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segunda-feira, 30 de junho de 2014

ÚLTIMA PAULINISSE - Derradeira parte de um mosaico inacabado

Este blog nunca vai sair do ar, se depender de mim, mas não mais postarei textos novos aqui, salvo na hipótese de eu conseguir publicar um livro com algumas das postagens contidas neste cantinho que há cinco anos é minha válvula de escape para o infinito. Não lembrava, mas quando criei este espaço, na primeira postagem eu disse que ele a realização de uma meta pessoal estabelecida no final do ano anterior. Eu descontinuo as postagens mais ou menos pelo mesmo motivo. Tenho vontade de publicar algo em papel e nada melhor para começar essa vida do que aproveitar o que já produzi.

Foram cerca de 71 mil visualizações nessa meia década. Não significa que cada pessoa que abriu o blog leu um texto todo (tão pouco se gostou), mas é alguma coisinha. Quando eu tinha tempo e disposição pra ser um blogueiro mais ativo eu consegui uma média de 3 mil visualizações/ mês e encerro com menos de um terço disso, um dos motivos pelos quais tomei essa decisão de parar. Se eu não tenho como alimentar regularmente nem como divulgá-lo como se deve, vou continuar publicando aqui pra quê? Se eu quisesse escrever só pra mim e meus amigos mandaria os textos por email ou registraria só no meu PC. Óbvio que criei blog pra que muitas pessoas leiam as porcarias que escrevo.

Eu paro de postar, mas não o tirarei do ar.  Aqui eu expus as minhas entranhas, minhas confidências mais profundas, e minhas loucuras mais desnudas. Também conquistei verdadeiras amizades no mundão da blogsfera. Por isso, enquanto o blogspot existir esse canto existirá.Em breve, além de tentar publicar alguns desses textos pretendo criar um blog só pra contos eróticos e blogar crônicas no site da organização onde trabalho. Darei um jeito de colocar nesse próprio post aqui no futuro os links para vocês conferirem. Também tenho em mente alguns argumentos para romances. "Vamu vê" no que dá.

SOBRE O TÍTULO E PROCESSOS
Como falei em algum post da vida, “Eraldo e suas paulinisses” é um neologismo que brinca com meu nome composto. É legal que o “paulinisse” desobedeça a norma gramatical. Se fosse seguir a “ordem” seria “paulinice”, mas a este cafofo literário aqui jamais quis se enquadrar em regra alguma e enquanto laboratório contém muitos erros de ensaio. Quando re-leio sempre edito uma coisa aqui e outra ali, mas ainda há muitas falhas de concordância, de ortografia, inadequações estéticas. Contudo, como valorizo processos, esses registros com "erros" não me são motivo de vergonha, e sim prova de que a gente muda o tempo todo e às vezes consegue aprender algo. E se noto equívocos é porque alguma coisa assimilei dessa maldita arte de escrever.

Aqui estão registrados textos, inclusive, muito ruins, outros bons, outros "marromenu", ou seja, fica muito do pior e do melhor de mim. Jamais abandonarei minhas Paulinisses e nem deixarei de ser um mosaico de eus, porque pra mim isso é muito mais que um título e um subtítulo. É princípio. Ninguém é a mesma coisa sempre e deixamos uma assinatura particular em cada um de nossos gestos. Esse blog me ajudou a aprender a sobreviver nesse mundo através da escrita. Pretendo continuar fazendo isso de leso que sou.

Aqui uma pequena seleção nos meus textos prediletos dos principais Eus deste mosaico:





Eu Romântico: Twittando

Eu Existencialista: Mosaico de eus em debate



Eu Religioso: Círio de Lucidez

Eu Poeta: Mel e Limão




quinta-feira, 10 de abril de 2014

Sobre seca, cerca e orações*



Em qualquer livro de gramática, em qualquer aula sobre sujeito e predicado, as orações sem sujeito são exemplificadas com fenômenos da natureza, porque as ações contidas nestas não podem ser atribuídas a nenhum agente. Por exemplo: “Choveu no semiárido”. O verbo “chover”, como todos os fenômenos naturais, quando usados no sentido literal e não metafórico possuem um caráter impessoal.

Contudo, o ato de chover pode ser substantivo, principalmente em momentos de lamentação, como neste caso: “A chuva não veio”. E a precipitação de água também pode estar contida num outro tipo de oração, mas no sentido de prece: “Que Deus mande as chuvas esse ano para que não haja seca, tenhamos condições de beber água o ano inteiro sem sacrifício, isso melhore a agricultura e possamos ter pasto e bebida pros animais. Amém!”.

