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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

No Ramal - Parte 1 de 3

A vontade de chegar logo quase cegou os olhos do casal para a estonteante vista da baía do Guajará e o belo por do sol que havia como decoração. Cruzaram numa embarcação diferente, apelidada pelos moradores de Belém de "pô-pô-pô" devido o barulho típico do motor. No início da viagem, inclusive, entenderam logo o porquê do apelido, mas só notaram mesmo o quão barulhenta foi a viagem quando o motor foi desligado, tamanho o alívio para os tímpanos. Após desembarcarem, um ônibus os aguardava próximo ao porto com destino a uma pequena comunidade ribeirinha que despertava o interesse dos dois pelo fato de lá não haver energia elétrica, televisão, e/ou apetrechos "urbanizantes" do tipo. E para quem veio de Porto Alegre passar as férias na Amazônia pelo exotismo, aquele programa os excitava e muito.

Desceram num ramal*, só os dois. Já estava quase na hora das 18 quando sentiram um estranho frio no espinhaço. Um olhou para o outro, e sem falar nada continuaram. 18h em ponto o relógio dele apitou. A hora do remédio teria de esperar um pouco até chegarem ao alojamento. Pelo caminho, só mata os acompanhava de ambos os lados. Durante a andança reparavam que as árvores maiores ficavam  mais ao extremo nos flancos enquanto uma vegetação densa, fechada e aparentemente homogênea faziam uma espécie de muro verde para caminhos brancos encardidos e paralelos, entrepostos por uma espécie de pentelho verde demarcando nitidamente um caminho forjado por pneus. Ela, decoradora, se encantou por um tronco à beira do caminho, pois poderia servir de encantadora mobília para uma casa naquela região equatorial. Depois de andarem bastante, ele resolveu ver quanto tempo já haviam caminhado. Para a surpresa dele, ainda eram 18h. E, mesmo sabendo que o celular estava sem rede, resolveu confirmar a hora. Para o espanto dele, também eram 18h ainda. Ela também olha a hora no celular: 18:00. Frio na barriga. Nas duas.

Uma angústia começou a sambar no peito dos dois. Agudo. Um grito. Uma árvore. Uma possível mobília. A mesma árvore por onde haviam passado estava novamente diante deles. O que era virtualmente impossível até mesmo porque eles estavam caminhando a quase meia hora numa linha reta. Era improvável terem voltado. Eles, desesperados, sem combinar nada um com o outro resolveram correr. E correram. E correram. Correram por um caminho melancolicamente familiar, e novamente chegaram à mesma árvore. Ela começou a gritar. Ele, psicanalista mais ou menos experiente, teve vontade de bater na cara dela mas preferiu pedir calma. Ele precisava pensar. Ela precisava gritar.

Nesse momento, ele lembrou do que o amigo paraense havia falado a respeito dos ramais daquela região. "Como vocês são sulistas é melhor virem no barco das 16h, porque assim vocês caminharão no fim da tarde e não tostarão. Só tomem cuidado pra não entrarem depois das 18h, porque a mata se fecha", recomendou o amigo em tom de brincadeira, avisando ainda que depois das seis da tarde os guias da mata não gostam de visitas sem autorização. Naquele caminho fechado e transbordando de desespero, ele parou, e quando ela chorando gritava para ele falar alguma coisa o gaúcho notou um assobio agudo de uma ave e cada vez mais crescente. "Puta que pariu, agora todas as lendas da Amazônia resolveram sair dos livros didáticos?", pensou ele. Na mata (fechada), o choro, o desespero e a agora a Matinta Perera.

Continua na próxima sexta-feira.
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* Ramais são caminhos quilométricos que ligam pequenas comunidades, ribeirinhas ou não, a estradas viscinais.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Final Vagabundo

"Vamos começar colocando um ponto final
Pelo menos já é um sinal de que tudo na vida tem fim"
(Paulinho Moska)

Acabou. O quê? Não sei, só sei que acabou. Se o fim é o começo de outro ciclo ou se o recomeço é o primeiro passo para outro fim eu não sei, só sei que acabou. Se a fênix ou Jesus Cristo renascem do que acabou eu não sei, no entanto, acabou. O que acabou eu não sei dizer, entretanto, acabou. Se as plantas alimentam-se do que aparentemente estaria morto, se o fim de uma transa as vezes é o início de uma vida, se o nascer é o primeiro dia da contagem regressiva até a morte eu não sei, porém, acabou. Se o fim de um relacionamento as vezes dá início a outro, ou se o fim de um relacionamento se dá justamente pelo início torto de outro, eu não sei, todavia, acabou. O que é o fim? Eu não sei. O que é o começo? Eu não sei. Só sei que não existe mais, definiu-se, escafedeu-se, morreu, se fodeu, selou, findou, esgotou, fechou, encerrou,  levou o farelo, deu tchau, adeus, até mais, até, bye bye. Acabou o que começou ou acabou de começar? Eu não sei, não obstante, acabou. Se acabar pode ser simplesmente acabar eu não sei, mas acabou. E eu ainda queria começar...










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Imagens: Grupo de Comunicação. & Google.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O Canalha - Caça 4

Certa vez, por completa ausência de coisa melhor pra fazer, o caçador acabou transando com uma dessas mulheres sexualmente descoladas, do tipo que dá quando e pra quem quiser sem se importar com qualquer crítica ou avaliação machistas. No meio da transa, que já durava mais de duas horas, ele percebeu que a respiração dela, assim como o gemido indiscreto não oscilavam. "Essa porra ainda não gozou?". Até que ele não aguentou mais e perguntou se ela ia ficar lá a noite toda e não ia gozar. Para o espanto dele, ela revelou nunca ter gozado na vida. "Nem com teu namorado que te come há 3 anos?", perguntou ele. Ela balançou a cabeça negativamente. Nesse momento, se o pênis dele gemesse quando broxasse, provavelmente dessa vez ele gritaria. "Lembrei que tenho que ir lá no trampo urgentemente", disfarçou ele, e saiu correndo dali.

"Como pode uma mulher, que não é reprimida, que é jovem, que transa tão bem assim ainda não ter gozado?", divagava ele quase toda hora a partir daquele dia. Então decidiu: ela gozaria no pau dele.

Ele passou a encontrá-la quase diariamente. E ele tentava de tudo. Sexo anal, a mão, a boca, os tapas, os cintos, o gelo, o iogurte, a banana quente (ele sempre agradecia ao Cidade de Deus pela ideia), a ajuda de um outro amigo, a ajuda de uma outra amiga, quase todas as posições do camassutra, transar em locais públicos, transar com uma galera, etc. E além de nenhuma funcionar, quando ele mostrava a "ação do dia" ela sempre comentava algo do tipo "eu sempre amei fazer isso".E como nenhuma doidice certo, ele resolveu fazer alguma coisa mais normal.

