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segunda-feira, 30 de abril de 2012

A Carta


Semana passada, mais precisamente na terça dia 24, eu fui cobri a maior tragédia que já presenciei. Nove pessoas morreram em um acidente horrível numa estrada que liga a Grande Belém ao interior. Tive meia hora pra traduzir o que vivenciei por mais de uma hora, num local recheado de dor, morte, e ao mesmo tempo de solidariedade e de gente viva, na tradução mais intensa que possa existir. Até agora, nesses quatro meses de jornalismo, foi o texto que eu mais gostei de ter escrito (Acidente mata 9 e fere 14 na Alça Viária.)

No dia seguinte eu fui enviado pelo jornal até a cidade das vítimas. Fui com o fotógrafo Sidney, mais experiente e muito bom profissional, e o motorista Gerson, que conhecia muito bem a cidade e foi um apoio e tanto. De lá escrevi a repercussão da tragédia na cidade (Tragédia comove milhares em Tailândia) e o velório e enterro de algumas das pessoas que havia visto mortas (Adeus às vítimas da Alça Viária). Também dei dois furos importantíssimos, nessa última matéria: o fato de que um dos motoristas, o que não teve culpa, sobreviveu quando todos achavam que ele tinha morrido, e o motorista do micro-ônibus, o irresponsável, que, além de ser acusado de ter provocado as mortes, ainda é sargento dos bombeiros.

O resultado veio em uma carta que um leitor enviou ao jornal, parabenizando as matérias. No primeiro momento, achei que seria muita presunção ficar falando disso. Por outro lado, a carta foi publicada no jornal em que trabalho, no último domingo. Portanto, não fui eu quem a divulguei, e seria muito esnobe de minha parte achar que isso não é bom o suficiente que não mereça ser comemorado. Por isso, partilho com vocês a carta que ele enviou. Quem quiser ver as fotos e a edição como ela foi feita, pode procurar matérias no caderno de Polícia nos dias 25 e 26/04 e no caderno de Cidades no dia 27/04 (cuja foto de capa, é uma das fotos mais impressionantes que já vi publicada nos últimos tempos, na mesma que exibo aqui) na edição eletrônica disponibilizada no canto superior direito no site do jornal.

Publicação da carta
UMA VERDADEIRA AULA DE JORNALISMO

Carta ao leitor publicada no último domingo (29) e escrita pelo professor Marcelo Andrade.

Acompanhei, com grande atenção, a excelente cobertura que o DIÁRIO deu ao acidente na Alça Viária, em que morreram 9 pessoas  de Tailândia. Quem leu as páginas e páginas dedicadas à tragédia certamente teve a impressão de estar lá, ao vivo, conferindo o que os jornalistas tão bem traduziram em textos e imagens.

E o que mais me impressionou foi o fato do motorista da carreta ter escapado com vida, sendo a que cabine do veículo foi destruída, esmagada. E as palavras dele disseram tudo: "Só pode ter sido coisa de Deus". Por outro lado, impossível não se comover com a dor das famílias que perderam seus entes queridos. Também me emocionei com a história daquele senhor que perdeu a esposa no acidente e sobreviveu, em meio àquele pesadelo.Disse ele que só lembra do choque, da batida e dos gritos de dor e horror à colisão. E lá pelas tantas os vários corpos, já sem vida, que ainda caíram por cima dele.

Certamente imagens que ele jamais vai esquecer. Assim é a vida: uns morrem, outros escapam, outros nascem de novo. E o que fica é a lembrança, a saudade, o afeto. E é nessas horas que a gente se questiona: Por que o destino parece tão injusto para alguns, que partem de forma tão violenta?

Na verdade, por mais que saibamos que vamos partir um dia, não estamos preparados para isso. E toda essa reflexão me veio a cada dia, a cada página, a cada palavra que li no DIÁRIO sobre a tragédia.

Confesso que não sou muito de ler as notícias policiais, mas o material foi tão bem produzido, escrito e editado que acompanhei a sequencia do trabalho e não me arrependi. Trata-se de um verdadeiro testemunho de momentos difíceis e superação a partir de um trabalho bem feito.

Como já disse, não sou muito de acompanhar o caderno com as notícias policiais, entretanto, já guardei em uma pasta as páginas sobre esse acidente e seu desdobramento. Um trabalho tão bem cuidado merece ser cuidado e novamente lido de tempos em tempos. Parabéns.

domingo, 22 de abril de 2012

Descoberto há 512 anos

"Nos deram espelhos
e vimos um mundo doente"
(Renato Russo)

O Brasil está descoberto há 512 anos...

... de transparência institucional
... de respeito aos povos originários
... de humanismo para com os filhos da Mãe África
... de governantes que não se rendam às potências internacionais
... de leis independentes em relação ao moralismo religioso
... de distribuição das riquezas para quem as produz

... de ... vergonha na cara.

O resumo dessa história, eu conto parafraseando Frei Betto:

Dom Pedro I abriu os portos, JK abriu as portas e FHC abriu as pernas... que Lula e Dilma não fecharam.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Via Sacra dos Cristos de agora 2


1ª Estação: Jesus é condenado a morrer na cruz.
Messias, uma criança de nove anos, é diagnosticado com câncer no estômago. Morador de Bom Destino, cidade localizada no interior do Pará, ele nem ao menos sabe o que é essa doença.

2ª Estação: Jesus toma sua cruz.
Não há leito. A mãe não tem nenhum parente em Belém. Ela passa a subir nos coletivos para pedir ajuda. O filho fica deitado numa maca no corredor do hospital. A mãe volta. O dinheiro arrecadado mal dá pra comprar os remédios.

3ª Estação: Jesus cai pela primeira vez.
Messias se contorce de dor. A mãe chora. Os enfermeiros, sem muito a fazer, olham e tentam ignorar. A criança se sente culpada pelas lágrimas da mãe. “Prometo que não vou mais comer besteira”, fala enquanto a dor o dilacera.

4ª Estação: Maria acompanha Jesus no calvário.
A mãe sai gritando pelo hospital que pelo amor de Deus parem a dor do filho dela. Depois de mais de duas horas uma dose de morfina é aplicada no garoto, ao mesmo que, na TV, o governo propagandeia mais investimentos na saúde.

5ª Estação: Cirineu ajuda Jesus a se levantar.
Pela manhã um grupo de voluntários alegra a manhã das crianças. Messias ri. Por alguns instantes ele não se sente num hospital do SUS.

