Agora que passou o período de amplo debate sobre o erro na prova do ENEM 2010, gostaria de dar o meu pitaco. Não gosto muito do tom imediatista que a maioria dos articulistas e comentaristas dão aos temas polêmicos na imprensa brasileira, por isso prefiro deixar a coisa fluir nesses casos pra poder me manifestar, uma vez que esse debate vai além de um mero exame falho. No ano de 2010 o Exame Nacional do Ensino Médio veio com a pretensão de torná-lo uma espécie de exame único para o egresso de calouros nas universidades brasileiras, com algumas pessoas da imprensa brasileira até mesmo chamando isso de "revolução" do ensino médio. Muitas universidades acataram, outras não. Mas afinal, o ENEM tem como unificar e simplificar o acesso dos estudantes às UFs? O ENEM presta mais ou menos por ter falhado de forma tão grosseira nas últimas edições?
Não há como negar que o método avaliativo em si das provas do ENEM são melhores em relação aos vestibulares tradicionais. A interdiciplinaridade, a contextualização das questões, a eliminação de questões decorebas, a necessidade de leitura e real compreensão do problema para a resolução das questões, tudo isso incentiva que os cursinhos e principalmente o ensino médio brasileiro modifiquem a forma robotizada de ser, orienta que cada disciplina seja baseada em muita leitura, etc. Mas apenas substituir uma prova por outra melhor e nacional não resolve o problema do ensino médio brasileiro, nem do escasso acesso dos jovens brasileiros às universidades.
Temos cerca de 24 milhões de jovens no Brasil. Desses, apenas 13,9% estão cursando o ensino superior, o que é vergonhoso. Quase metade dos estudantes que fizeram o ENEM em 2009 tiraram notas abaixo da média. Isso demonstra que só o ENEM em si não resolverá o problema da educação no Brasil. É necessário investir em salários dignos ao profissionais, melhorar a infra-estrutura e o acesso a educação em todos os níveis, só pra começar. É notável o avanço, a construção de novas universidades, e outras coisinhas aqui e ali, mas tudo isso é muito, mas muito pouco. Enquanto não tivermos um método avaliativo que seja mais completo, que leve em consideração as peculiaridades de cada região, que leve em consideração a desigualdade da educação brasileira, que seja feito em mais e melhores etapas e enquanto não tivermos cadeiras públicas de ensino superior para pelo menos 90% da população juvenil brasileira, estaremos muito longe do ideal.
Portanto, o fato de ter dado problemas graves nas duas últimas realizações da prova é algo absolutamente superável. Se o problema do ensino brasileiro se resumisse à boa elaboração e execução do ENEM, estaríamos feitos. Mas o problema do MEC é muito maior. Precisamos de fato de uma revolução na educação brasileira, mas essa revolução está longe de ser apenas o ENEM.




































