosa que se faz nessa editoria vem justamente do desrespeito ao valor da vida dos empobrecidos, principalmente negros. Já vi uma jornalista perguntar ao delegado, após mais uma morte na favela, com as seguintes palavras: “Uma vez que a ficha policial desse elemento era extensa, podemos dizer que é ‘menos um’ pra perturbar”? Ela nunca perguntaria isso se fosse o homicídio de um deputado corrupto branco.
Imagem compartilhada no Facebook demonstra até que ponto o preconceito favorece o desrespeito à vida.

Enquanto a morte nas periferias ganham títulos derivados de + 1, são as mortes dos filhos da classe média que costuma ser espetacularizadas. Nesses episódios percebemos o quanto a curiosidade mórbida independe de classe social. Tanto em mortes de viciados negros quanto de estudantes brancos há jornais que vendem como água imagens que mais parecem parte de documentários de autópsia ou fotos de peritos do IML. Percebe-se também que a exploração da morte, da tragédia, da crueldade, é algo que definitivamente interessa às pessoas. Aceitar isso, aliás, foi o primeiro choque de realidade que levei no meu trabalho.

A ROTINA DA REPORTAGEM

A tarefa diária do jornalista de “Polícia” é correr atrás de notícia. Ao contrário das outras editorias, nós dificilmente saímos da redação com algo planejado. As coisas vão acontecendo e a gente tem que criar mecanismos para não perder nenhuma notícia. Possuir fontes no IML, e entre a população é fundamental. Mas nenhuma fonte é mais segura do que a polícia. Por isso existe historicamente nas editorias policiais de todo o Brasil uma relação muitas vezes promíscua entre repórteres e policiais. Diante de nós repórteres, toda sorte de abuso é compartilhada, há jornalistas que até mesmo batem em presos. Até mesmo a linguagem adotada no meio dá a exata ideia dessa relação. O ato de ir atrás de notícias nessa editoria chama-se “Ronda”, por exemplo.

Voltando a falar sobre morte, hoje posso dizer que consegui criar um mecanismo mental que me permite encarar qualquer tipo de imagem de pessoas mortas durante o trabalho. Alguns colegas meus defendem que não é necessário ver o corpo para escrever a matéria, mas eu discordo. O que faz um bom texto é a apuração, e às vezes um detalhe na cena do crime é o elemento mais importante da história a ser contada. Mas o que me faz perceber que eu ainda sou eu, como o peão para os personagens imersos em sonhos no filme “A Origem”, é a compaixão pelos que ficam. No dia que eu parar de ficar com nó na garganta quando percebo que aquilo que escrevo significa uma perda irreparável para muitas pessoas, certamente demonstrará que passou da hora de eu abandonar essa editoria.

Por isso penso que o caderno de polícia já começa errado pelo nome. Os jornalistas dessa editoria não deveriam agir como se fossem assessores de comunicação da PM. A linha de pensamento que move abordagens preconceituosas, racistas e que no fim das contas acaba por incentivar o ódio e a intolerância que geram violência letal é que precisa ser revista antes de tudo. Perceber que mesmo um ladrão, um estuprador ou um assassino de criança também é um ser humano, que existe um contexto sócio-político por trás dos homicídios nas periferias é algo que requer um mergulho muito além da superfície, o qual nem todos estão dispostos a fazer. Afinal de contas, compreender o processo não vende jornal, não rende status, continuar fazendo o que se faz sim. Mas, acredito, é possível prender a atenção das pessoas, vender, sem vender a alma. Vi muitos comentários interessantes a respeito de muitos textos a respeito da tragédia gaúcha – e brasileira – demonstrando que é possível re-humanizar o jornalismo sem perder a clientela.


Não, eu não acredito que isso vá mudar amanhã, mas penso que até lá, quem realmente discorda dessa linha não precisa esperar o dono do jornal passar por algum tipo de epifania para seguir os próprios princípios. A partir de pequenos gestos, como por exemplo ouvir o que os suspeitos têm a dizer, ao invés de escrever “populares” escrever “pessoas”, ao invés de dizer “bandido morto” escrever “vítima”, o olhar já pode ser modificado. O Brasil é considerado o maior país católico do mundo, possui um grande número de protestantes, mas não consegue ser cristão na hora de pensar em soluções para a violência além de punir. A pena de morte em nosso país é uma realidade velada, cujos juízes são os policiais e os advogados são os jornalistas omissos diante disso.