6ª Estação: Verônica enxuga as lágrimas de Jesus.
A mãe de um paciente que está internado se compadece da criança e compra remédios para aliviar as dores de Messias. 

7ª Estação: Jesus cai pela segunda vez.
Messias consegue um leito. Entretanto, após nova avaliação os médicos detectam que a doença avançou pelo organismo dele.

8ª Estação: Jesus cuida das mulheres.
“Mãe, a senhora pode voltar pra casa pra dormir na sua cama, se quiser. Eu já tô melhor”, roga à mãe, que pede licença e vai chorar escondida no banheiro.

9ª Estação: Jesus cai pela terceira vez.
Há poucos remédios no hospital. Sem que a família de Messias saiba, os médicos selecionam os pacientes em melhor grau de doença para que sejam investidos os recursos escassos.  Messias não é um deles.

10ª Estação: Jesus é despido de suas vestes.
O garoto vai ao banheiro com ajuda da mãe. Alguém havia esquecido um espelho lá. Messias se vê. Fica chocado ao perceber-se tão magro e acabado. Ele se sente doente como nunca antes.

11ª Estação: Jesus é pregado na cruz.
Os médicos avisam à mãe de Messias que ele, desenganado, deve voltar para casa. Messias, apesar de quase não conseguir comer, fica muito feliz de poder voltar para casa, e não entende porque a mãe não demonstra o mesmo entusiasmo.

12ª Estação: Jesus morre na cruz.
A mãe consegue uma ambulância para levá-lo de volta. Ela reza para que o filho morra só quando ela tiver chegado em casa, para repartir a dor com os parentes e amigos. O carro balança muito. Messias treme um pouco. A ambulância vai, mas Messias vai antes.

13ª Estação: Jesus é descido da cruz.
Messias saiu de Bom Destino com dores no estômago e volta morto dentro de uma ambulância. O mundo desaba quando o corpo sai do carro. Toda a comunidade chora.

14ª Estação: Jesus é sepultado.
O caixão é pequeno. A dor imensa. Lágrimas descem e corpos desmaiam enquanto a terra cai sobre a caixa de madeira.

15ª Estação: Jesus ressuscita dos mortos.
A cidade, com apoio inclusive da prefeitura, faz protesto com repercussão nacional para que a saúde se difunda sobre aquelas terras empobrecidas. O nome do Messias fica gravado numa das ruas de Bom Destino. O governo divulga nota, ao final do noticiário, dizendo que o investimento em saúde no Estado é 10 vezes maior do que no governo anterior. Porém, as filas e o descaso desumanos nos hospitais públicos (e privados) também contam sua própria versão dos fatos.

quinta-feira, 29 de março de 2012

O Canalha - Caça 8

Ele foi passar três meses numa outra cidade a trabalho. Grana boa, trabalho desafiador, local muito bonito. Mas o que animou mesmo o nosso anti-herói foram os novos colegas. Três rapazes e uma moça - que aliás era muito bonita. Eles logo se enturmaram. No entanto, os três rapazes ficaram loucos pela garota. Ele a achou atraente, mas como os outros já eram afim antes da chegada dele, não achou legal ficar dando em cima. Então a tratava despretensiosamente.

Enquanto os colegas davam flores e pagavam as contas, ele a xingava e dizia que ela tinha orelhas horríveis.  Enquanto os colegas diziam palavras doces ele vivia dizendo que ela tinha um jeito de quem gemia muito loucamente na cama. Enquanto os colegas exibiam-se como pavões no cio, ele nem se comportava direito. Passados dois meses, nenhum dos três amigos do Canalha a conquistou.

Houve uma viagem a uma comunidade bem afastada do centro do município onde trabalhavam. Era uma espécie de aplicação do projeto experimental desenvolvido por eles. Todos os cinco se saíram bem, mas para a moça quem mais se destacou foi o Canalha. Por viver sempre na sacanagem, ela achava que ele não seria um bom profissional. Por isso surpreendeu-se positivamente.

A noite ela foi dar os parabéns a ele. O Canalha estava deitado na sua cama, só de short. Os outros três rapazes dormindo, cada um no seu quarto do mesmo hotel. Mas, tamanha era a certeza de que nada rolaria, que ele pediu pra ela sair logo dali porque estava morrendo de sono. E estava mesmo. Ela então o chamou de estranho. Se despediu e saiu. “Estranho?”. Essa palavra ficou rodando a cabeça dele. Foi como se o "Canalha" nele, adormecido há dois meses, voltasse a acender.

- Depois que você saiu me deu uma dor na costa. Não quer vir aqui e me fazer uma massagem? Perguntou ele via sms.
- Eu não. Por que eu faria isso? Respondeu a moça.
- Porque se não vier aqui, vai perder o pagamento.
- O que você vai me dar?
- Esse é o último sms que mando. Se não vier, tenho certeza que vai se arrepender. Enviou o Canalha, e depois desligou o celular.

Ela enviou sms, Ligou. Xingou sozinha. Vagou pelo quarto. Ele não era o mais bonito dos quatro. Não era o mais simpático. Por que ela iria? Não encontrou resposta. Não sabia se realmente queria ir, então abriu a porta, pra ver se não tinha ninguém no corredor, caso quisesse mesm[súbito, ele entrou no quarto a tomou pelos braços assim que ela abriu a porta].

“Ei! Por que você entrou?”, perguntou ela enquanto ele a abraçava e beijava-lhe o pescoço. “Porque você abriu a porta, ué”, respondeu. “Eu...”. Ela tentou dizer algo, mas foi interrompida pelo beijo mais aguardado de todos os tempos dos últimos minutos. Ela já estava com os olhos fechados, e quase o abraçava quando ele parou. “Se quiser continuar, sabe onde me encontrar”, disse ele e logo em seguida voltou para o seu quarto. Ela ficou ali. Estática. Sem saber o que fazer. Era muita humilhação para uma menina que podia estalar os dedos e ter até mesmo o maior dos seus chefes. “Esse cara é estranho”, pensava consigo.