Na manhã de domingo, chegaram flores a ela junto com um lindo café da manhã. Ele sabia que ela não era chegada a flores mas adorava comer. Por isso mandar flores com o café garantiriam que ela preferisse comer a quebrar galhos de flores. A tarde, ele telefona e a convida pra sair. Ela quer saber em qual motel é e ele só pede para ela vestir algo fino. Ele a apanha na porta da casa, e ela entra num local aberto, cheio de gente, e fica a imaginar qual tipo de presepada erótica ele estaria inventando. Pra surpresa dela, eles sentaram numa mesa perto de um palco intimista e ouviram boa música a noite toda. Antes da última música, o Canalha foi até o palco e declarou-se apaixonado por ela. Ela levou na brincadeira, e não acreditou até ele lagrimar.

Aquilo ficou martelando na cabeça dela. "Esse filho da puta pensa que eu sou otária! Vê se pode um negócio desses. Que absurdo!". Ela não consegue dormir por dois dias, até ir ao encontro dele. Durante a conversa, ele não dizia nada. Até ela explodir. "Fala alguma coisa, caralho!", esbravejou ela batendo nele. Ele parou, a encarou e pediu um abraço. Ela, completamente desnorteada, o abraçou. Ao ouvido dela, ele começou a sussurrar declarações. "Não é só porque você é moderna que não possa amar como antigamente". Ela o sentiu duro, mas as mãos deles foram suaves. Transaram, mas dessa vez foi diferente. Ele não a tratou de maneira estranha. Depois de terminarem ficaram conversando um papo adorável enquanto ela ganhava colo. Na segunda, ele percebeu que o olhar dela estava diferente. Ponto pra ele. Depois, antes de a penetrar, ele olhou bem nos olhos dela e disse que jamais se sentiu tão bem com alguém como ali.

Ela estava acostumada a ouvir isso dos romantiquinhos comumente apaixonados por ela. Mas de alguém como o canalha, havia uma veracidade irresistível. Aquele corpo, aquele rebolado em cima dela, aquele olhar profundo e ardente, tudo fez com que ela fosse subindo pra um lugar que ela nunca chegou. Ele ficou embaixo. Ela começou a se mexer. Mexia estranhamente sobre ele, procurando apenas pressionar o clitóris. "Me bate um pouco, vai", pediu. Ele começou a ficar nervoso, com medo de fazer alguma coisa errada. Mas resolveu simplesmente continuar. "Eu te amo! Eu te amo", falava enquanto ela fazia uma expressão facial diferente.

A respiração aumentou. O gemido era diferente. A diferença? Só o Canalha pode explicar. Ela gozou. Várias vezes naquela noite, inclusive. O Canalha, que pela primeira vez teve de cuidar de alguém de verdade, chegou a achar que poderia estar mesmo apaixonado por ela. Estava? Ele não sabe. Mas depois disso ela deixou o namorado e só transava com ele, e ele retribuiu a mesma fidelidade embora não tenham combinado nada.
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Ganhei este presente da minha amiga Sol Barreto, do blog Caminhos e Descaminhos. Um blog leve e empolgante.

O premio Dardos é o reconhecimento dos ideais que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre blogueiros, uma forma de demonstrar o carinho e o reconhecimento por um trabalho que agregue calor à web.

É um selo trocado entre blogs amigos. Eis as regras:
- Exibir a imagem do Selo no blog.
- Exibir o link do blog que o indicou.
- Presentear 10, 15 ou 30 blogs e avisá-los.

Portanto, estão aqui os blogs que indico:

De tudo fica um pouco
Batom e Poesias
Eduardo da Amazônia
Crônicas do Cotidiano
Com a Palavra
Arte para subsistência
Rasuras
Meu Reino
Meus Devaneios
Sussurros Íntimos

domingo, 7 de novembro de 2010

Sobre o Tropa de Elite 2

“Como pode a gente ter uma polícia cujo o símbolo é uma caveira? 
Ter uma polícia cujo o símbolo é a morte?”
Frase do "Cara dos direitos humanos"

Eu lembro que vi o primeiro filme numa daquelas cópias piratas que vazaram antes mesmo de ser lançado nos cinemas. Em resumo, o que comentei sobre a película na época foi que apesar de ser uma porcaria policial com violência gratuita, pelo menos era uma porcaria bem melhor que as porcarias holywoodianas. Tropa de Elite apresentava um formidável anti-herói, o Capitão Nascimento, fazendo exatamente tudo aquilo que a elite gostaria de (ver) fazer com a ralé da sociedade: cuspindo, torturando, matando, executando, humilhando, etc. Mas ganhava dos filmes policiais tradicionais (segundo os padrões estadunidenses) porque ao mesmo tempo que saciava a sede de sangue do povo, também fazia uma certa reflexão social a respeito da violência. Inclusive, apontando o dedo rude na cara dos próprios filhos branquinhos da sociedade. 

Mas em última análise, não gostei do primeiro, porque apesar da qualidade inegável do filme, ao fim, parecia que todos os problemas do mundo seriam resolvidos pelo BOPE. Aliás, nunca na história do cinema mundial vi um filme se pendurar tanto nos colhões de um batalhão especial como aquele. O filme parecia ter sido encomendado pela PM, sinceramente. Com essa impressão eu fui com meu amigo ver o segundo. Compramos exatamente os últimos ingressos da última seção para ver o filme.

No início, o principal algoz de Nascimento é exatamente um defensor dos direitos humanos. A platéia lotada, óbvio, ficou incondicionalmente ao lado de seu herói, o agora Coronel Nascimento, quase de forma passional, ainda que o roteiro muito bem escrito dispusesse o militante fazendo uma reflexão serena e madura a respeito da violência policial. Parecia que a própria platéia estava afim de pegar uma daqueles fuzis do BOPE e sair atirando em pretos favelados toda vez que Nascimento criticava o "cara dos direitos humanos". Mas, no decorrer do filme, experimentei uma das melhores sensações da minha vida, pois, na medida em que a trama ia se desenrolando, Nascimento ia desconstruindo a sua própria tese e vendo que o inimigo era outro: o sistema. E o público outrora xingando os direitos humanos, descobriu ao lado do herói todos os alicerces da carnificina em nome da lei perpetrada pela polícia e pelo próprio BOPE ruírem sob a sujeira do sistema.

Me lembrou a história que nunca confirmei ser verdadeira utilizada por um pai para convencer o filho a deixar de usar drogas. O coroa começou a se drogar junto com o filho. O filho então, percebendo que o pai estava mal por sua sua causa, resolveu de desintoxicar junto. Foi exatamente essa a sensação. E já que a história era uma ficção, eu saí da sala de cinema pensando se talvez o diretor José Padilha arquitetou isso desde o primeiro filme. Pensem comigo: o filme vaza, e estoura, trazendo todos os elementos que certamente o povo adoraria, como violência desmedida, um personagem bonitão e carismático etc. Depois, o próprio diretor lança um outro filme corajosamente "desdizendo" tudo dito no primeiro sem deixar a peteca (do carisma de Nascimento) cair. Uma forma perfeita de fazer o povo refletir dando exatamente aquilo que o povo quer e depois fazendo o próprio povo ver o que nem sabia se poderia.