Rogo para que um dia os cadernos e as editorias que lidam com situações de morte possam ter como chavões não mais palavreados importados dos quartéis, e sim dos jardins. E como quem não precisa esperar o carnaval pra poder sambar, eu vou escrevendo como acredito que tenha que escrever, assim como outros bravos colegas. Portanto, é preciso evitar o olhar maniqueísta dos grandes jornais, porque nele há pessoas sensíveis e que quando são competentes conseguem fazer um trabalho digno. Defendo a humanização dos cadernos de polícia, e penso que o título da editoria também poderia ser revista, mas discordo de quem pensa que eles não deveriam existir. Parafraseando Vinicius de Moraes: “Cadernos de Polícia? Melhor não termos. Mas se não temos, como sabê-lo?”

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Rótulos



"Só não se perca ao entrar
no meu infinito particular"
(Antunes, Montes, Brown)

Os rótulos não preenchem a totalidade nem da mais rasa das pessoas. Certamente porque ninguém é raso a ponto de não ser extremamente profunda/o.
As pessoas são idiotas geniais, pacifistas atrozes, artistas insensíveis, safadas românticas, sábias arrogantes, e tudo mais disso que nem é mesmo isso.
Se as pessoas não fossem mais do que podemos compreender, não existiria literatura e a forma primária da escrita seria uma bula de remédio; e não existiria música, apenas gritos de desespero; e provavelmente não criaríamos arte antes de inventar a fórmula de Báskara.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

DIANTE DE SI – PARTE 3 DE 3


Nos posts anteriores, Armando começou a aprender o que significa ser adulto. A matéria que escreveu foi publicada e por uma linha dela um policial que agrediu seus colegas militantes foi encaminhado à corregedoria. Enquanto isso, seus amigos militantes criticaram a matéria desconhecendo que a autoria é de um amigo outrora crítico a matérias do tipo. Uma carreira nas redações com possibilidade de não dar a ele dinheiro suficiente para compensar uma possível incoerência com o discurso tão defendido na universidade ou arriscar ser pai de uma forma inesperada e irresponsável e ainda por cima ter de depender dos pais para sustentar o filho?
Armando põe o celular sobre uma mesa. No display a mensagem criticando a matéria dele ainda aberta. Ele olha a mensagem. A mensagem no celular, o celular na mão. Armando olha sua própria mão e nela seus dedos. Nas pontas dos dedos da mão esquerda que segurava o celular há cicatrizes do que no dia anterior eram calos. Os calos foram feitos depois de tocar um violão de cordas de aço durante três horas seguidas. Antes disso, há três anos, bastavam alguns minutos para os dedos ficarem em merda. Os dedos estão diante dele, e depois dos dedos estão quadros. Retratos de antigamente. O foco sai da mão para o retrato dele festejando o vestibular. A tensão do vestibular é como um calo anterior na ponta dos dedos de sua alma. Ele aprendeu a tocar violão de calo em calo. Olhando novamente o celular, que por acaso foi colocado ao lado do jornal no qual está sua matéria, ele percebe que está na hora de superar mais um calo.

“A matéria que saiu no jornal hoje é minha”, escreve Armando no sms encaminhado a todos os colegas de militância, sejam os mais experientes, sejam os novatos. Não demoram a chegar telefonemas. Ele em geral não gosta de responder à mesma pergunta mais de uma vez, mas dessa vez faz um sacrifício. A primeira coisa que passou pela cabeça dele foi dizer ter aceitado a proposta de trabalhar no jornal porque teria um filho. “Coitada dessa criança. Nem nasceu ainda para assumir uma responsabilidade de outra pessoa”, pensou. Então resolveu contar aos colegas sobre a paternidade somente semanas depois de conversar com eles sobre o novo emprego e explicar a necessidade de arrumar trabalho, por isso aceitou. Foi bem mais difícil para ele próprio aceitar isso do que os amigos. Fizeram muitas piadinhas, é verdade, mas aceitaram numa boa.

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Obviamente o policial levado à corregedoria não sofreu maiores punições do que alguns dias de reclusão. No entanto, encontrar com aquele policial na rua – que soube depois que foi ele quem escreveu a maldita matéria – e perceber o ódio do PM, dava a ele uma pontada de orgulho.