Mas, no que se refere à escassez d’água no semiárido brasileiro, chover sempre será parte de uma oração sem sujeito, pois a região com sua característica própria é mesmo um local onde se chove pouco. Se há sujeitos que causam grandes problemas durante a estiagem não são fenômenos da natureza, e a culpa não é das preces não atendidas. Os sujeitos culpados são os latifundiários, os governantes incompetentes e opressores ao longo da história. Jamais as chuvas ou a falta de fé, tadinhas.

O semiárido brasileiro possui a maior concentração de água desse tipo de bioma no mundo. São cerca de 37 bilhões de metros cúbicos estocados em cerca de 70 mil represas que garantiriam, em tese, recursos hídricos para todas as pessoas sem depender da chuva. Mas grande parte desses recursos estão em propriedades privadas e distantes do/a pequeno agricultor/a. Por isso não a seca, mas as cercas e a má distribuição ocasionam a escassez, principalmente para as famílias camponesas. É absurdo que em pleno século XXI o Brasil, atual 6ª economia do mundo, ainda não tenha conseguido vencer os desafios da estiagem, pois apesar do baixo investimento em pesquisa nesse país já há conhecimento científico suficiente para apresentar soluções eficientes a tal demanda. Bastariam para isso sujeitos determinados nos governos.

Culpar as chuvas, depender de preces foi tudo o que organizações como a Articulação no Semiárido (ASA), a Cáritas e outras deixaram de fazer quando passaram a propor tecnologias de armazenamento e produção alternativas para a convivência harmoniosa com tal bioma. Na maior seca dos últimos 40 anos na região - vivida de 2011 a 2013 - por exemplo, já se nota o resultado positivo com um número bastante reduzido de migração, ausência de grandes saques, e daquela típica imagem de retirantes, etc. Com estiagens bem menores os interiores viravam “cidades fantasmas”, as estações lotadas, e hoje o cenário é diferente, porque mudou em parte a forma como as pessoas se relacionam e acessam os recursos.

Portanto, “choverá amanhã” deve continuar sendo uma oração sujeito. Que nenhuma oração deixe de ser o ato de orar e agir; que nenhum sujeito composto (homens e mulheres, campo e cidade) teime em ser oculto diante dos desafios da política de recursos hídricos; nenhum sujeito simples seja vítima de sujeitos determinados e egoístas; que na gramática da vida "chuva" seja sinônimo de "direito" e não de "milagre".
______________
*Texto publicado originalmente na agenda do projeto Educação Contextualizada no Sertão Cearense, uma realização da Cáritas Diocesana de Crateús, com patrocínio da Petrobras. Versão editada.

terça-feira, 23 de julho de 2013

ESPIRITUALIDADE DAS JUVENTUDES - Transformar água em vinho

Enquanto a santidade de um beijo molhado casual, a caridade de uma noitada numa boate com as amigas e/ou a fé num mundo melhor e possível forem assuntos conversados sem filtros apenas ao lado de fora da igreja, dificilmente conseguiremos aceitar plenamente a dimensão da espiritualidade que habita/ emana das juventudes. Por mais que alguns organismos teimem em atrair jovens para um curral onde velhos discursos possam ganhar o verniz de novas gírias, em algum momento as cercas serão puladas, quiçá quebradas por eleas/es, por mais que nem toda novidade seja “louvável” para quem perderá alguma coisa com a mudança. 

A Boa Nova cristã vive um desafio perigoso desde a sua gênese: ela incomoda os poderosos. A jovem Maria sabia disso, pois segundo a comunidade de Lucas (Lc 1,52), ao carregar “A novidade” no ventre ela cantou que “Ele (...) derruba do trono os poderosos e eleva os humildes”. Ao mesmo tempo, segundo a comunidade de João (Jô, 1-11), o primeiro milagre de Jesus garantiu que a festa, a alegria e a bebida de alguns adoráveis bêbados não acabasse, e transformou a água da purificação em vinho. É como se Jesus transformasse água benta em cachaça, no primeiro grande símbolo nesse evangelho de que o Messias era Deus em forma de homem, vivendo isso até as últimas consequências; o Divino que adiante sangraria pelo bem dos homens e das mulheres.

Talvez não seja exagero pensar que hoje algumas pessoas realizam o trabalho de evangelização das juventudes trilhando o caminho inverso. São vinhos que são convidados a serem transformados em água, alegria que precisa ser desfigurada em respeito, sexualidade que precisa ser reduzida a pecado, ousadia que precisa ser regredida ao status de desobediência. Mas isso apenas no nível do discurso oficial, de algumas publicações talvez, porque na prática o “Espírito sopra onde quer, você ouve o barulho, mas não sabe de onde vem, nem pra onde vai” (Jô 3, 8). Quem sabe as juventudes ainda sejam aquele garotinho, “perdido” dos pais dentro de um templo, evangelizando quem acha que sabe mais do que ele (Lc 2, 41-51).