O Coronel Nascimento não subiu só de patente do primeiro para o segundo. Mas, levando milhões de espectadores consigo, percebeu que somente a inteligência dos incomodados superará aquilo que causa a maioria dos males de nossa gente: a inteligência dos ímpios. Se ao fim do primeiro filme temos vontade de sair atirando, ao fim do segundo, saímos cometendo a heresia contemporânea de refletir sobre a vida. E quem disse que o maniqueísmo não pode ter fins pedagógicos? Eu por exemplo, antes já cogitava, agora decidi que vou fazer meu TCC sobre a influência da mídia sobre a violência nas periferias - outro elemento muito bem apresentado no filme.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Sabe...? Devaneio 5

Sabe quando você olha pra dentro de si e vê um monte de nada? Sabe quando você começa a achar que se a voz do povo é a voz de Deus, então o Todo-Poderoso só pode ser muito burro? Sabe quando você caminha em direção alguma achando que está no rumo certo? Sabe quando as lágrimas caem naturalmente? Sabe quando você ama e é amado mas não está vivendo esse amor por nenhum motivo que preste? Sabe quando você simplesmente só sente vontade de gritar? Sabe quando você sabe que tudo isso vai passar, mas isso não te impede de neurar? Não?! Mas afinal quem não vive um dia após o outro? Pois é...

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Imagem: Google.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Postagens Retrô 6

Ando completamente sem tempo para escrever coisas novas. Apresento aqui mais um texto que escrevi quando ainda não blogueava.

Maioridade penal não é brincadeira de criança.

Existem determinadas opiniões que caem no senso comum. Uma delas diz respeito à maioridade penal. A maioria das pessoas costuma dizer que deveriam mesmo reduzir a maioridade penal para que os delinquentes de 16 anos paguem o preço justo pelas barbáries cometidas. Entretanto, infelizmente a maioria da população não consegue ver o que de fato rege este debate, se é de fato a luta por justiça ou simplesmente empurrar a sujeira para debaixo do tapete.

Programas policiais proliferaram a roposta da diminuição da maioridade penal na televisão a serviço da sede de sangue do povo, e para que a população pense que a emissora está de fato agindo em favor do povo. Nessas lástimas televisivas sempre tem um apresentador com pose de justiceiro propondo que se ponham na cadeia os bandidos, que político tem que ir para a cadeia ou discursos superficiais do tipo. No entanto, o que quase não se vê é uma análise mais profunda que de fato apresente à população o que está realmente acontecendo, algo que forme e não somente informe.

A favor da diminuição da maioridade penal existem basicamente argumentos que dizem que se uma pessoa de dezesseis anos vota, se tem direito a participar da decisão política do país, por que não poder responder criminalmente pelos seus erros? Há também quem diga que qualquer jovem de dezesseis anos já sabe o que é errado ou certo, ainda por cima em plena era digital, por isso um adolescente que comete um crime hediondo pegar três aninhos no máximo de "castigo" não faz justiça. Entre outros argumentos que perpassam sempre pelo viés de que uma pessoa de dezesseis anos - idade para a qual se pretende reduzir a maioridade penal, que na lei em vigor é de 18 anos - já pode ser responsabilizado pelo crime que comete.
Então tá certo. Agora eu gostaria de ver se a filha de quem prega esse tipo de coisa engravidasse aos dezesseis anos, será que ela deveria cuidar da criança só? Será que pelo fato de uma adolescente de dezesseis anos já saber praticar sexo ela já tem maturidade para assumir um filho só, sem a ajuda dos pais? Claro que não, ainda que ela deva sim assumir a responsabilidade pelos seus atos, não podemos dizer que é a mesma coisa uma pessoa de dezesseis anos ou uma de trinta engravidar. É óbvio que, por mais que se tenha uma quantidade de formação absurda sendo acessíveis a adolescentes, uma pessoa passa por etapas, e quando essas etapas não são respeitadas surgem problemas. E negar educação a quem comete crimes, ou erre, é negar a oportunidade de termos adultos melhores. Por isso, para o bem dos adolescentes e de toda a sociedade, um jovem de dezesseis anos não deve ser responsabilizado da mesma forma que um adulto.

Mesmo porque isso não resolveria o problema social que gira em torno da criminalidade neste país. É evidente que a falta de políticas públicas, que a desestruturação familiar, que a falta de emprego, sobretudo nos grandes centros urbanos, que a escassês de terras no campo para o povo, e tantas outras mazelas terceiromundistas contribuem para o auto índice de criminalidade no país. Construir cadeis, ou mesmo entupí-las não tem se mostrado a melhor solução. Hoje, no Brasil, 65% da população carcerária são jovens de 18 a 29 anos, dentre os quais 85% não terminaram sequer o ensino fundamental. Ou seja, não seria uma solução muito mais benéfica para o país se a educação fosse de maior qualidade e mais acessível aos adolescentes do que jogar um/a indivíduo/a numa cadeia por ter roubado uma carteira e lá o/a preso/a adolescente conviver com todo/a tipo de criminoso/a, fatalmente fazendo com que essa pessoa imatura passe por uma faculdade do crime com direito a mestrado e doutorado?

Falo isso porque não existe lei perfeita. Se existisse lei perfeita, não existiria advogado ou juiz. Uma lei que poderia muito bem ser justa para alguns casos, seria de uma crueldade imensa para com a maioria epobrecida. Alguém imagina que fazer uma reformulação da maioridade penal sem reformular todo o judiciário não faria com que só adolescentes pobres pagassem pelo crime que cometerem? Ou alguém aqui acha que diminuindo maioridade penal a justiça vai reinar nesse país como num passe de mágica? Se o Estatudo da Criança e do Adolescente (ECA) existe, e nós vemos nossas crianças e adolescente a cada dia mais abandonados, imagina se a partir de agora, ao invés de criarmos leis que defendam os adolescentes nós comecemos a criar leis que os prejudique? Nem todo crime acontece por razões maniqueístas. Nem todo mundo que está cadeia é um sujeito mal natural e definitivamente.

Se adiminuição da maioridade penal acontecer, os traficantes vão usar pessoas ainda mais jovens para o crime. Se nem um debate mais maduro acontecer antes disso, e o congresso e o Ministério da Justiça se contentarem a fazer meras enquetes - que toda vez aparecem favoráveis a diminuição - ,daqui a pouco vamos fazer o mesmo debate sobre adolescentes de quatorze anos, alegando que há adolescentes de quatorze anos bem entendidos etc.