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Armando trabalhou durante alguns anos naquele jornal, e conseguiu perceber que mesmo em um jornal de linha conservadora era possível fazer boas matérias, sobretudo quando quem estava no poder era um inimigo político do jornal. Depois, conseguiu o que sempre quis: foi contratado para escrever para uma revista de esquerda. Mas não qualquer revista de esquerda, e sim a mais conceituada do Brasil. Qual foi a decepção dele então ao perceber que ali o ambiente de trabalho era cercado por disputas internas e conflitos de vaidade e isso fazia ele se sentir bem pior do que trabalhando no jornal de direita. Meses depois ele aceitou o convite para ganhar mais num jornal de grande circução, agora como repórter especial.
PRÓLOGO
Aos 37 anos ele tem uma filha que não sabe se presta vestibular para jornalismo ou para matemática.
“Pai, eu não sei o que eu escolho. Eu estou desesperada já”, desabafou Adriana. Com um sorriso terno no canto da boca ele a encara e se vê. Ele fala para ela dizendo para si mesmo: “você vai descobrir como na verdade as coisas escolhem a gente, filha”. “Será que vai demorar muito pra isso acontecer, pai?”, pergunta ela, enquanto esfrega o rosto no seu ombro. “A gente só vive a vida vivendo , filha. Seja qual for a escolha que fizer, dê o máximo de si. Independente de qualquer coisa, os que te amam vão respeitar e amar o que você escolher. Porque a amam pelo que você é, e suas escolhas fazem parte de você”, disse ele, diante de si. A filha achou todo aquele discurso muito chato, na verdade, mas gostou muito do abraço.
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Por sugestão da Lorena Prazeres do blog Infinito Particular, partilho essa canção, que tem realmente tudo a ver com o post.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

DIANTE DE SI – PARTE 2 DE 3

Como vimos no último Post, Armando foi um universitário militante e combatente. Sempre era aplaudido pelas críticas densas e radicais que fazia contra os grandes veículos de comunicação nos painéis e seminários nos quais era orador. No entanto, cinco meses depois de formado e sem emprego, e, além disso, com a notícia da paternidade não planejada, foi à uma redação de um jornal conservador tentar arrumar o primeiro emprego. Entretanto, a primeira tarefa dele seria escrever justamente sobre um protesto feito pelos ex-colegas de militância reprimido violentamente pelos policiais. Agora, diante do PC, o ideal e o real travam uma dura batalha em sua mente. Ele sua frio. O colega que o acompanhou na apuração o vê há 10 minutos diante da tela com o word aberto e nenhum caractere digitado. “Depois que você começar, o resto fica mais fácil”, aconselhou.

Na verdade, o problema não estava em começar o texto. O problema estava em começar a fazer algo que sempre criticou. Ele sabe. A única forma de conseguir o emprego é escrever meias verdades, pois a linha editorial do jornal claramente repudia atos como o que foi realizado pelo movimento estudantil do qual participou. Após ter uma ideia desesperada mas de repente viável, Armando levanta-se da cadeira e vai até o editor que vai avaliar a matéria escrita por ele. Pergunta se a matéria sairá com sua assinatura. “Não. Em geral colocamos assinatura depois do repórter devidamente contratado”, respondeu. Bingo! Ele escreve a matéria. Fala do ato, fala do congestionamento provocado, fala superficialmente dos argumentos dos estudantes em realizar o protesto e relata o discurso policial hipócrita que afirma ter agido pacificamente. Para não dizer que não falou das flores, ele cita a agressão do policial em uma linha. “Eles devem cortar isso, mas vou colocar mesmo assim”, pensou.

Na verdade, foi fácil escrever o texto. Ele só teve de fazer tudo aquilo que antes dizia que não era para se fazer quando estava com a fala nos auditórios ou empunhando mega-fones. No outro dia a matéria sai publicada. Ele vê os previsíveis comentários dos colegas a respeito da matéria que ele fez - o qual nem teve coragem de ler para não ter mais raiva. Ele ganha o emprego. Mas antes de encarar os colegas de militância para explicar o que ele está fazendo e porquê está fazendo, ele tem de descobrir por si próprio se isso tudo vale realmente à pena. Vai até a casa de um ex-professor repórter num jornal concorrente. Este era um dos poucos que respeitava o movimento estudantil. Quer saber como o professor conseguiu ser um dos mais respeitados jornalistas dos grandes jornais ‘comerciais’ da cidade, dados os ideais que ele partilhava nas salas de aula.