Quantas/os de nós, no trabalho com jovens sabemos enxergar que até dois pães e três peixinhos de um rapaz ou de uma moça são suficientes para alimentar uma multidão faminta (Jo 5, 5-15)?  Quantos de nós não somos os irmãos mais velhos daquele filho mais jovem e mais amado pelo pai, que por inveja o atiramos no poço e o declaramos morto, ou pior, o vendemos por qualquer preço?; ou mesmo não somos aquele irmão mais velho que se acha mais merecedor do abraço do Pai do que o irmão todo errado, como aquela jovem que engravida precocemente, seja o adolescente apreendido e exibido ao vivo nos telejornais, seja aquela menina rotulada como alguém que não tem nada na cabeça?

Querer o certo ao errado, aliás, é o maniqueísmo no qual caímos em tentação todas as vezes que não compreendemos que as juventudes precisam construir com as próprias mãos e sob auxílio dos mais velhos um caminho. O fetiche das multidões e grandes eventos tem sido o grande inimigo do processo no qual a/o jovem precisa amadurecer em todas as dimensões de sua própria existência, e não apenas ser mais um número. Não estaríamos querendo que os jovens apenas digam “Eis-me aqui”, ao invés de apresentar o desafio de um “caminho aberto”?

Já pensou se a pedagogia de Jesus Cristo fosse baseada apenas em fórmulas de fácil solução, como declarar a fé incondicional, só cantar coisas de Jesus e jamais desobedecer? Tadinho do São Pedro. Seria excomungado quando duvidou que atirar de novo as redes ao mar depois já ter tentado tanto daria resultado; seria convidado ao confessionário por ser um homem de pouca fé e não andar sobre as águas quando chamado; poderia ser preso ao cortar as orelhas do soldado que prendia o Mestre ou seria chamado de herege por negar Jesus no momento mais difícil. Mas foi esse “homem de pouca fé” que ganhou a honra de chefiar a igreja, de repente porque Jesus conseguia enxergar como poucos que os defeitos expostos não são necessariamente piores do que os ocultos.

Temos jovens nas periferias, no campo, nas obras, nas bocas de fumo, na cadeia, dentro do templo, num abrigo esperando adoção, na rua esperando esmola ou no seu quarto esperando um novo videogame. E temos ao redor deles uma sociedade e uma igreja adultocêntricas que se enamoram da beleza e a energia jovial dessas juventudes, e que gastam grande parte do tempo construindo fôrmas para elas. E para quê? Será possível construir um caminho para as/os jovens sem ter a frente disso elas/es próprias/os?

É interessante ver que de lugares onde a opressão do racismo histórico imperavam surgiu através das mãos dos jovens o Blues, o Roquenrol, o samba, o funk carioca, o hip-hop, o tecnobrega, o manguebeat, o cordel, o forró, os solos de Hendrix, alguns dos atletas mais maravilhosos da história, como Jordan, Bolt, Pelé e Cia. E se o Espírito falou através de Maria que Jesus viria para elevar os fracos e destronar poderosos, como não dizer que tudo isso é fruto do Espírito de jovens ousados apesar de tudo? Os sacerdotes e levitas de hoje deveriam voltar de onde acham que devem ir e aprender com a sabedoria desses samaritanos (Lc 10, 30-37), todos eles mais próximos dos jovens do que muitos sermões e pregações.

Como o padre Hilário Dick costuma dizer, “A juventude é o sacramento da novidade”. Essa espiritualidade renovadora e, por que não dizer, transgressora, brota de quem tiramos o alimento que parece pouco, mas suficiente para alimentar milhares de famintos; é o que ajuda a sobreviver os que são atirados no poço e ainda assim aceitam o desafio de entender os sonhos dos outros; é quem dá coragem para quem diz um sim conseqüente, independente do perigo; é o que ilumina aquela/e que erra pra caramba, mas que no fundo quer muito acertar.

A espiritualidade das juventudes, portanto, é o impulso fundamental da novidade, o novo que precisamos, mas nem sempre aceitamos. Querer a juventude em suas baias e não aceitar a novidade que ela trás é um contrassenso, é o mesmo que dizer amar o Jesus loiro, de olhos azuis, o da misericórdia e que não chama palavrão, e negar que ele também foi desobediente, transgressor, e revolucionário a ponto de desagradar todas as elites da época e sofrer as consequências disso. Da mesma forma, não adianta fazer o discurso de que aceita a renovação e não querer correr o risco de modificar o que aparentemente é puro, ou sem dar voz para falar o que pensam aqueles que de alguma maneira louvam. Ou gritam.


terça-feira, 18 de junho de 2013

Os 20 Mil de Belém

Foi na avenida Almirante Barroso que tive minha primeira experiência como manifestante. Na ocasião, há cerca de 15 anos atrás, eu enquanto estudante o como centenas de outras/os pelo grêmio estudantil do então Colégio Pedro Amazonas Pedroso (CEPAP aos mais saudosos) para engrossarmos as fileiras do MST quando fazia um ou dois anos do Massacre de Eldorado do Carajás. Não lembro de muitos detalhes, mas recordo que mulheres, homens e crianças marchavam já há dias para acampar em São Brás, na histórica praça do Operário.