“Pois eu não vou”, decidiu. Deitou-se na cama. Embrulhou-se. Tentou fechar os olhos, e cada vez que cerrava a visão lembrava daqueles olhos até pouco tempo a devorando. Lembrava das piadas que sempre a faziam rir. “Ele não vai mesmo voltar aqui?”, a essa altura já pensava. Não resistiu e foi até ele. Bateu na porta. Ele não atendeu. Estava destrancada. Entrou esperando a mesma pegada de antes. Mas não aconteceu. Ela entrou mais, o chamou, e nada. Pensando que já era palhaçada procurou embaixo da cama, no banheiro, no armário... e nada. “Ah filho da mãe!”, se indignou. E voltou para o quarto muito revoltada.

Deitou na cama e virou-se de lado para ver se conseguia dormir, mas sentiu o braço dele a envolver. Ela tentou vê-lo, mas o Canalha não disse nada e nem a deixou virar-se. A tocou. Ela estava "convidativa". “É você, né?”, perguntou com voz quase trêmula, toda ardente de desejo. Ele nada respondeu. Arredou a calcinha dela e a penetrou enquanto ela fechava bem os olhos e escancarava a boca involuntariamente. Misterioso. Ela, apenas crendo e desejando que fosse ele. Depois de fazê-la gozar naquela posição ele a vendou com um lenço levemente perfumado e continuaram. Depois de terminarem ainda ficaram um tempo trocando colo. Ele saiu sem nada falar e sem se deixar ver.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Sobre água e conflitos...

Até os cinco anos de idade minha família e eu morávamos numa casa de madeira, no bairro da Sacramenta em Belém. Vivíamos sobre o igapó, ou, como queiram, uma espécie área alagada com água insalubre. Nossas ruas eram pontes nem sempre seguras. Vez ou outra alguém caía delas na água suja - devo ter caído algumas vezes, inclusive. Quando chovia, as casas que lá se encontravam ficavam mergulhadas no igapó. O nosso drama familiar só foi resolvido porque o irmão do papai nos cedeu o terreno em área seca no qual minha família mora até hoje.
Partilho isso porque há 20 anos a ONU celebra no dia de hoje (22/03) o Dia Mundial da Água. E quando a gente fala de água, não falamos só de água pra beber.Enquanto minha família, empobrecida, não teve outra escolha na época a não ser morar numa região onde havia águas indesejáveis. Até hoje muitas pessoas na Amazônia acabam tendo que morar sobre pontes (palafitas) ou a beira de canais onde estão as "águas que não servem". Ou seja, as pessoas que para a sociedade capitalista "não prestam" moram perto da "água que não presta", enquanto que, as "pessoas que prestam" vivem perto da "água que presta", como em frente a praias badaladas.
Eu moro na Amazônia, que concentra cerca de 8% de toda água doce do mundo. Daqui a 20 anos, nós mesmos aqui na Amazônia podemos não ter água pra beber, e isso não vai ser porque desperdiçamos água, e sim porque as águas que temos estarão todas contaminadas pela ação indiscriminada do agronegócio, das mineradoras, das indústrias, e até mesmo pelos esgotos de lares que não passam por tratamento.
Daqui a 20 anos, nós teremos praticamente a mesma quantidade de águas que temos hoje, mas elas estarão poluídas devido à irresponsabilidade desse sistema que vivemos e a falta de um desenvolvimento solidário sustentável e territorial.
Água não é mercadoria, nem propriedade dos ricos e dos seus empreendimentos. Água que não presta não deve ser bebida de quem não tem dinheiro para comprar água mineral nem moradia para quem não tem onde morar. Privar as pessoas do direito de usufruir da água, que é dada para nós gratuitamente pela grande mãe Gaya, é cruel. No futuro, muitos não morrerão de sede. Muitos morrerão pela sede de poucos.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

DIANTE DE SI – PARTE 3 DE 3


Nos posts anteriores, Armando começou a aprender o que significa ser adulto. A matéria que escreveu foi publicada e por uma linha dela um policial que agrediu seus colegas militantes foi encaminhado à corregedoria. Enquanto isso, seus amigos militantes criticaram a matéria desconhecendo que a autoria é de um amigo outrora crítico a matérias do tipo. Uma carreira nas redações com possibilidade de não dar a ele dinheiro suficiente para compensar uma possível incoerência com o discurso tão defendido na universidade ou arriscar ser pai de uma forma inesperada e irresponsável e ainda por cima ter de depender dos pais para sustentar o filho?
Armando põe o celular sobre uma mesa. No display a mensagem criticando a matéria dele ainda aberta. Ele olha a mensagem. A mensagem no celular, o celular na mão. Armando olha sua própria mão e nela seus dedos. Nas pontas dos dedos da mão esquerda que segurava o celular há cicatrizes do que no dia anterior eram calos. Os calos foram feitos depois de tocar um violão de cordas de aço durante três horas seguidas. Antes disso, há três anos, bastavam alguns minutos para os dedos ficarem em merda. Os dedos estão diante dele, e depois dos dedos estão quadros. Retratos de antigamente. O foco sai da mão para o retrato dele festejando o vestibular. A tensão do vestibular é como um calo anterior na ponta dos dedos de sua alma. Ele aprendeu a tocar violão de calo em calo. Olhando novamente o celular, que por acaso foi colocado ao lado do jornal no qual está sua matéria, ele percebe que está na hora de superar mais um calo.

“A matéria que saiu no jornal hoje é minha”, escreve Armando no sms encaminhado a todos os colegas de militância, sejam os mais experientes, sejam os novatos. Não demoram a chegar telefonemas. Ele em geral não gosta de responder à mesma pergunta mais de uma vez, mas dessa vez faz um sacrifício. A primeira coisa que passou pela cabeça dele foi dizer ter aceitado a proposta de trabalhar no jornal porque teria um filho. “Coitada dessa criança. Nem nasceu ainda para assumir uma responsabilidade de outra pessoa”, pensou. Então resolveu contar aos colegas sobre a paternidade somente semanas depois de conversar com eles sobre o novo emprego e explicar a necessidade de arrumar trabalho, por isso aceitou. Foi bem mais difícil para ele próprio aceitar isso do que os amigos. Fizeram muitas piadinhas, é verdade, mas aceitaram numa boa.

***
Obviamente o policial levado à corregedoria não sofreu maiores punições do que alguns dias de reclusão. No entanto, encontrar com aquele policial na rua – que soube depois que foi ele quem escreveu a maldita matéria – e perceber o ódio do PM, dava a ele uma pontada de orgulho.