Ao chegar a casa do professor, o impacto. Um dos jornalistas mais respeitados da cidade, com um dos melhores salários, tem uma casa bem mais simples que a sua. É um apartamento pequeno, sem nada luxuoso. Móveis surrados, alguns quadros bonitos mas com a televisão pequena, apesar de ser LCD. O professor fala com ele, mas daqui a alguns minutos nenhuma das palavras do mestre ficará registrada em sua mente. O que marcou mesmo Armando foi ver um jornalista no auge da carreira possuir menos coisas do que o pai, que nem curso superior tem. O professor falava dos primeiros meses difíceis dele na redação e filtros ideológicos quando viu o ex-aluno sair correndo pela porta.

Armando desceu desde o oitavo andar do prédio onde o ex-professor morava pelas escadas. Ele queria muito chorar, mas o choro estava engatado todo na garganta. Ele chegou em casa e não falou com ninguém. Foi direto para debaixo do chuveiro. Ele se sentia sujo. “Como eu fui me vender por tão pouco?”, se condenava. Eis que a mãe bate na porta do quarto. “Armandinho, telefone pra ti. É do jornal”, avisou a coroa. “Vou atender aqui do quarto”, respondeu Armando. Era a chance. “Vou mandar esse jornal pra puta que pariu”, desejou. Ao atender, não era o editor e sim o colega jornalista que o acompanhou.

“O policial denunciado por você foi afastado da polícia pela corregedoria”, disse o colega preocupado (pois PMs costumam 'marcar' jornalistas que 'escrevem demais'). Mas Armando sorriu de felicidade, deixando o colega sem entender. Afinal, Como?! A linha que escrita do policial que agrediu o aluno covardemente saiu?! Ele pega o jornal depois de desligar o telefone. Procura pela linha. Estava lá! A linha saiu! De repente, o outro lado da profissão irradia diante dele. Em tantos atos e palestras para militante ouvir, nunca conseguiu fazer com que uma autoridade canalha fosse ao menos punida. Com uma linha de jornal ele conseguiu fazer algo concreto que não conseguiu em três anos de movimento. Em meio a alegria, chega um sms. “O jornal burguês mais uma vez criminalizou nosso ato”, enviou um colega militante. E agora? Ser ou não ser jornalista de um periódico burguês que, porém, fala mais alto que um palanque? Eis a questão...

Continua...

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

DIANTE DE SI – PARTE 1 DE 3


Durante a graduação ele não foi um aluno brilhante, mas nem de longe foi um aluno qualquer. Armando liderou por três anos o Centro Acadêmico de Comunicação Social, apelidado carinhosamente de CACOS pelos integrantes. Desde jogar o bebedouro quebrado na sala do reitor até ser preso por cuspir na cara de um PM durante um protesto, várias são as lembranças que aquecem o coração dele. A graduação veio com um canudo entupido de um passado honroso, aos olhos dele, mas de um futuro incerto. No momento que recebia os aplausos pelo nome chamado, no caminho até o palco ele ia refletindo sobre o que aquilo significava. Depois, lá de cima, olhando aqueles rostos maquiados, aqueles colegas perfumados e familiares orgulhosos, a pergunta que ele se fez foi: e agora?

Três meses depois, ele tinha o apoio da família, mas era estranho o aperto no coração que sentia ao saber notícias de seus amigos arrumando bons empregos em assessorias de comunicação, ou nas detestáveis redações de grandes jornais, que ele tanto criticou em vários momentos. Quatro meses depois, a bomba: “o filho é teu”, disse Alice, com uma barriga mínima para uma gravidez de cinco meses. Ele não quis acreditar. “Era uma orgia, porra! Você nem deve lembrar quantos te comeram naquele dia”, se desesperou. Ela argumentou que ele estava porre, mas deve lembrar que ela pediu muito pra que ele não gozasse dentro. Levando as mãos à cabeça, lembrou de como aquela irresponsabilidade foi deliciosa no momento. “Eu só descobri mês passado, porque minha barriga quase não cresceu e minha menstruação é irregular”, explicou ela, dizendo que nem sentir enjôos, sentia.