O mais sensato seria fazer uma reformulação no ECA, para que penas mais rígidas ou formas alternativas de penalizações a adolescentes já próximos a maioridade penal garantissem maior justiça a crimes brutais cometidos por adolescentes, pois sei que sempre há excessões. Mas antes disso, deveriam ser reformulados por completo os centros de tratamento de adolescentes infratores, que por mais que esteja menos pior hoje, ainda que tenham mudado o nome, não conseguiu deixar de ser a FEBEM dos nossos pesadelos na prática. Antes disso também, deveriam ser votadas leis que garantissem melhores condições de trabalho aos professores, reformular o ensino público, garantir políticas públicas para a infância e juventude, garantir que o estado seja reconhecido como um protetor para que o adolescente não veja no dono da boca esse papel. Garantir que os jovens do campo possam ter condições de viver sua vida no campo, para que diminua o inchaço populacional, e por consequência a violência nas cidades. Depois que o Estado garantir isso, ou pelo menos dar prioridade a essas discussões, aí eu penso que seria justo rever alguns pontos do ECA.
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Imagens: Google.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Postagens Retrô 5

Este texto eu escrevi ano passado. Se enquadra bem com esse momento introspectivo que as paulinisses minhas se encontram esses tempos. Texto editado.

Infância...


"Oh que saudades que eu tenho da aurora da minha vida
da minha infância querida
que os anos já não trazem mais"
Casimiro de Abreu

Não sei se é por eu ter vivido uma adolescência muito obscura, mas o fato é que eu venero a minha infância, mais precisamente a faixa etária entre 7 e 11 anos, quando eu brincava na rua quase todos os dias, quando eu vibrava a cada selinho que eu dava nas meninas, quando eu jogava bola de dia de tarde e de noite, quando os meus piores dias tinham só pouca diversão.

Quando leio o poema do Casimiro de Abreu* me vem um misto de prazer e tristeza. Lembrar da infância me deixa triste ao perceber que eu não sou mais tão livre como naquela época, como já não experimento o novo com a mesma voracidade, mas ao mesmo tempo, ao relembrar daqueles dias felizes eu me sinto feliz no presente também, é como se eu me transportasse de novo, e sentisse o perfume da manhã, ainda que artificialmente de certa forma.

É claro que é impossível voltar no tempo. A montanha da vida tende sempre a nos levar para cima (até a derradeira queda), mas é inevitável experimentar o sabor do tempo passado com certo pesar. A impressão que tenho é que quanto mais eu tenho saudades do passado eu fico mais velho. Hora isso me chateia, hora não.

O criador do Menino Maluquinho, o cartunista Ziraldo, conta que a idade da personagem é essa, entre 7 e 11 anos, porque é a fase mais feliz da pessoa. É quando não temos mais uma inocência demasiada, ou seja, quando já fazemos uma leitura de mundo interessante, mas ao mesmo tempo não temos os conflitos da adolescência e o peso do mundo adulto. A partir do que ele diz, eu sou o arquétipo do Menino Maluquinho, pois quando era criança aprontava horrores e era feliz de dormir quase toda noite sorrindo (como minha mãe conta).***

Mas a minha adolescência foi muito difícil, obscura e insalubre. Tenho a impressão que há uma lacuna em minha vida; parece que eu vivi até os 11 anos, quando começaram a aparecer as minhas primeiras espinhas, e voltei a viver com 21. Na adolescência, eu me escondia, era perfeccionista ao extremo, tinha medo de não beijar direito, medo de todo mundo me achar o cara mais feio do mundo, tinha medo de conversar com os outros, enfim, eu vivia numa escuridão da noite sem luar e sem estrelas. Não é que eu não entenda a importância dessa fase para eu ser o que sou hoje, pois foi nessa fase que eu descobri as grandes bandas, os grandes literatos, a militância, enfim, o norte para o qual meu nariz aponta, mas definitivamente não tenho saudades dessa fase.

Eu nem sei porque eu estou escrevendo isso, e acho que nem quero. As respostas dos adultos por vezes são muito mais irritantes que os Perguntas das crianças. Viver de forma sem dar bola demais para a seriedade sisuda no mundo adulto parece síndrome de Peter Pan, mas pensando bem, o mundo dos adultos é que parece a verdadeira Terra do Nunca. Não é que eu não goste de crescer, na verdade, o que eu não gosto é de envelhecer, no sentido fiosófico da palavra. A aurora da minha vida é realmente a infância, mas o sol continua nascendo todo dia, e me dizendo toda vez que ilumina a minha pele a mesma mensagem de amor que todos adoramos ouvir: sempre podemos fazer novo de novo**, e até morrermos, sempre teremos mais uma chance de dormir sorrindo. Obrigado sol, por me mostrar que a criança está aqui sempre que preciso.

Canção de Milton, interpretada pelo 14 Bis e Samuel Rosa que tem tudo haver!

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**Parafraseando verso de Paulinho Moska
*** Não entrei em detalhes de minha infância aqui, porque já o faço na série que publico nesse blog chamada Galos, Noites e Quintais.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Infinito Particular




"Só não se perca ao entrar
no meu infinito particular"

(Monte, Antunes, Brown)

Nossa primeira mensagem ao mundo é um choro. O choro que anuncia a vida, a fome, o medo da porta imensa que se abre. O choro que fala da dor de cólicas, da manha pelo bem não adquirido ou mesmo um protesto pela mãe que abraça um outro alguensinho. Infelizmente, o mundo parece ter perdido a capacidade intrínseca da poesia, ou talvez no momento em que substituímos o choro pelos verbos esqueçamos de trazer as interpretações do olhar, do corpo, do contexto, que faz a mãe não se desesperar ao extremo quando observa o pequeno amado a plenos pulmões. O mundo parece estar cada dia mais literal, seja no tiro que mata alguém na esquina, seja no gozo puro e simples dos casais do agora ou nunca, seja no sim e no não demasiadamente objetivos que muitas vezes amputam as utopias e tornam os sonhos mais insossos, pré-rotulados, tabelados e com preços afixados em etiquetas de plástico.

Mas tudo o que fazemos é chorar. Choramos pelo salário maior cortejando o que apetece o chefe. Choramos pelo corpo desejado, pelo amigo perdido, pela mãe envaidecida, pelo mendigo que provoca o desviar de olhares. Choramos, porque ainda hoje não sabemos o que dizer. As guerras são choros de meninos mimados e malvados que querem o brinquedo do outro. Choramos porque temos medo. Choramos porque temos medo de chorar. Choramos até mesmo em nosso silêncio.

As palavras não passam de choros artificiais, um revestimento muitas vezes fajuto de nossas almas. Quantas vezes a palavra é um choro metido a besta? A palavra, assim como o choro, sempre quer dizer alguma coisa, o problema é que, ao contrário da mãe que entende a essência do filho, nos preocupamos muito com o que dizem, e quase nada com o que as pessoas querem dizer. Nem tudo que queremos cabe numa gramática.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Dois.



Ela tinha um namorado. Ele não. Ela orava todas as vezes que namorava, no pátio de casa; uma oração inicial, uma oração final, alguns beijos insossos no meio disso, muita conversa, e o medo de pecarem demais temperava aquela relação de dar orgulho à toda família. Ele, digamos, não namorava assim. Ela sempre orava antes de dormir. Ele lia qualquer coisa de Galeano na maioria das noites, pois se lendo-o acordado já sonhava alto, nos sonhos teriam um potencial de grandeza e maravilhas ainda maiores dessa, acreditava. Ela era famosa por ser virgem, a única da turma (segundo ela mesma). Ele já tinha comido quase todas as outras.