***
Armando trabalhou durante alguns anos naquele jornal, e conseguiu perceber que mesmo em um jornal de linha conservadora era possível fazer boas matérias, sobretudo quando quem estava no poder era um inimigo político do jornal. Depois, conseguiu o que sempre quis: foi contratado para escrever para uma revista de esquerda. Mas não qualquer revista de esquerda, e sim a mais conceituada do Brasil. Qual foi a decepção dele então ao perceber que ali o ambiente de trabalho era cercado por disputas internas e conflitos de vaidade e isso fazia ele se sentir bem pior do que trabalhando no jornal de direita. Meses depois ele aceitou o convite para ganhar mais num jornal de grande circução, agora como repórter especial.
PRÓLOGO
Aos 37 anos ele tem uma filha que não sabe se presta vestibular para jornalismo ou para matemática.
“Pai, eu não sei o que eu escolho. Eu estou desesperada já”, desabafou Adriana. Com um sorriso terno no canto da boca ele a encara e se vê. Ele fala para ela dizendo para si mesmo: “você vai descobrir como na verdade as coisas escolhem a gente, filha”. “Será que vai demorar muito pra isso acontecer, pai?”, pergunta ela, enquanto esfrega o rosto no seu ombro. “A gente só vive a vida vivendo , filha. Seja qual for a escolha que fizer, dê o máximo de si. Independente de qualquer coisa, os que te amam vão respeitar e amar o que você escolher. Porque a amam pelo que você é, e suas escolhas fazem parte de você”, disse ele, diante de si. A filha achou todo aquele discurso muito chato, na verdade, mas gostou muito do abraço.
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Por sugestão da Lorena Prazeres do blog Infinito Particular, partilho essa canção, que tem realmente tudo a ver com o post.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

DIANTE DE SI – PARTE 2 DE 3

Como vimos no último Post, Armando foi um universitário militante e combatente. Sempre era aplaudido pelas críticas densas e radicais que fazia contra os grandes veículos de comunicação nos painéis e seminários nos quais era orador. No entanto, cinco meses depois de formado e sem emprego, e, além disso, com a notícia da paternidade não planejada, foi à uma redação de um jornal conservador tentar arrumar o primeiro emprego. Entretanto, a primeira tarefa dele seria escrever justamente sobre um protesto feito pelos ex-colegas de militância reprimido violentamente pelos policiais. Agora, diante do PC, o ideal e o real travam uma dura batalha em sua mente. Ele sua frio. O colega que o acompanhou na apuração o vê há 10 minutos diante da tela com o word aberto e nenhum caractere digitado. “Depois que você começar, o resto fica mais fácil”, aconselhou.

Na verdade, o problema não estava em começar o texto. O problema estava em começar a fazer algo que sempre criticou. Ele sabe. A única forma de conseguir o emprego é escrever meias verdades, pois a linha editorial do jornal claramente repudia atos como o que foi realizado pelo movimento estudantil do qual participou. Após ter uma ideia desesperada mas de repente viável, Armando levanta-se da cadeira e vai até o editor que vai avaliar a matéria escrita por ele. Pergunta se a matéria sairá com sua assinatura. “Não. Em geral colocamos assinatura depois do repórter devidamente contratado”, respondeu. Bingo! Ele escreve a matéria. Fala do ato, fala do congestionamento provocado, fala superficialmente dos argumentos dos estudantes em realizar o protesto e relata o discurso policial hipócrita que afirma ter agido pacificamente. Para não dizer que não falou das flores, ele cita a agressão do policial em uma linha. “Eles devem cortar isso, mas vou colocar mesmo assim”, pensou.

Na verdade, foi fácil escrever o texto. Ele só teve de fazer tudo aquilo que antes dizia que não era para se fazer quando estava com a fala nos auditórios ou empunhando mega-fones. No outro dia a matéria sai publicada. Ele vê os previsíveis comentários dos colegas a respeito da matéria que ele fez - o qual nem teve coragem de ler para não ter mais raiva. Ele ganha o emprego. Mas antes de encarar os colegas de militância para explicar o que ele está fazendo e porquê está fazendo, ele tem de descobrir por si próprio se isso tudo vale realmente à pena. Vai até a casa de um ex-professor repórter num jornal concorrente. Este era um dos poucos que respeitava o movimento estudantil. Quer saber como o professor conseguiu ser um dos mais respeitados jornalistas dos grandes jornais ‘comerciais’ da cidade, dados os ideais que ele partilhava nas salas de aula.

Ao chegar a casa do professor, o impacto. Um dos jornalistas mais respeitados da cidade, com um dos melhores salários, tem uma casa bem mais simples que a sua. É um apartamento pequeno, sem nada luxuoso. Móveis surrados, alguns quadros bonitos mas com a televisão pequena, apesar de ser LCD. O professor fala com ele, mas daqui a alguns minutos nenhuma das palavras do mestre ficará registrada em sua mente. O que marcou mesmo Armando foi ver um jornalista no auge da carreira possuir menos coisas do que o pai, que nem curso superior tem. O professor falava dos primeiros meses difíceis dele na redação e filtros ideológicos quando viu o ex-aluno sair correndo pela porta.

Armando desceu desde o oitavo andar do prédio onde o ex-professor morava pelas escadas. Ele queria muito chorar, mas o choro estava engatado todo na garganta. Ele chegou em casa e não falou com ninguém. Foi direto para debaixo do chuveiro. Ele se sentia sujo. “Como eu fui me vender por tão pouco?”, se condenava. Eis que a mãe bate na porta do quarto. “Armandinho, telefone pra ti. É do jornal”, avisou a coroa. “Vou atender aqui do quarto”, respondeu Armando. Era a chance. “Vou mandar esse jornal pra puta que pariu”, desejou. Ao atender, não era o editor e sim o colega jornalista que o acompanhou.

“O policial denunciado por você foi afastado da polícia pela corregedoria”, disse o colega preocupado (pois PMs costumam 'marcar' jornalistas que 'escrevem demais'). Mas Armando sorriu de felicidade, deixando o colega sem entender. Afinal, Como?! A linha que escrita do policial que agrediu o aluno covardemente saiu?! Ele pega o jornal depois de desligar o telefone. Procura pela linha. Estava lá! A linha saiu! De repente, o outro lado da profissão irradia diante dele. Em tantos atos e palestras para militante ouvir, nunca conseguiu fazer com que uma autoridade canalha fosse ao menos punida. Com uma linha de jornal ele conseguiu fazer algo concreto que não conseguiu em três anos de movimento. Em meio a alegria, chega um sms. “O jornal burguês mais uma vez criminalizou nosso ato”, enviou um colega militante. E agora? Ser ou não ser jornalista de um periódico burguês que, porém, fala mais alto que um palanque? Eis a questão...