Cinco meses depois de formado, a família já o pressionava para arrumar emprego. “Um eu sustento, mas sustentar mais uma criança eu não posso”, avisou o pai de Armando. A angústia já o dominava quando soube que um jornal impresso estava contratando. Ele revia as fotos de um protesto a favor da democratização da comunicação que fez dois anos antes em frente à redação em que ele poderia estar no dia seguinte. A noite foi longa, mas depois de ter rolado na cama por muitas horas ele finalmente cochilou e sonhou com uma linda criança sorrindo pra ele. Ele a pegava no colo, e em seguida o bebê fofo mordia os ombros dele com a gengiva. Ele acordou às seis, com aquela imagem do bebê na cabeça. Antes das oito da manhã ele estava na redação. Ele foi indicado por um professor que sempre o achou promissor. O teste consistia em acompanhar uma equipe de reportagem e fazer uma ou duas matérias ao voltar para a redação.

Para a surpresa dele, a primeira pauta era cobrir um protesto de estudantes. Quando chegaram ao trecho da avenida bloqueada pelos manifestantes, ele logo identificou alguns "companheiros". Para justificar-se aos colegas jornalistas, disse que ficaria olhando de longe “pra fazer uma apuração por outro ângulo”. A equipe desceu, fez fotos, entrevistou estudantes, polícia e transeuntes. E Armando lá, escondido e morrendo de vergonha. Eis que um policial começa a provocar os estudantes. Chama-os de veadinhos. Um estudante, como de praxe, reage atirando pedras. Basta. A confusão se generaliza. Balas de borracha. Pedradas. Cassetetes descendo. Sangue escorre. Eis que, bem diante de Armando, um policial passa a rasteira num estudante e covardemente o acerta uma coronhada na cabeça. O estudante grita. Armando mira o rosto. É semelhante. Lembra muito. Não. Não lembra, é: o sucessor dele no CACOS.

A confusão se dissipa. A polícia consegue desbloquear a via. Motoristas de carro e ônibus e muitos trabalhadores nos coletivos xingam os estudantes detidos quando passam por eles. Armando vê tudo isso também. A equipe volta à redação de um jornal de linha editorial extremamente conservadora. Agora ele tem que escrever, sabendo que se escrever como pensa ser a verdade o emprego não será seu. Ele lembra-se da militância. Do discurso, do filho, do passado. Pensa no futuro... pensa no agora... e agora?
Continua...

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

2012 REALmente feliz!

Eu no museu Reina Sofia - Madri/ESP
Eu não sou muito ligado a horóscopo. Fico intrigado com a precisão com que os astrólogos descrevem a minha personalidade sem nunca ter me conhecido, mas não curto adivinhações, previsões do futuro. Não tenho nada contra quem acredita, mas comigo a coisa não funciona. Bom, não funcionava até o final de 2010. Vi no blog do excelente Antônio Rosa, Cova do Urso, além da mais perfeita descrição de mim mesmo enquanto pisciano, que em 2011 eu receberia muita grana, que eu teria que ter cuidado na hora de gastar e tals. Bom, pra minha "decepção monetária"o primeiro ano da nova década não me trouxe dinheiro. Já tive anos bem melhores em relação a isso, mas não posso dizer que não foi um ano rico. O ano que (já) passou foi o ano das viagens.

No ar-condicionado ao ar livre de Goiânia-GO
Eu sei que menti pra umas e uns. Sou do tipo que mente quando não quero passar vergonha (pronto falei). O fato é que até esse ano, eu nunca havia saído do meu querido e agora definitivamente inteiro Estado do Pará. No máximo havia ido ao oeste do Estado, na cidade de Marabá, e confesso que isso me frustrava. Então, em julho, fui ao Congresso da estatal UNE em Goiânia. E de quebra, além de sair pela primeira vez do estado de busão, ainda convivi com pessoas de todo país, com seus sotaques, costumes, trejeitos. Coisa deliciosa. Também experimentei pela primeira vez o que é receber vento frio que não vem de ar condicionado.

Menos de um mês depois, recebi o convite para ir à Jornada Mundial da Juventude (puxa-saco-do-Papa). Pela primeira vez viajei de avião (morrendo de medo) e saí do país. Também para um evento com muita gente, só que do mundo todo. Pude perceber como somos iguais e diferentes, lindos e exóticos, cada um com seu cada um. Não me sai da memória a gente dançando "cada um no seu quadrado" com as lindas argentinas. Bebendo de graça no bar espanhol porque simplesmente o dono gostou da gente - prometemos nos enfrentar na final de 2014 \o/. Lembro de estarmos entre cerca de cem brasileiros e mais de mil jovens de outros países, e só nós usarmos o banheiro pra tomar banho (blerg!). Enfim, não voltei de Madri vislumbrado com a Europa em crise, mas voltei satisfeito pelas histórias que trouxe de lá para contar, além da sensação incrível de ter visto de perto um Picaço (ui).