Ela via nele a criatura mais agradável do mundo profano, pois apesar de todo aquele jeito extravagante era muito simpático. Ele a via como a mensagem mais legal do reino dos céus, pois apesar de ser da igreja, não mantinha certas frescuras típicas. Ela respeitava a doidice dele e ele adorava entender a (para ele) exótica caminhada dela.

Certa vez, sob os sinos do acaso, eles conversavam despretensiosamente, entre alguns amigos em comum. A conversa foi vestindo-se de uma estampa agradável. No meio do grupo, os dois passaram a protagonizar os temas polêmicos, discordando um do outro, mas apesar disso, cada vez mais interessados pelo que o outro dizia. Súbito, se viram a sós. Estavam na faculdade. Por acaso todos/as os/as outros/as tiveram de sair, e eles estavam no meio de um assunto muito interessante, por isso nenhum dos dois estava com vontade de deixar o papo pra depois. A conversa fluía com tamanha naturalidade, que diversas vezes entre um assunto e outro eles se perguntavam como em mais de 6 semestres aquela era a primeira vez que conversavam daquele jeito. Ela sem achá-lo mais um a querer tirar a virgindade dela e ele vendo nela a amiga inatingível, a beleza de uma mulher além do sexo.

- O que você está bebendo?
- Nem sei, só sei que tem álcool.
- Tá forte?
- Não, mas eu não vou te dar.
- Por quê?
- Ah, eu não quero que isso ganhe contornos de cena clichê em que o menino danado dá bebida à menina inocente e linda pra tentar abrir as pernas dela mais facilmente depois.

Os dois riram. A conversa continuou fluindo. Mas depois da última cena, o tema passou a ser relacionamentos. Ela finalmente pôde ouvir alguém coerente falando sobre relações efêmeras e ele teve a oportunidade de ouvir ótimos argumentos interessantes em favor de relações duradouras. Ele vai ao banheiro. Deixa o copo. O copo estava perto dela. Ela estava perto do copo. A mão no copo. O coração pulsante. O copo estava perto da boca. Ela com aquela excitação intelectual. A boca estava no copo. O peito arde. O gosto é bom. Ela bebe mais. O peito arde. Ele volta. O copo entre eles.
Estavam num daqueles típicos lugares em que estudantes vão fazer aquelas coisas "erradas" que (como todo mundo sabe) os estudantes fazem, como fumar maconha e transar no campus. No caso em questão, estavam perto de uma lagoa. O clima era ótimo, o vento era gostoso, e o papo aproximava o casal mais e mais. Os outros estudantes foram saindo. Estava para começar uma festa, até que naquele lugar levemente escuro e aconchegante restaram poucas pessoas. Por um acaso, as/os remanescentes não podiam vê-los e vice-versa, devido a um arbusto entre o casal e o resto.

Aquele sorriso dele, aqueles argumentos, aquele charme de homem safado, aqueles ombros, tudo passou a cativar a moça que já pouco falava. Ele começou a estranhar o silêncio dela. Ele, que nunca imaginou um dia poderia ficar com aquela, pois além de ser a mais bela da turma ainda era toda certinha, começou a temer por ela fosse dizer a qualquer momento "já vou embora". Ele então passou a quase tagarelar. Ela, por sua vez, não podia esperar mais e tomou mais um gole, agora na presença dele.

- Caraaaaaaalho...
- Eu tomei enquanto não estava.

Ela se deitou um pouco. Fitando-o. Ele não era o melhor aluno da turma, não era o mais inteligente, não era o mais bonito, não era quase porra nenhuma que prestasse para o mercado ou para a sociedade certinha, mas poucos na faculdade ou no mundo (segundo ele mesmo) conseguiam fazer a leitura do olhar feminino como ele. De repente, um filme começou a passar na mente dele numa fração de segundos: O gole. A saia. O lugar. O isolamento. A chance que ela provavelmente nunca se permitiu de imaginar fazer aquilo. O deitar. 

O olhar. O possível tapa. O possível beijo. Os lábios dela. Os lábios dela. Oslábiosdela...

Ele foi. Ela inicialmente se voltou pra trás. Mas como o tapa não veio, ele foi mais. Chegou perto dos lábios dela, e , percebendo que ela já esperava o beijo, foi ele quem parou, a centímetros dos lábios dela, os dele aguardavam a reação dela. Ela reagiu. Ele surpreendeu-se com a qualidade do beijo. O amolecer dos lábios dela, a língua  invadindo a boca quase gritando pra ser chupada. Ela não pensava em nada, só pirava. O corpo dela retorcendo-se e encaixando no dele. O beijo demorado demorando. ficando cada vez melhor, a cada nova inclinação de cabeça, a cada apertar de nuca. Algum tempo depois ele colocou as mãos sob a saia dela, pegou na coxa e ela levou mão de dele até a vagina. Estava molhada. Muito molhada. O coração dele disparou ainda mais, e o pênis dele ficou tão duro que parecia  não caber mais nas calças. O beijo fluiu com a mesma harmonia do papo. Ele já chupava com certa voracidade os seios, ao som dos gemidos mais maravilhosos do mundo  quando ela arredou a calcinha. Ele colocou o dedo. Depois mais um. Ele pôs o pau pra fora. Ela pegou. No início não soube o que fazer, mas depois de algumas instruções passou a manejar como uma veterana. Num momento de loucura, ele tentou perguntar se ela queria mesmo aquilo, e ela, a pessoa mais inteligente dali, interrompeu perguntando se ele não ia fazer logo aquilo direito.

Ele então tirou a calcinha. Ia com toda sede para chupar a buceta dela quando ela segurou a cabeça dele. O olhar dela era quase um implorar.

- É agora ou nunca. Sussurrou ela.
- Então vai ser agora.

Ele deveria ir devagar, afinal de contas tratava-se de uma virgem. Mas não foi. Ela gemeu o mais alto que poderia gemer num local público.Aquela dor passou a diluir-se na melhor sensação que já sentira na vida. E Ele quase não sentiu dor, mesmo depois que as unhas dela provavelmente já haviam arrancado todas as espinhas da costa dele. Ele já tinha transado duas vezes naquele dia. Estava longe de gozar, permitindo que apesar de aquele ser o momento mais sensual da vida dele, só gozasse depois de vê-la chegar ao orgasmo duas vezes. A última vez eles chegaram juntos.

...

O que ele mais temia ao fim daquilo, era ouvir no outro dela que estava arrependida. O que ela mais tinha medo era que ele não quisesse mais, enjoasse dela após comê-la já no "primeiro encontro". Ela não disse. Ele quis mais. Ele namorou sério pela primeira vez na vida. Ela NAMOROU pela primeira vez na vida. O amor, para eles, passou a ser  uma quimera. Sublime e safado, e eterno mesmo depois do fim. Os pais dela o gostaram muito dele, pois, para eles, ela dizia que estava conseguindo convertê-lo. Os  dois saíam muito para ir a vigílias. Os pais dele também gostaram muito dela, e sempre topavam omitir certas bobagens aos sogros do filho, ao não dizer, por exemplo, que a vigília a qual eles iam toda semana eram na verdade no quarto dele.