Continua...

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

DIANTE DE SI – PARTE 1 DE 3


Durante a graduação ele não foi um aluno brilhante, mas nem de longe foi um aluno qualquer. Armando liderou por três anos o Centro Acadêmico de Comunicação Social, apelidado carinhosamente de CACOS pelos integrantes. Desde jogar o bebedouro quebrado na sala do reitor até ser preso por cuspir na cara de um PM durante um protesto, várias são as lembranças que aquecem o coração dele. A graduação veio com um canudo entupido de um passado honroso, aos olhos dele, mas de um futuro incerto. No momento que recebia os aplausos pelo nome chamado, no caminho até o palco ele ia refletindo sobre o que aquilo significava. Depois, lá de cima, olhando aqueles rostos maquiados, aqueles colegas perfumados e familiares orgulhosos, a pergunta que ele se fez foi: e agora?

Três meses depois, ele tinha o apoio da família, mas era estranho o aperto no coração que sentia ao saber notícias de seus amigos arrumando bons empregos em assessorias de comunicação, ou nas detestáveis redações de grandes jornais, que ele tanto criticou em vários momentos. Quatro meses depois, a bomba: “o filho é teu”, disse Alice, com uma barriga mínima para uma gravidez de cinco meses. Ele não quis acreditar. “Era uma orgia, porra! Você nem deve lembrar quantos te comeram naquele dia”, se desesperou. Ela argumentou que ele estava porre, mas deve lembrar que ela pediu muito pra que ele não gozasse dentro. Levando as mãos à cabeça, lembrou de como aquela irresponsabilidade foi deliciosa no momento. “Eu só descobri mês passado, porque minha barriga quase não cresceu e minha menstruação é irregular”, explicou ela, dizendo que nem sentir enjôos, sentia.

Cinco meses depois de formado, a família já o pressionava para arrumar emprego. “Um eu sustento, mas sustentar mais uma criança eu não posso”, avisou o pai de Armando. A angústia já o dominava quando soube que um jornal impresso estava contratando. Ele revia as fotos de um protesto a favor da democratização da comunicação que fez dois anos antes em frente à redação em que ele poderia estar no dia seguinte. A noite foi longa, mas depois de ter rolado na cama por muitas horas ele finalmente cochilou e sonhou com uma linda criança sorrindo pra ele. Ele a pegava no colo, e em seguida o bebê fofo mordia os ombros dele com a gengiva. Ele acordou às seis, com aquela imagem do bebê na cabeça. Antes das oito da manhã ele estava na redação. Ele foi indicado por um professor que sempre o achou promissor. O teste consistia em acompanhar uma equipe de reportagem e fazer uma ou duas matérias ao voltar para a redação.

Para a surpresa dele, a primeira pauta era cobrir um protesto de estudantes. Quando chegaram ao trecho da avenida bloqueada pelos manifestantes, ele logo identificou alguns "companheiros". Para justificar-se aos colegas jornalistas, disse que ficaria olhando de longe “pra fazer uma apuração por outro ângulo”. A equipe desceu, fez fotos, entrevistou estudantes, polícia e transeuntes. E Armando lá, escondido e morrendo de vergonha. Eis que um policial começa a provocar os estudantes. Chama-os de veadinhos. Um estudante, como de praxe, reage atirando pedras. Basta. A confusão se generaliza. Balas de borracha. Pedradas. Cassetetes descendo. Sangue escorre. Eis que, bem diante de Armando, um policial passa a rasteira num estudante e covardemente o acerta uma coronhada na cabeça. O estudante grita. Armando mira o rosto. É semelhante. Lembra muito. Não. Não lembra, é: o sucessor dele no CACOS.

A confusão se dissipa. A polícia consegue desbloquear a via. Motoristas de carro e ônibus e muitos trabalhadores nos coletivos xingam os estudantes detidos quando passam por eles. Armando vê tudo isso também. A equipe volta à redação de um jornal de linha editorial extremamente conservadora. Agora ele tem que escrever, sabendo que se escrever como pensa ser a verdade o emprego não será seu. Ele lembra-se da militância. Do discurso, do filho, do passado. Pensa no futuro... pensa no agora... e agora?
Continua...

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Senso Pedante - O Preconceito Chique

Existe o senso comum - Aquele que costuma manifestar opiniões (re) produzidas por algum grupo hegemônico, principalmente através dos meios de comunicação de massa na era digital em que vivemos. Máximas como "todo índio é preguiçoso", "pobre fala errado", "mulher porre é ridículo", são exemplos clássicos de quem acaba falando porque os outros falam, sem fazer uma reflexão sobre o que diz.

Existe o senso crítico - São elaborações filosófico-científicas a partir do questionamento. Certa hora a pessoa começa a se incomodar com uma máxima pré-estabelecida e investiga se aquilo que estão falando ou pensando corresponde com à realidade. Dessa forma, seja através da investigação científica, seja por uma proposição empírica, o senso crítico nos leva a pensar antes de afirmar o que estão afirmando.

E existe o senso pedante - São elaborações de pessoas que reproduzem o que as pessoas de senso crítico propõem, de maneira oportuna. Quem reproduz esse tipo de senso, acaba cometendo o mesmo "equívoco" - se é que posso chamar assim - do senso comum. Só que, mais metidos a besta, acreditam que estão abafando. Geralmente isso ocorre com pessoas que ingressam no ensino superior ou passam a lidar com grupos estigmatizados como "cult", num exercício de preconceito chique.

"BBB é uma merda", "Funk é dança de gente burra", "Almodóvar é um gênio", são frases proferidas por gente que em geral sabe tudo o que rola em realitichous*, que não entende o que Renato Russo canta e só conhece filmes de arte porque teve de resenhá-los para alguma disciplina. Normalmente, pessoas com senso pedante gostam de usar as redes sociais pra dizerem que são inteligentes, e acabam, se muito, ofendendo outras pessoas - que no fundo são melhores.