Em terras sulistas...
Em relação a viagens, não poderia deixar de mencionar a ida a terras sulistas. Lá me senti mais próximo das minhas adoráveis amigas Luna, Michele Pê, Mirella, além do genial Tonho. Infelizmente não pude encontrá-los pessoalmente, mas seja no chimarrão, seja no sotaque, eu os tive perto de mim. Além disso, o ano que passou foi ano que vivi a maior turbulência familiar da história da minha vida. De agosto a dezembro, só me via a mente os versos de Arnaldo Antunes: "A sua casa já desmoronou no meio da sala?". E em meio a isso, eu tendo que produzir minha monografia de conclusão de curso. Faltando 20 dias para o prazo final de entrega, menos da metade estava pronto. Consegui fechar isso com uma colaboração incrível de minha amiga Leila, mas tive que amargar um 9,5 no final, que me doeu pra caralho, pois sabia que o projeto que tinha era bom. Tanto que a banca reconheceu isso. Lembro do prof. Rodolfo comentando: "Se o Eraldo não tivesse viajado tanto...". Aff.


Jornalistas formadas/os - a melhor turma com quem estudei!
Na verdade, não espero nada de 2012, mas estou pronto para tudo. Descabaço o ano desempregado, mas ao mesmo tempo com perspectivas dos melhores empregos que jamais tive. Começo o ano frustrado ainda pelo 9,5 mas com a perspectiva de conseguir defender ótimos artigos. E entre desafios e oportunidades que fazem com que a vida pareça deliciosamente real, espero para mim e para todas as minhas amigas e meus amigos um 2012 que nos dê força para sorrir, coragem para chorar, e sapiência para discernir o que vale a pena gozar.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

¿Tiempo Perdido?


"À Procura da Felicidade" foi um filme que, confesso, demorei bastante para assistir. Isso porque quando li algumas sinopses, o longa me pareceu mais uma história de incentivo ao falacioso "Sonho Americano", onde todas as portas estão abertas para você ficar feliz através do dinheiro que você ganhará. Mas aí, um dia sem muito pra fazer, resolvi assistir quando a TV reprisou. O filme é bom. Mas o que mais me chamou atenção no filme não foi nenhuma cena que foi filmada, mas uma que foi contada pelo protagonista, e para mim foi mais imagética que todas as cenas fortes mostradas. Ele refletia sobre como sempre foi o melhor aluno da classe. Sempre elogiaram a sua inteligência. Ele achava que por isso, nunca passaria necessidade. Essa reflexão dele me tocou profundamente.


Nunca fui o melhor da classe. Nunca quis isso. Mas não são poucos os que chegam comigo e demonstram uma expectativa boa a respeito da minha carreira, dizendo que tem certeza de que eu vou conseguir o que quiser na vida e etc. E esse filme me fez despertar para a possibilidade de tudo o que consegui até agora não servir de muita coisa, pois não tenho nada ainda que construí efetivamente. E não falo só de coisas materiais, falo do meu nome, da minha significância para o mundo, para além do meu ciclo familiar. E se o filme da minha vida real, no qual sou protagonista querendo ou não, não terminar com final feliz?


Estou na reta final de minha graduação. Estou num momento de construção de projetos para minha carreira e para minha militância. E confesso que o tempo todo me vem a cabeça a pressão de vencer. De acertar. De conseguir ser o que acham (e o que eu mesmo acho) que sou. Mesmo porque, eu sou nietzschiano. Eu tenho vontade de potência. Não tem graça fazer parte de um mundo onde não fazemos a diferença. Nesse momento estou à procura da felicidade, da definição de que gosto o meu tempero dará ao mundo. Estou vivendo um momento de romance existencial cósmico entre o desespero e a esperança. Mas tudo bem. "Não tenho medo do escuro, mas (por favor) deixem as luzes acesas"¹.
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¹Tempo Perdido - Canção de Renato Russo.
Estarei ausente daqui pelo até o dia 15, aproximadamente. Tenho um congresso para ir no Rio Grande do Sul semana que vem, e tenho que ajeitar umas coisas antes, por isso não terei tempo de postar. Vou passar nos blogs antes de viajar pra dar um alô. Prometo.