PS: o que aconteceu com o namorado dela fica por conta da imaginação de vocês!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A mão (d)e cada dedo

Meu grupo político e eu estávamos trabalhando com afinco esses últimos dias. Trabalhamos à moda antiga, mais por convicção política do que pelos dividendos que porventura isto pode ou não gerar. Quando a gente trabalha assim, dá ainda mais raiva quando as pessoas preferem votar em candidatos que compram votos ou que nitidamente concorrem apenas pelo dinheiro. Logo depois do processo eleitoral, ainda com sangue quente, me juntei a meus companheiros na reclamação geral contra os que tem vocação para acreditar mais em mentira do que na verdade. Mas depois, com mais calma, cheguei a conclusão de que não é correto ficar com raiva de quem acredita em outra coisa, ainda que essa outra coisa seja mentira, porque além de a idiotice fazer parte da democracia (queira ou não), lá na frente podemos precisar dessas pessoas, e não falo apenas do ponto de vista eleitoral.

Se tem uma verdade sobre a humanidade é que nós não sobrevivemos isoladamente. Nossa eficiência e nosso progresso só são alcançados quando aprendemos a utilizar o que o outro tem de melhor coordenado com o que também fazemos bem. Se eu como, é porque outro plantou, se eu compro é porque o outro vende, se eu trafico é porque o outro é viciado, se eu roubo é porque o outro tem, ou seja, vivemos numa grande teia de necessidades. Mas atualmente, mais que nunca, nossas pretensões são a antítese dessa necessidade básica. Na esteira do comportamento induzido pelo mercado, nós estamos cada vez mais valorizando o nosso eu, o nosso nós mais próximo, a nossa casa acima da rua, o nosso bairro acima do país, o nosso acima do deles. Nos comportamos como idiotas egoístas achando que isso é esperteza.

Se o mundo vive um colapso ecológico, se as cidades vivem um caos urbano, se a política é sinônimo de safadeza, tudo isso é fruto da pseudo-esperteza do ser humano. Esquecer a importância do outro em nossa vida e o peso negativo de nosso comportamento efêmero e imediatista é a verdadeira burrice dos espertos, pois tudo que fazemos contra o outro se volta contra nós de uma forma ou de outra, porque o tempo todo precisamos das outras pessoas, e chega uma hora que aquilo que fizemos de ruim pode voltar-se contra nós com a precisão newtoniana, por isso esperto é aquele que faz o bem, não importa a quem e nem quanto custa. Ter tolerância, ao contrário do que afirma nossa impaciência intrínseca e cosmopolita, é o verdadeiro investimento de vida.

Uma amiga minha costuma dizer que tudo é pedagógico. Concordo com ela. Tudo é pedagógico, e todo caminho que trilhamos é um eterno semear, mesmo na hora em que estamos colhendo. Valorizar nossa individualidade deve começar pela valorização da individualidade do outro, celebrar nossa inteligência é respeitar que o outro pense diferente. Viver, sobretudo viver bem, é saber conviver.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Algumas coisas que vocês (e os outros) não sabem sobre mim...

Continuando a brincadeira proposta pela colega Michele, do blog Meus Devaneios:

1 - Eu desmaio quando vejo um ferimento muito casca-grossa. O desmaio mais vergonhoso que tive deu-se diante de uma namorada quando ela estava fazendo curativo em mim. Acordei com o irmão dela me abanando. Se ele não tivesse perto e me segurado, eu teria me estatelado no chão porque ela não se garantiu me segurar.

2 - Minha primeira vez demorou um pouco mais de tempo do que você está levando para ler isto.

3 - Eu fico muito tímido quando realmente estou afim de alguém.

4 - Uma vez eu saí com uma roupa mais apertada que o normal, por não reparar em quase nada que eu visto, e fui confundido com um homossexual. Sem querer, eu pude testemunhar a imbecilidade de pessoas que tem medo de tudo que é diferente.

5 - Eu já ouvi um fantasma. Eu trabalhava num prédio velho e enorme. Estava só lá por conta do trabalho que tinha na época. Passando embaixo de um pavilhão antigo, ouvi o som de alguém lavando o chão. Como eu estava só, sabia que ninguém (vivo) poderia estar lá. Eu levei uns quinze minutos pra criar coragem e fui lá. Me cagando de medo mas fui. Não podia perder a chance de ver um fantasma de perto. Subi os degraus tão trêmulo que estava vendo a hora de minhas pernas voltarem por conta própria. Até o último degrau, eu ouvia o ruído de alguém lavando o chão que a medida que eu subia aumentava a força. Dobrei o corredor na direção que meu ouvido me levou e... não vi nada. Até o barulho cessou. Desci, e quando chegava lá embaixo ouvia o ruído novamente. Cheguei a conclusão de que, se e fato havia um fantasma, ele deveria ser mais medroso que eu.

6 - Eu acabo de descobrir que a mulher pra quem eu mais bati punheta na vida chama-se Krista Allen. Ela estrelou a parte da série de filmes eróticos "Emanuelle" que eu mais gostei. Pra quem não sabe, Emanuelle sempre passava (ou passa, nem sei) no Cine Privé da Band sábado depois da meia-noite. Acho que o meu record numa só noite foram oito! Ah, Krista Allen...

7 - Quando eu descobri que tem mulher que gosta de homem inteligente (que nem precisa ser bonito), passei a ler mais. Investimento mais acessível para que eu não ficasse só pegando a Krista no banheiro de casa.

8 - A primeira menina pra quem tive coragem de pedir em namoro era a garota mais safada da rua na época. Ela foi tão boazinha comigo ao recusar... ainda disse assim: "se quiser só me pegar eu deixo". Ah, como as coisas fáceis só aparecem pra quem dificulta. E pensar que eu chorei e chorei e chorei... burrão eu era, né? -  mas beeeeeem depois, quando deixei de ser besta, eu peguei.

9 - Meu pai, o Sr. Paulino, criava patos e galinhas quando meus irmãos e eu éramos crianças. Certa vez, eu me agachei e fiquei admirando os patinhos. Meu short, na ocasião, tinha um furo bem no fundo. Como eu estava sem cueca, parte do meu saquinho ficou saliente. O patinho (tão bonitinho quando é filhote) chegou perto de mim. Eu fui virar e dizer pra meu pai e primos que estavam perto como aquela criatura era linda quando senti um beliscão. O pato pensava que meu saquinho era comida e eu ouço piadas a respeito disso até hoje.