Enfim... Gosto de gente que sabe.Gosto de gente que não sabe. Não gosto de gente que acha que sabe.
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*Não gosto de ter que escrever inglêis certo.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A Fórmula da Conquista


     Outro dia estava acompanhando um amigo meu em sua saga para tentar conquistar uma garota. Contrariando meus humildes conselhos ele chegou a enviar flores e até uma  carta de amor. Na época, ele pediu que eu escrevesse a tal carta. Eu escrevi. Ficou bonitinha até. Bom, as flores ela deve ter deixado murchar em algum canto da casa. Os bombons ela deve ter repartido com os irmãos e acabado em menos de meia hora. A carta de amor ela deve ter achado tão bonita que deve ter guardado pra alimentar o ego toda vez que tivesse com baixa autoestima – hoje eu não amanheci modesto. E ela jamais deu se quer um selinho no pobre.

     Soube, por fonte segura, que no dia que ele criou coragem para marcar um encontro ela não foi. Não porque tinha uma prova no dia seguinte, como justificou pra ele, e sim porque nessa hora ela havia marcado de ir ao motel com o ex-namorado dessa minha fonte segura. Mas ele não pode dizer que não avisei. Ora, ela não era do tipo que curtia um romance. Ela queria mesmo era dar – um abraço bem grande na vida como ela é.

      Esse negócio de que toda mulher é fiel e romântica, e blá blá blá é papo de quem não tem um ciclo de amizades muito variado, no mínimo. Há meninos e meninas com gostos e pretensões dos mais variados tipos. Mas não se oferece churrasco pra uma vegetariana, nem se presenteia com a camisa do vasco um torcedor do Flamengo. Não podemos achar que há uma fórmula pronta pra conquistar as pessoas, mas o bom senso é sempre um ótimo aliado. 

      Bom mesmo é não saber como se conquistar. Mesmo porque, em qualquer relação somos coautores da mesma obra de arte ou cúmplices do mesmo crime. Nenhuma relação tem nada de novo e ao mesmo tempo todas são únicas. Claro que vale termos algumas cartas na manga, mas elas não valem de nada numa situação em que estejamos sem blusa. Se tiver que dar um conselho para quem queira conquistar alguém, seja para uma noite de amor, seja para um namoro, eu oriento a cada pessoa conhecer e gostar de si própria/o, conhecer os próprios limites e vantagens. O resto vai rolando como tem que rolar. E se rolar aquele friozinho na barriga de insegurança que te faz tremer na base... vai lá, cara! Só porque pode dar certo vale a pena.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

2012 REALmente feliz!

Eu no museu Reina Sofia - Madri/ESP
Eu não sou muito ligado a horóscopo. Fico intrigado com a precisão com que os astrólogos descrevem a minha personalidade sem nunca ter me conhecido, mas não curto adivinhações, previsões do futuro. Não tenho nada contra quem acredita, mas comigo a coisa não funciona. Bom, não funcionava até o final de 2010. Vi no blog do excelente Antônio Rosa, Cova do Urso, além da mais perfeita descrição de mim mesmo enquanto pisciano, que em 2011 eu receberia muita grana, que eu teria que ter cuidado na hora de gastar e tals. Bom, pra minha "decepção monetária"o primeiro ano da nova década não me trouxe dinheiro. Já tive anos bem melhores em relação a isso, mas não posso dizer que não foi um ano rico. O ano que (já) passou foi o ano das viagens.

No ar-condicionado ao ar livre de Goiânia-GO
Eu sei que menti pra umas e uns. Sou do tipo que mente quando não quero passar vergonha (pronto falei). O fato é que até esse ano, eu nunca havia saído do meu querido e agora definitivamente inteiro Estado do Pará. No máximo havia ido ao oeste do Estado, na cidade de Marabá, e confesso que isso me frustrava. Então, em julho, fui ao Congresso da estatal UNE em Goiânia. E de quebra, além de sair pela primeira vez do estado de busão, ainda convivi com pessoas de todo país, com seus sotaques, costumes, trejeitos. Coisa deliciosa. Também experimentei pela primeira vez o que é receber vento frio que não vem de ar condicionado.

Menos de um mês depois, recebi o convite para ir à Jornada Mundial da Juventude (puxa-saco-do-Papa). Pela primeira vez viajei de avião (morrendo de medo) e saí do país. Também para um evento com muita gente, só que do mundo todo. Pude perceber como somos iguais e diferentes, lindos e exóticos, cada um com seu cada um. Não me sai da memória a gente dançando "cada um no seu quadrado" com as lindas argentinas. Bebendo de graça no bar espanhol porque simplesmente o dono gostou da gente - prometemos nos enfrentar na final de 2014 \o/. Lembro de estarmos entre cerca de cem brasileiros e mais de mil jovens de outros países, e só nós usarmos o banheiro pra tomar banho (blerg!). Enfim, não voltei de Madri vislumbrado com a Europa em crise, mas voltei satisfeito pelas histórias que trouxe de lá para contar, além da sensação incrível de ter visto de perto um Picaço (ui).


Em terras sulistas...
Em relação a viagens, não poderia deixar de mencionar a ida a terras sulistas. Lá me senti mais próximo das minhas adoráveis amigas Luna, Michele Pê, Mirella, além do genial Tonho. Infelizmente não pude encontrá-los pessoalmente, mas seja no chimarrão, seja no sotaque, eu os tive perto de mim. Além disso, o ano que passou foi ano que vivi a maior turbulência familiar da história da minha vida. De agosto a dezembro, só me via a mente os versos de Arnaldo Antunes: "A sua casa já desmoronou no meio da sala?". E em meio a isso, eu tendo que produzir minha monografia de conclusão de curso. Faltando 20 dias para o prazo final de entrega, menos da metade estava pronto. Consegui fechar isso com uma colaboração incrível de minha amiga Leila, mas tive que amargar um 9,5 no final, que me doeu pra caralho, pois sabia que o projeto que tinha era bom. Tanto que a banca reconheceu isso. Lembro do prof. Rodolfo comentando: "Se o Eraldo não tivesse viajado tanto...". Aff.


Jornalistas formadas/os - a melhor turma com quem estudei!
Na verdade, não espero nada de 2012, mas estou pronto para tudo. Descabaço o ano desempregado, mas ao mesmo tempo com perspectivas dos melhores empregos que jamais tive. Começo o ano frustrado ainda pelo 9,5 mas com a perspectiva de conseguir defender ótimos artigos. E entre desafios e oportunidades que fazem com que a vida pareça deliciosamente real, espero para mim e para todas as minhas amigas e meus amigos um 2012 que nos dê força para sorrir, coragem para chorar, e sapiência para discernir o que vale a pena gozar.

sábado, 26 de novembro de 2011

O Canalha - Caça Especial


Dessa vez, não sou eu quem contarei a história do personagem predileto da mulherada. Quem conta essa caça especial de "O Canalha" é a Mirella do blog Mi amore. Deliciem-se.