Não sai da minha memória também que as pessoas a frente desse grêmio eram ligadas ao PSTU, e que me senti muito bem acolhido pelas pessoas em marcha. Rostos simples de gente que eu via na TV como baderneiros e que se preocupavam o tempo todo se os estudantes tinham sede, se estavam bem. Choveu naquele dia, assim como ontem, quando caminhei pela mão inversa da Almirante que já não é a mesma. Gritei por coisas parecidas com as que gritei outrora (Passe Livre para estudantes, por exemplo). Se foi histórico pra mim caminhar ao lado do MST em minha primeira passeata, foi histórico para o mundo a data de ontem: 17 de junho.

Nunca dei azar de participar de um ato com forte repressão policial, mas não lembro de uma na qual um ou outro indignado tenha errado na dose. Lembro de uma que participei, contra a ALCA, que paramos em frente ao consulado estadunidense e algumas pessoas chegaram a atirar pedras em vitrais, arrancar gramas e coisas do tipo. Naquela época eu não gostei daquela atitude, e qual não foi minha surpresa ontem quando, já nos primeiros metros caminhados, um rapaz encapuzado abaixou para pixar uma mureta e foi logo repreendido por centenas de vozes anônimas: “Sem vandalismo!”, gritavam. Porém, deixo claro, discordo do rótulo de vândalos manifestantes que reagem contra a PM, embora eu não acredite em violência como solução a nada.

Ontem vi muita gente que me lembrava a mim mesmo quando comecei a me rebarbar contra o sistema. Gente que se sentia motivado a gritar palavras de ordem, mas ainda com certo constrangimento. Gritavam, mas só no auge do coro, e comumente erravam algumas palavras. Mas apesar daquele ar de certa forma frágil de rostos joviais, havia um olhar perene naqueles semblantes, que é impossível de ver em qualquer outra faixa etária com a mesma intensidae: era o olhar da novidade. O novo que não nega tudo que é velho, mas tão pouco reafirma tudo que era dito até então. Por exemplo, se eu fui pra rua há 15 anos puxado pelo PSTU, ontem uma das palavras de ordem que mais ouvi foi o povo mandando a galera com as bandeiras vermelhas tomarem no lugar que rima com “U”.

Ah, mas não poderia deixar de falar do objetivo de mais de 20 mil pessoas que foram às ruas de Belém em consonância com outras centenas de milhares em todo Brasil. O povo tava na rua por causa de vinte centavos, contra a copa, contra a corrupção, contra...; pra ser honesto comigo e com todos os outros que compartilharam por algumas horas o mesmo asfalto sob os pés, essa é uma das diferenças mais atraentes e ao mesmo tempo preocupante desse novo momento: não sabemos onde isso vai dar, mas sabemos que não queremos ficar onde estamos. Eu acredito nisso. E acreditar nisso, senhoras e senhores, é ótimo.

O único congestionamento que eu lembro de ser aplaudido em Belém é o que causa a passagem da imagem da Nazica no Círio rodoviário, quando pessoas aparecem nas janelas e à beira da pista pra aplaudir, homenagear e etc. Ontem eu vi muito disso numa passeata.Talvez porque o povo na beira, sejam os que apoiavam com panos brandos nas janelas, sejam os que no fundo aguardavam uma porradinha contra a polícia para acompanharem de camarote viam ali na imensa maioria de pessoas o próprio reflexo. Uma gente que não quer depredar o Estado, ao mesmo tempo que queria deixar claro que não estava nada contente com ele, ao mesmo tempo que se demonstrava a favor das reivindicações dos “baderneiros”, mas deixaram claro que não querem servir de massa de manobra de nenhum partido e não toleram violência. Alguns verão nisso despolitização. Não que não seja em parte, mas não há como negar o espírito radical disso. Radicalizar não é apenas ir para um extremo, mas também criar outro.