10 - Eu não concordo com traição. Não julgo quem trai, nem faço o discurso hipócrita de que nunca traí ou trairei, mas, não vejo sentido na prática desenfreada da traição. Se não quer mais, ou não quer mais viver uma relação monogâmica, por que não deixar isso claro? Eu acho que o amor/prisão está fora de moda, mas falta coragem para as pessoas reconhecerem isso. Sou a favor do relacionamento aberto, acordado, às claras, não de práticas cínicas que hoje assolam quase todos os relacionamentos que conheço. Sou contra a banalização da traição e não aceito o discurso de que homem é safado e mulher se vinga, assim como não aceito que só a mulher seja humilhada por trair.

11 - Eu não voto em partido de direita. Cresci num bairro de periferia e sou filho de uma família humilde que pagou as duras penas de um país rico em desigualdade. Cresci num local em que a ausência histórica do estado matou e fez matar dezenas de amigos próximos meus. Sei que tudo isso é fruto da política elitista que esse país viveu desde a colonização, depois teve continuidade com os coronéis da república, com os militares da ditadura e com os neoliberais, filhos de FHC. Por isso, não aceito o discurso meramente administrativo e plebiscitário que assola, por falta de reforma política, mais essa eleição. Votar na direita, seria o mesmo que ser conivente com toda a injustiça social da qual sou/fui vítima. Não voto sempre no mesmo partido, e posso até não votar, mas não voto na direita de Serra.

12 - Quando eu morrer, eu gostaria que cantassem ou tocassem a versão original de "Eu quero apenas" de Roberto Carlos. Ela diz muito do tudo de mim.

13 - Talvez minha maior virtude seja expor minha coerência e esconder minhas contradições.

Este não sou eu!

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Hora de reciclar...




Eu (também) sou educador popular. De vez em quando eu me aventuro por esse mundão pra dialogar com pessoas e tentar transmitir algum tipo de informação (como já contei aqui). No caso em questão, no último fim de semana fui dialogar com catadores/as de materiais recicláveis, através de um projeto chamado CATAFORTE, bancado pelo governo e executado pela Cáritas Brasileira do/no Pará. Fui falar com pessoas que estão, talvez, no trabalho que as pessoas menos desejam nesse país, mas que é fundamental para a nossa sociedade. Pessoas que ganham a vida catando e triando o lixo que sai de nossas casas, empresas, escolas, etc. e ajudam a devolvê-lo reciclado. Dessa forma, contribuem para que não fiquemos mergulhados no lixo. Pessoas que, aos olhos de muitos, não tem diferença nenhuma em relação aos mendigos da praça ou aos urubus do ver-o-peso. Pessoas que ganham muito mal (injustamente) e que ainda precisam conviver com o preconceito e a idiotisse das pessoas.

Você provavelmente deve estar se perguntando que tipo de pessoa poderia querer um trabalho desses. A resposta é simples: uma pessoa como qualquer um de nós que não tem, literalmente, ocupação melhor para não morrer de fome. Eu admito que mexe muito comigo a realidade vivida por essas pessoas. No caso desses que visitei em Igarapé-Miri, nem tanto, pois até galpão pra trabalhar eles tem, mas eu já senti dó de ver pessoas trabalhando a céu aberto em lixões, sem proteções mínimas como luvas, máscaras e botas. Me dói mais ainda saber que, por mais incrível que pareça, o negócio da reciclagem é milhonário, mas, por estarem na base da cadeia produtiva, e pelo estigma de serem pessoas que literalmente sobrevivem disso, o preço que recebem por tamanho esforço é ridículo.

Nesse projeto, meu trabalho, basicamente, é transmitir uma palavra de estímulo que melhore a auto-estima deles/as. Já que eles tem esse trabalho, então que eles possam trabalhar com dignidade, em algo que, como já disse, é essencial para a nossa sobrevivência. A missão do CATAFORTE é estimular a articulação da categoria no estado para que saibam cobrar a plena implementação da lei de resíduos sólidos que obriga as prefeituras a despejarem o lixo em aterros sanitários e não mais em lixões e que orienta que cooperativas de catadores façam a coleta do lixo e não mais as empresas que ganham milhões e não fazem o devido tratamento do material, além de retirar os/as catadores/as dos lixões e colocá-los em galpões, devidamente equipados. O sonho nosso e o sonho do Movimento Nacional de Catadores é ver a categoria articulada, para que as prefeituras não utilizem falsos catadores como laranjas para lucrar com o negócio e que, finalmente, num futuro próximo, a categoria domine toda a cadeia produtiva da reciclagem.

Nas conversas que tive com os/as catadores/as esse fim de semana, me contaram seus sonhos. Ninguém sonhava com riquezas, palácios, carros. Tudo o que querem é um lugar digno para trabalhar, segurança pra sua pequena comunidade, que a igrejinha fique pronta e que a cooperativa deles tenha mais apoio do poder público para sobreviver e expandir. Almocei com eles no quintal sob várias árvores e a companhia refrescante do vento. Cada vizinho trouxe uma coisinha pra ajudar. Tomei açaí até me esbaldar (a cidade é uma das maiores exportadoras de açaí do Brasil). Ouvi histórias de caças, de colheitas frustradas, de partos inusitados. Quando eu cheguei lá, assim como qualquer um talvez, eu vi apenas camponeses, catadores, desdentados, mal vestidos, analfabetos, e saí de lá sentindo saudades de pessoas lindas, que apesar da casca maltratada pela ausência plena do estado, possuem cada um/a alguém maravilhoso/a como recheio.

Todas as vezes que forem jogar o lixo de vocês, lembrem de separar lixo seco do não seco. Essa simples atitude pode ajudar e muito os trabalhadores da coleta, sobretudo os que (ainda) atuam nos lixões. Todas as vezes que virem alguém catando material reciclável, pense em como ajudar, pois idiotas para discriminarem, certamente, já há demais. E digo mais: de todas as muitas coisas que tenho feito ultimanente, trabalhar com os catadores é que tem me feito sentir mais útil.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Prêmio Blog de Ouro - eu admiro este blog


Eu recebi do meu amigo Antônio Rosa, done de um dos melhoress blogs da língua portuguesa chamado Cova do Urso este selo. Diz a regra que cada recebedor deve entregar pra mais dez pessoas, mas como para mim as regras foram feitas para serem desobedecidas, eu dou, e quem quiser dar que dê. Fiquei muito hornado com a lembrança e dei para alguns dos blogs que mais admiro. Como não deu pra presentear a todos, trago aqui uma amostra dos blogs que tanto admiro, e de uma lista que poderia ser de mais de cem, trago aqui dez, que exponho de forma aleatória:










quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Jesus não tem votos no país dos falsos profetas

Ontem estávamos meus amigos e eu numa esquina qualquer dessas da vida quando passou um conhecido nosso. Alguém perguntou pra esse um em quem ele votaria, e o cara respondeu que votaria nos pastores da igreja dele. Em seguida questionaram se ele sabia das intenções políticas dos caras, se alguma coisa entre as propostas deles beneficiaria de fato o povo, mas ele desconversou e foi embora. Recentemente, também, um bispo desses aí que nem vou dar o nome pra não dar moral pro cara, disse que nenhum católico deveria votar em Dilma porque ela é a favor do aborto, dando claramente a entender que os fiéis católicos só deveriam votar em quem estivesse de acordo com o código moral(ista) da igreja (ou seja, quem é contra o aborto, o casamento de homossexuais, a separação de casados, etc). Aí, fiquei me perguntando, será que Jesus votaria nos pastores candidatos desse cara? Será que Jesus deixaria de votar em Dilma ou em qualquer um só, e somente só, porque este não se adequasse ao códico canônico católico?