Carolina cresceu em uma família de médicos. Aos dezessete anos, iniciou o curso de Medicina em uma das mais tradicionais faculdades de seu estado. Ela era a previsibilidade em pessoa. No primeiro ano da faculdade, conheceu seu primeiro namorado, um “mauricinho” rico e convencional como ela, e com quem mantinha relações sexuais mornas e padronizadas, com orgasmos raros e tímidos. Manteve o relacionamento por oito longos e tediosos anos, até ela descobrir que ele a traía com a moça cuja família era a mais tradicional e influente da cidade.t

 Estava há um mês sem namorado quando se mudou para um estado vizinho, a fim de iniciar um mestrado. Ao sair com os novos amigos da faculdade, viu aquele sujeito e teve arrepios. Ele era lindo, não podia negar. Moreno, musculoso e tatuado, andava de mãos dadas com uma garota linda, de pele bronzeada, longos e esvoaçantes cabelos loiros e usando um short curto, que exibia as pernas mais perfeitas que Carolina já vira em toda a sua vida. Sentiu arrepios e nojo porque o sujeito devorava Carolina com os olhos, sem se importar com a garota ao seu lado. “Canalha, não tira os olhos de mim mesmo com a namorada ao lado!”, pensou Carolina. 

“Hum, carne nova no pedaço. E essa é diferente das outras.” Pensou Marcos, ao avistar Carolina. Ele não havia sequer terminado o Ensino Médio, mas sentia-se doutor no quesito “sexo feminino”. O recato e o luxo estavam estampados em Carolina. Ela estava elegantemente vestida com salto scarpin preto, saia social um pouco acima dos joelhos e uma blusa azul de seda, comprada em sua última viagem a Paris. Seu requinte se destacava aos olhos de Marcos, acostumado àquele mundo de microvestidos e macrodecotes. “Uau, um prato cheio para a minha luxúria”, zombou ele em pensamento, enquanto desfilava ao lado de Denise.

“Uma vadia totalmente louca por mim”. Era assim que ele definia Denise, a loira de pernas perfeitas. Marcos procurava Denise nas noites frias de inverno, quando não conseguia nenhuma gostosa carente e louca para ouvir umas mentiras sobre amor em troca de uma boa trepada. Ela procurava desesperadamente chamar sua atenção e agradá-lo, por isso vestia-se de modo vulgar e fazia sexo como uma puta profissional, gemendo falsamente a fim de que ele se sentisse “o cara” na cama. Denise vibrava de felicidade quando ele ligava nas sextas à noite, imaginando que, no fundo, ele a amava, por isso sempre voltava a ligar.


Denise sempre via Marcos na companhia de outras mulheres, mas contentava-se com as migalhas de carinho que recebia. Ela se enchia de felicidade quando ele falava, durante o sexo, e enquanto puxava seu cabelo, o quanto ela era uma putinha gostosa. "Ah, ele só tem medo de ter um relacionamento sério", pensava ela.

 Agora Marcos estava ali, diante daquela garota linda e requintada, de pele clara e cabelos negros cuidadosamente penteados. Estava louco para sentir o cheiro e o toque daquele pele. Estava louco para desabotoar aquela blusinha de seda e despentear aqueles cabelos. Imaginou-se deslizando a língua por aqueles mamilos e teve arrepios ao imaginar o que ela escondia por debaixo de tanta banca. Estava morrendo de tesão e decidiu: precisava se aproximar daquela delícia.

Dias depois, Carolina não entendeu nada. Lá estava ela, em uma festa de acadêmicos. O que aquele ser desprezível estava fazendo ali? Marcos estava na sua frente, sorrindo gentilmente e lhe oferecendo uma bebida. Ela hesitou, mas decidiu aceitar. Iria manter-se à distância do sujeito e, afinal, estava em uma festa cheia de colegas. Que mal poderia lhe acontecer? Conversaram casualmente e Carolina se surpreendeu ao perceber que já havia contado que era médica, assim como seus pais e irmãos, que vinha de outro estado e que havia recentemente terminado um namoro de oito anos. Aquele cara era realmente bom de papo. E ainda era cheiroso e envolvente. Será que ele teria terminado com a namorada? Pensou Carolina, tentando, ao mesmo tempo, afastar a atração iminente que surgia dentro de si.

Começaram a namorar. Marcos nunca mais procurou Denise. Era perigoso, precisava conquistar Carolina. Precisava ganhar sua confiança. O sexo entre eles era maravilhoso. Marcos pirava com a pele branquinha, macia e cheirosa daquela mulher. Dedicava-se por horas a chupá-la e a explorar com as mãos e a boca cada pedacinho daquele tesouro. Carolina nunca sentiu tanto tesão com um homem. Chupava com vontade e rebolava como uma verdadeira safada. Ficava irreconhecível quando despia a fantasia de “boa moça”.

Dois meses depois, Carolina estava completamente apaixonada por Marcos e ele decidiu: “É agora. Não tem como falhar.” Levou Carolina para jantar. Vinho à vontade. Muito, muito vinho. Era sexta feira e, a uma da manhã, Carolina estava tonta. Marcos pediu que ela realizasse uma fantasia sexual dele. Disse que seria o homem mais feliz do mundo e que jamais esqueceria esse presente. Ela perguntou do que se tratava, com a voz embargada e acariciando as coxas dele. “Menage. Eu, você e outra mulher.” Ela estava prestes a dizer a ele que jamais faria aquilo quando percebeu os sinais de desapontamento em seu rosto. “Ok. Eu topo.”

Carolina e Denise. Ambas apaixonadas pelo mesmo homem e dispostas a agradá-lo. Ali, juntas. Denise quis beijá-lo. Ele pediu que beijasse Carolina. Ela beijou. Lentamente, sentiu os lábios macios da moça branquinha. Carolina estava em êxtase. As mãos de Denise eram quentes e ávidas. Exploravam o corpo uma da outra com maestria. Carolina desceu a boca e sugou de leve os mamilos de Denise, que gemeu de prazer. Com vontade, Carolina deslizou suas mãos pelas pernas perfeitas daquela loira sensacional. Denise virou-se e fez com que Carolina deitasse. Chupou-a com imenso tesão e Carolina gozou como nunca em sua vida. Denise também gozou, nas mãos de Carolina.