DETALHES
É comum a manifestações fazer silêncio quando se passa em frente a um hospital, mas nunca tinha visto esse silêncio vindo de 20.000 pessoas. Não havia carro-som ontem animando. Ainda bem. Não houve quem manipulasse as falas ou que tivesse a pretensão de querer falar por todas/os. Assim, a recomendação do silêncio vinha de boca em boca, de dezenas de metros à frente até o fim. Foi de arrepiar ver essa grande rede social funcionando ao mesmo tempo que lia em muitos cartazes a mensagem “saia do facebook”.

Eu sempre critiquei as grandes produções cinematográficas e televisivas a respeito de atos públicos. Repare, leitor, que a única palavra de ordem que sabem dizer na tele-dramaturgia é “O povo unido jamais será vencido!”. Eu nunca tinha ouvido isso numa manifestação real. Até ontem. Também havia ontem manifestantes fantasiados de “Homem Aranha” (oi?), gente fazendo poses para fotos ao lado do delegado Eder Mauro, que para quem é de fora, representa aquela figura do policial brabo que mata mesmo os “vagabundo”. Há quem ache isso bonito. Pra mim ganhar fama de assassino supostamente matando a juventude negra deveria render a ele algumas das muitas vaias que berramos.

Talvez a manifestação mais ignorada de todos os tempos da última noite tenha partido de um jovem rapaz, que simplesmente parou sobre um bloco de concreto, de frente para a multidão com uma Bíblia aberta (oi?). Jamais entenderei qual a intenção daquele rapaz, também um radical, certamente. Mas confesso a Deus Todo Poderoso que ri dele. Por minha culpa, minha tão grande culpa.

As únicas confusões que existiram em todo o trajeto foram protagonizados esporadicamente pelos próprios ativistas. Na realidade, o batalhão que acompanhou todo o trajeto mostrava literalmente na cara que não estavam ali para brigar. Eram soldos, cabos e quiçá alguns sargentos nitidamente fora de forma, longe do padrão utilizado quando o Estado quer realmente bater em alguém. Houve também xingamentos e alterações quando um repórter da afiliada da Rede Globo quis fazer uma entrevista – nem tudo pode ser tão diferente mesmo.


Voltei pra casa com o coro mais clichê de todos na cabeça: “O povo unido jamais será vencido”. Essa frase, que mais parece um verso bobo de feicibuqui, simbolicamente saiu de pessoas convocadas em grande parte através desse aplicativo. Eu ri as primeiras vezes que ouvi. Debochei, na verdade, e me peguei subestimando a novidade. Não é de uma palavra de ordem sofisticada que precisamos, precisamos de berros gritados que façam os que estão à margem entender e se motivarem a virem pra avenida da luta. Independente de qual processo vai desencadear a partir daqui, a lição que aprendi na última noite foi que não é de pessoas num pedestal do conhecimento que precisamos, nem de vanguardistas pretensiosos. Precisamos do povo ao nosso lado, com todas as contradições lindas ou não que isso traga. “E precisamos todos rejuvenescer”.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Jornalismo Policial: Atarefa de contar histórias como a de Santa Maria



Sou da periferia, prefiro ser chamado de preto a moreno, não tenho problema nenhum em declarar quando acho outro homem bonito, mas, confesso, até hoje não me acostumei com o rótulo de “Repórter Policial” que me dão, devido trabalhar no caderno de Polícia de um jornal diário do Pará há um ano. Ser repórter dessa editoria quer dizer, por exemplo, que se trabalhasse no Rio Grande do Sul eu provavelmente teria participado da cobertura da tragédia que já matou até agora 235 e deixou outros 118 jovens feridos em Santa Maria/ RS por conta de um incêndio na boate “Kiss”. Lidar com números e informações fortes como essas, acompanhar imagens tensas assim – in loco – e me perguntar todo dia se essas coisas valem a pena é o que tenho feito durante esse tempo. Eu, que jogava esse caderno policial no lixo antes de folhear qualquer jornal, que classificava esse tipo de publicação como JA - Jornalismo Abutre, hoje defendo que a editoria policial não deve acabar tal como precisa ser, e sim tal como é.

Como exercício mental, não de quem precisa de um emprego, mas de quem precisa se sentir importante para a sociedade no que faz, resolvi criar em minha mente um mundo imaginário sem os cadernos de polícia. Cheguei à conclusão de que seria o cúmulo da banalização da vida quando assassinato cometido nas periferias da nação parar de render manchetes, ou quando a morte não for mais notícia. Aliás, é impossível desligar esse debate da questão da criminalização das periferias, ou do racismo propriamente dito. Para mim, a origem de todas as brincadeiras de mau gosto e de toda abordagem desrespeitosa que se faz nessa editoria vem justamente do desrespeito ao valor da vida dos empobrecidos, principalmente negros. Já vi uma jornalista perguntar ao delegado, após mais uma morte na favela, com as seguintes palavras: “Uma vez que a ficha policial desse elemento era extensa, podemos dizer que é ‘menos um’ pra perturbar”? Ela nunca perguntaria isso se fosse o homicídio de um deputado corrupto branco.
Imagem compartilhada no Facebook demonstra até que ponto o preconceito favorece o desrespeito à vida.

Enquanto a morte nas periferias ganham títulos derivados de + 1, são as mortes dos filhos da classe média que costuma ser espetacularizadas. Nesses episódios percebemos o quanto a curiosidade mórbida independe de classe social. Tanto em mortes de viciados negros quanto de estudantes brancos há jornais que vendem como água imagens que mais parecem parte de documentários de autópsia ou fotos de peritos do IML. Percebe-se também que a exploração da morte, da tragédia, da crueldade, é algo que definitivamente interessa às pessoas. Aceitar isso, aliás, foi o primeiro choque de realidade que levei no meu trabalho.

A ROTINA DA REPORTAGEM

A tarefa diária do jornalista de “Polícia” é correr atrás de notícia. Ao contrário das outras editorias, nós dificilmente saímos da redação com algo planejado. As coisas vão acontecendo e a gente tem que criar mecanismos para não perder nenhuma notícia. Possuir fontes no IML, e entre a população é fundamental. Mas nenhuma fonte é mais segura do que a polícia. Por isso existe historicamente nas editorias policiais de todo o Brasil uma relação muitas vezes promíscua entre repórteres e policiais. Diante de nós repórteres, toda sorte de abuso é compartilhada, há jornalistas que até mesmo batem em presos. Até mesmo a linguagem adotada no meio dá a exata ideia dessa relação. O ato de ir atrás de notícias nessa editoria chama-se “Ronda”, por exemplo.

Voltando a falar sobre morte, hoje posso dizer que consegui criar um mecanismo mental que me permite encarar qualquer tipo de imagem de pessoas mortas durante o trabalho. Alguns colegas meus defendem que não é necessário ver o corpo para escrever a matéria, mas eu discordo. O que faz um bom texto é a apuração, e às vezes um detalhe na cena do crime é o elemento mais importante da história a ser contada. Mas o que me faz perceber que eu ainda sou eu, como o peão para os personagens imersos em sonhos no filme “A Origem”, é a compaixão pelos que ficam. No dia que eu parar de ficar com nó na garganta quando percebo que aquilo que escrevo significa uma perda irreparável para muitas pessoas, certamente demonstrará que passou da hora de eu abandonar essa editoria.

Por isso penso que o caderno de polícia já começa errado pelo nome. Os jornalistas dessa editoria não deveriam agir como se fossem assessores de comunicação da PM. A linha de pensamento que move abordagens preconceituosas, racistas e que no fim das contas acaba por incentivar o ódio e a intolerância que geram violência letal é que precisa ser revista antes de tudo. Perceber que mesmo um ladrão, um estuprador ou um assassino de criança também é um ser humano, que existe um contexto sócio-político por trás dos homicídios nas periferias é algo que requer um mergulho muito além da superfície, o qual nem todos estão dispostos a fazer. Afinal de contas, compreender o processo não vende jornal, não rende status, continuar fazendo o que se faz sim. Mas, acredito, é possível prender a atenção das pessoas, vender, sem vender a alma. Vi muitos comentários interessantes a respeito de muitos textos a respeito da tragédia gaúcha – e brasileira – demonstrando que é possível re-humanizar o jornalismo sem perder a clientela.


Não, eu não acredito que isso vá mudar amanhã, mas penso que até lá, quem realmente discorda dessa linha não precisa esperar o dono do jornal passar por algum tipo de epifania para seguir os próprios princípios. A partir de pequenos gestos, como por exemplo ouvir o que os suspeitos têm a dizer, ao invés de escrever “populares” escrever “pessoas”, ao invés de dizer “bandido morto” escrever “vítima”, o olhar já pode ser modificado. O Brasil é considerado o maior país católico do mundo, possui um grande número de protestantes, mas não consegue ser cristão na hora de pensar em soluções para a violência além de punir. A pena de morte em nosso país é uma realidade velada, cujos juízes são os policiais e os advogados são os jornalistas omissos diante disso.

Rogo para que um dia os cadernos e as editorias que lidam com situações de morte possam ter como chavões não mais palavreados importados dos quartéis, e sim dos jardins. E como quem não precisa esperar o carnaval pra poder sambar, eu vou escrevendo como acredito que tenha que escrever, assim como outros bravos colegas. Portanto, é preciso evitar o olhar maniqueísta dos grandes jornais, porque nele há pessoas sensíveis e que quando são competentes conseguem fazer um trabalho digno. Defendo a humanização dos cadernos de polícia, e penso que o título da editoria também poderia ser revista, mas discordo de quem pensa que eles não deveriam existir. Parafraseando Vinicius de Moraes: “Cadernos de Polícia? Melhor não termos. Mas se não temos, como sabê-lo?”