Foi só depois que notaram que Marcos não havia participado. Assistia a tudo sentado, gozando sozinho, extasiado com a cena daquelas duas mulheres incríveis. A loira e a morena. A recatada e a putinha. Sentia-se o homem mais feliz do mundo. Estava louco por elas. Apaixonado pelas duas. De um modo que nunca imaginou que seria.

Elas nada disseram. Vestiram-se e saíram, deixando Marcos sozinho e perplexo. Denise e Carolina nunca mais o procuraram. Não aceitavam as suas ligações. Não atendiam quando ele batia à porta de suas casas. Marcos nunca mais foi o mesmo. Ficava com outras garotas, mas aquelas duas não saíam de seus pensamentos. Carolina iniciou um namoro com um rapaz do mestrado, tempos depois. Denise continuava solteira, mas ficava casualmente com um ou outro cara nas baladas.

E nunca, nunca mais deixaram de se encontrar, assistir a filmes regados à pipoca, rir da cara do Marcos e gozar como loucas. “Programa de amigas.”,  Carolina dizia ao namorado. 

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Espiritualidade


"O tambor faz muito barulho
mas é vazio por dentro"
(Barão de Itararé)

A espiritualidade não é um momento, uma vivência pontual. Tão pouco,  um balão  que sobe ao céu cheio apenas de vento. É uma condição existencial que habita a vida de todas as pessoas como uma mola propulsora a nos impulsionar, mesmo quando não temos mais forças, sempre em direção a algo que no íntimo de nosso ser sabemos que vale a pena. E é pena que nos tempos pós-modernos atuais, em que o sagrado retorna morbidamente maquiado de desejos de riquezas e medo de viver as dores da vida, as pessoas não consigam vivenciar a espiritualidade como a dimensão da nossa resistência no caminho das pedras que são as utopias.

Lembro que, certa vez, um amigo militante dizia que espiritualidade é como as raízes de uma planta. Quanto mais fincada e enraizada a planta está num dado terreno, mais ela tem condições de resistir às tempestades da existência. E diria que uma das maiores tempestades de nossas espiritualidades é justamente a idiotização da fé, fecundada por pseudo-espiritualidades que comercializam a esperança e vendem a imagem de um Deus que não resiste a meio quilo de inteligência ou muito menos a um quarto de quilo de bom senso.

Isolar-se numa redoma de mentiras dentro de uma igreja e fazer pessoas tomarem doses diárias de catarses espiritualistas é algo que agride a vida das pessoas. É uma das formas mais lamentáveis de violência. A espiritualidade de verdade não nos estagna, muito menos nos move para trás. Ao contrário, a espiritualidade é a parte de nós que não consegue ficar presa à opressão que a realidade impõe e nos impulsiona a imaginar um lugar melhor e construí-lo aqui onde estamos. Espiritualidade é essencialmente um espírito de transgressão, de inconformidade com o estabelecido. A espiritualidade não apenas existe para propagar o temor a lobos, mas também para questionar as cercas que aprisionam o rebanho e o cajado opressor dos pastores.



Espiritualidade é crer que as sementes germinam se plantadas no solo bom dos corações e mentes das pessoas. Espiritualidade é militância radical da fé no que é, e principalmente no que deve ser bom. Espiritualidade é rezar a cartilha da poesia, adorar a figura divina da tolerância e se ajoelhar diante do bem maior. Espiritualidade é crer na redundância, até mesmo no pleonasmo do amor solidário. A espiritualidade habita naquela que "não sabendo que era impossível, foi lá e fez"*, mas, principalmente, move aquela que mesmo sabendo que era impossível, foi lá e fez mesmo assim.
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*Mark Twain

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

¿Tiempo Perdido?


"À Procura da Felicidade" foi um filme que, confesso, demorei bastante para assistir. Isso porque quando li algumas sinopses, o longa me pareceu mais uma história de incentivo ao falacioso "Sonho Americano", onde todas as portas estão abertas para você ficar feliz através do dinheiro que você ganhará. Mas aí, um dia sem muito pra fazer, resolvi assistir quando a TV reprisou. O filme é bom. Mas o que mais me chamou atenção no filme não foi nenhuma cena que foi filmada, mas uma que foi contada pelo protagonista, e para mim foi mais imagética que todas as cenas fortes mostradas. Ele refletia sobre como sempre foi o melhor aluno da classe. Sempre elogiaram a sua inteligência. Ele achava que por isso, nunca passaria necessidade. Essa reflexão dele me tocou profundamente.


Nunca fui o melhor da classe. Nunca quis isso. Mas não são poucos os que chegam comigo e demonstram uma expectativa boa a respeito da minha carreira, dizendo que tem certeza de que eu vou conseguir o que quiser na vida e etc. E esse filme me fez despertar para a possibilidade de tudo o que consegui até agora não servir de muita coisa, pois não tenho nada ainda que construí efetivamente. E não falo só de coisas materiais, falo do meu nome, da minha significância para o mundo, para além do meu ciclo familiar. E se o filme da minha vida real, no qual sou protagonista querendo ou não, não terminar com final feliz?


Estou na reta final de minha graduação. Estou num momento de construção de projetos para minha carreira e para minha militância. E confesso que o tempo todo me vem a cabeça a pressão de vencer. De acertar. De conseguir ser o que acham (e o que eu mesmo acho) que sou. Mesmo porque, eu sou nietzschiano. Eu tenho vontade de potência. Não tem graça fazer parte de um mundo onde não fazemos a diferença. Nesse momento estou à procura da felicidade, da definição de que gosto o meu tempero dará ao mundo. Estou vivendo um momento de romance existencial cósmico entre o desespero e a esperança. Mas tudo bem. "Não tenho medo do escuro, mas (por favor) deixem as luzes acesas"¹.
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¹Tempo Perdido - Canção de Renato Russo.
Estarei ausente daqui pelo até o dia 15, aproximadamente. Tenho um congresso para ir no Rio Grande do Sul semana que vem, e tenho que ajeitar umas coisas antes, por isso não terei tempo de postar. Vou passar nos blogs antes de viajar pra dar um alô. Prometo.