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

SER UM HOMEM FEMININO NÃO FERE O MEU LADO MASCULINO



“Se Deus é menina e menino
Sou masculino e feminino”
(Baby do Brasil, Didi Gomes, Pepeu Gomes)

Não faz muito tempo eu soube de uma confusão armada por uma mulher na escola de educação infantil onde o filho dela estudava o maternal. Era a festa de aniversário de uma coleguinha, que levou bolos, doces e balões para celebrar o dia dela com a turma. Ela não levou balões azuis, apenas cor de rosa, e o filho dessa dita mulher quis levar uma bexiga para casa assim mesmo (apesar da cor). A babá foi buscar o garoto, que quando chegou ao lar, todo alegre, com o balão na mão, viu sem entender a mãe se revoltar e voltar na mesma hora à escola para tomar satisfações. O barraco só não foi pior porque as crianças já tinham ido embora. Ao voltar para casa, a raiva se voltou ao filho e depois de ter dito que aquela cor não era coisa de macho, ela certamente deve ter dito "homem que é homem não chora", ao ver o filho aos prantos.

Poderia dizer que é assim que as pessoas começam a se tornar machistas, mas na verdade não é. O buraco é mais embaixo, ou melhor, mais antigo. A opressão de gênero tem início no mesmo período em que o homem começou a dominar técnicas para literalmente se apossar dos territórios e se iludir ser dono de onde (e de quem) pisa. Através da força, o menino subjuga quem não tem a mesma força física ou não é “detentor” dos mesmos bens, e entre as vítimas principais estão, sobretudo, as meninas.

Antes dos garotinhos começarem a brincar de oprimir e cometer genocídios nefastos para provarem a si e aos outros que são grandes, quando a humanidade sobrevivia da coleta, a solidariedade aferia mais grandiosidade às praticas das pessoas. Nesse período, não por acaso, a figura feminina era endeusada. Mas não era um poder de cima para baixo, e sim uma relação circular de poder, horizontal, de quem prefere olhar ao outro e à outra a mesma altura, e não com a cabeça inclinada para baixo.

E se o branco é superior ao negro, tudo que vem do negro é pecado, criminoso ou feio; se o ariano é superior ao judeu, todo judeu merece sofrer o que o ariano quiser; se sulista é melhor que o povo do norte-nordeste, tudo que vem da parte de cima do mapa é coisa de pobre, mal educado, de quem não sabe votar, desse povinho disposto a invadir a minha terra me roubar. Ou seja, a mesma lógica vale para o homem em relação à mulher. Numa sociedade patriarcal, tudo aquilo que é atribuído à mulher é inferior, merecedor de chacotas e indigno dos seres superiores: os meninos. Na verdade, isso tem até um nome: Misoginia, ou seja, ódio a tudo que vem do lado feminino da vida.

Já se perguntaram por que as meninas usam calça e os meninos não podem usar saia? Já se questionaram por que a mulher diz que a outra mulher é bonita e os meninos não podem? Já se intrigaram com o fato de que menina chegando com balão azul em casa não dá confusão, mas os meninos não podem? Já se inquietaram com o fato do homem gostar de ver mulher pegando mulher, mas não o é assistir a homem fazendo enxerimento com homem? Está tudo interligado. Tudo relacionado ao feminino é tolerável nas mulheres, ainda que considerado inferior, mas, homem traindo a dita superioridade herdada de Deus é inconcebível. Por isso gays , travestis e transexuais são os maiores alvos dos homofóbicos violentos em relação a lésbicas.

Na verdade, como diz a feminista e teóloga biblista Tea Frigério, o patriarcado não fez mal somente a mulheres. Fez mal também ao homem, que negou o lado feminino que todos nós possuímos. Ao homem restou o papel de ser frio, calculista, o que não chora, e à mulher foi colocado o papel de ser mãe, tolerante, a do sim, que não arrota, não peida, e tem de sempre ser linda aos padrões eurocêntricos; sendo que isso tudo é apenas uma capa, pois todos nós somos dotados de ternura e força, sensibilidade e ousadia, carinho e agressividade.

Então o homem mesmo se colocou nessa prisão de não poder demonstrar carinho, sobretudo para com outro homem, nem sensibilidade demais, sob o risco de parecer gay. Ou melhor, de demonstrar que possui algo daquele ser “inferior” do outro sexo. Portanto, aceitar que há uma menina em todo menino pode sim começar a provocar novas relações de poder, uma outra visão de mundo onde a diversidade  e a tolerância podem ser acolhidas com um doce abraço de menina e (até que não reprimam) de menino também. É preciso entender que um balão rosa é mais recomendável aos meninos do que reproduzir as práticas milenares do patriarcado opressor.

sábado, 13 de outubro de 2012

Círio de Nazaré: Ao colo da Deusa



Parafraseando Heidegger, aonde quer que vamos estamos indo de volta pro colo da mãe. O Círio de Nazaré é muito disso. É uma espécie de carnaval de desobediência a nossa sociedade erguida sob forte influência do patriarcado, aonde foi forjada a imagem Deus como Pai. Como o menino, mesmo acreditando que ser dançarino é coisa de veado, mesmo assim vai lá e dança, nós acolhemos Nossa Senhora como o rosto materno de da divindade a qual tentaram limitar nas catequeses ou nos cultos. Porque Deus jamais vai deixar de ser a imagem e semelhança do povo. O Círio de Nazaré é o culto à mãe, à Deusa, ao sublime rosto feminino da humanidade.

Houve um tempo em que a humanidade era nômade. Nessa época as pessoas viviam de coleta, e tudo era comum entre todas e todos. Ali a figura cultuada como sagrada era a da Deusa, e os símbolos religiosos remetiam a partes típicas da mulher (seio, vulva, útero, etc.). Essa era a época do "Poder Com". Depois o homem passou a dominar técnicas de agropecuária, passou a ser senhor de territórios, até esses se tornarem parte de Estados e depois Impérios. A partir daí o homem instaurou o "Poder Sobre". O Deus então matou a Deusa. Deu-se a era dos tais homens fortes, na qual a mulher precisa ser secundária, dona de casa, mãe dos filhos, e só. Mais uma propriedade dos homens.

Mulher pagando promessa pela casa própria alcançada.
Há quem diga que a devoção a Maria de Nazaré é culto a Jesus, querendo limitar a figura mariana como sendo apenas mulher do sim e do silêncio. Alguns católicos doutrinalistas até podem ter essa fé, mas vai explicar ao fiel que só vai à igreja em batizados ou mesmo a umbandistas, aos proibidos de ser o que de fato são nas paróquias (como gays, lésbicas, travestis, etc.) que Maria intercede ao filho, para este levar o pedido ao Deus Pai, para só depois atender os desejos dos fiéis. Arrisco dizer que a maior parte do povo nem liga para essa “burocracia celestial”. Acreditar no poder da Mãe faz ano a ano milhares de romeiros caminharem quilômetros de outras cidades, uma multidão se espremer numa corda,  ou percorrer a romaria de joelhos. Tudo para pagar uma promessa, ou, simplesmente, pela mãe. Para a grande massa Nazica é poderosa e faz milagre. Pronto.

Trasladação - Procissão no dia que antecede o Círio, em que a santa vai até a igreja da Sé para sair à grande procissão
Saber que o festejo já dura mais de 200 anos e existe antes que a igreja do Papa o reconhecesse (chegando a proibi-lo em algumas épocas), é mais uma prova de como a figura da mulher plena jamais morreu. Além disso, é demonstração generosa de qual forma a força da tradição pode existir sem as amarras do tradicionalismo. Assim como ocorre na devoção à indígena Guadalupe ou à negra Aparecida, o culto à "Senhora de Nazaré" nasceu da força popular. Óbvio que a igreja tenta colher os louros, delimitar elementos profanos e sagrados na festa, mas não tem jeito: o Círio é do povo. Os elementos contidos em toda a grandiosidade do Círio, como corda, brinquedos de miriti, pratos típicos e etc., são em grande parte desobedientes às doutrinas carcomidas da igreja de Roma – que até hoje proíbe a mulher de ser sacerdote, por exemplo.

O Círio, embora também seja católico, é uma representação do quão a humanidade ganha resgatando a figura da deusa, pois a festa é sobretudo sinônimo de diversidade. Na programação (não oficial) do Círio há a Festa da Chiquita (de homossexuais), o Cirial (festival de rock independente promovido por muitos ateus), o Auto do Círio (encenação ao ar livre feito por artistas, cuja maioria nem católico é), Arrastão do Círio (festa folclórica) além de homenagens das religiões afro, da participação de fiéis de religiões orientais, etc. O Círio de Nazaré é a nossa homenagem à mãezinha. É deitar no colo dela e receber cafuné. É a devoção ao rosto materno de Deus, a face da inclusão e da tolerância.

*Todas as fotos são do meu amigo e fotógrafo Celso Rodrigues.

**(Texto originado da entrevista que fiz com a Xaveriana Ir. Tea Frigerio, assessora do CEBIestudiosa da Bíblia na Ótica da Mulher)