Jesus de Nazaré, como costuma comentar Frei Betto, foi vítima de pelo menos dois processos políticos, e só foi parar na cruz graças a articulação das autoridades judaicas e a conivência oportunista do império romano. Não foi só por ingratidão que a multidão escolheu Jesus para ser crucificado no lugar de Barrabás. Óbvio, que antes daquele momento, as autoridades religiosas judaicas e romanas fizeram uma campanha política contra Jesus. O nazareno ia de encontro a toda forma de autoridade que se valia dos títulos para oprimir a população/ os fiéis em cima de embasamentos deturpados da lei romana e das escrituras sagradas judaicas. Então, obviamente, Ele ameaçava os privilegiados pelas instituições, ameaçava o plano político dos poderosos que quando não tem poder querem dominá-lo, e quando o detém, vendem a mãe para não perdê-lo.

No entanto, apesar de vítima fatal de perseguições políticas, não podemos nos enganar, Jesus foi o maior e o melhor político que já existiu na face da terra, só comparado, nos últimos séculos, pela proeza de Ghandi na Índia. Todos lembram como a morte de Vargas foi providencial para o último trunfo do maior político da história do Brasil contra os adversários; nesse sentido, nunca na história desse planeta houve uma vitória política maior do que a de Jesus ao ser crussificado. Após o evento, os discípulos de Jesus passaram a ganhar mais e mais adeptos no oriente médio e da Europa oriental, ao ponto de, um outro político muito esperto, o imperador romano Constantino, usar o crescimento dos cristãos como estratégia política para não perder as rédeas do poder e do império. Para os cristãos, foi uma mão na roda, pois, de marginal a religião cristã passou a ser oficial, mas para o cristianismo, começou aí toda a excrescência política que os cristãos ainda hoje perpetram em "nome de Deus". A partir desse momento, a religião e o poder jamais largaram as mãos, e foram parceiros em holocaustos e masacres de povos inteiros, como os originários do Brasil e da África, por exemplo.

Nos últimos séculos, as guerras santas, a opressão a pessoas homoafetivas, os conflitos entre protestantes e católicos, tudo isso tem haver com poder - conquista de mais e/ou a manutenção dele. Quando os/as primeiros cristãos/ãs saíam em busca de novos/as fiéis, acredito que era por puro amor a uma causa (também política), mas atualmente, é por arrogância, vaidade e apego ao poder que dá ser "o dono da verdade cristã" que leva as pessoas, até mesmo da própria família, a digladiarem-se por contra de diferenças (frescuras) teologais. Mas o que há de mais podre mesmo nessa história é apego ao poder, ao dinheiro e uso oportunista da fé dos/as religiosos/as nas escrituras, além de acordos entre impérios que oprimem o povo feitos pelas grandes instituições religiosas "cristãs". As igrejas cristãs, como se costuma dizer, são como uma prostituta, abrem as pernas pra quem dá mais dinheiro (e que as putas me perdoem pela comparação).

É claro que eu estou generalizando. Sei que a maioria dos fiéis, se não são de acordo, ao menos são inocentes nessa sujeirada. Já vi muitos fiéis envergonhados de suas congregações, por atitudes nefastas de políticos oportunistas travestidos de pastores. Já vi muito católico envergonhado por ver a autoridade eclesiástica punir severamente os não moralistas e chamar de meninos malvadinhos os verdadeiros safados.  Contudo, "não podemos nos calar diante do que vimos e ouvimos" (At 4, 20), e, não tenho dúvidas em afirmar que todo aquele que luta por poder para beneficiar a si próprio e a suas respectivas instituições, como fizeram os sacerdotes e as autoridades do império a Jesus, ao invés de buscar ser grande servindo mais (Mt 20, 26), como fez o Cristo comete pecado.

Finalmente, não estou dizendo aqui que o cristão ou a cristã não deve se envolver com política (partidária ou não). Como já afirmei, Jesus foi um excelente agente político e politizador. É impossível viver a fé de verdade sem a devida consciência política, pois, política é vida, e ainda que existam no poder políticos que retratam o que há de pior em nossa sociedade, satanizar a política em si é amarrar nossas próprias mãos e entregar o país a quem não é tão burro assim. O que eu estou dizendo é que a diferença entre políticos safados (partidários ou não, candidatos ou não) que são autoridades religiosas para os que não são é que os primeiros me enojam mais.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Sinuca de bico

Matheus era um rapaz mais fodido que qualquer um de nós, mas gostava de parecer o tal. Na geladeira dele, o pai marceneiro e a mãe balconista mal podiam colocar ovo, água e cebola, mas ao guarda-roupas do rapaz, não podia faltar roupas de marca; no bolso, sempre o melhor celular da rua. Matheus estava naquela fase mais aborrecente da adolescência. Tudo pra ele era mico. Nem chamar mais de Matheusinho a mãe  podia mais, quando ele estava perto dos amigos.

Como os pais eram assalariados, quase sempre faltava algo para acompanhar o feijão com arroz à mesa deles. Quando acontecia isso, a solução, obviamente, era comprar ovos, a verdadeira comida dos pobres brasileiros. Mas claro que Matheus jamais ia comprar, a não ser que os ovos viessem acompanhado de uma farta compra, o que, nesses almoços improvisados, nunca acontecia.

Certo dia, a mãe de Mathues chegou doente do serviço. Muita febre e muita dor no corpo.

- O que a gente vai comer, mãe?

- Pega cinquenta centavos na minha bolsa e compra dois ovos lá, meu filho.

***

O cara gelou. Normalmente o que faria numa situação dessas era bater o pé e dizer que não ia e pronto. A mãe, sempre complacente, sabia que nem poderia contar com ele pra essas coisas, e sempre ia comprar. Mas nesse dia, Matheus sabia que era diferente, porque além da mãe estar doente, ele estava morrendo de fome, e comer um ovo pra quem está faminto e não tem mais nada pra comer com feijão, arroz e farinha é um verdadeiro banquete.

***

A mercearia ficava bem na esquina. O sol escaldante da Amazônia era completamente inofensivo contra o suor frio do menino. Tudo o que ele queria, era que ninguém mais estivesse na rua. Seu sonho naquele momento era fazer o trajeto de ida e volta da casa até  a mercearia (cerca de 100m ao todo) despercebido. Não pode haver vergonha maior para um adolescente com mania de grandeza do que ser visto comprando ovos pra almoçar.


***

No dia anterior, a prima de uns amigos chegou à rua, vindo de uma colônia no interior do estado para estudar na casa dos tios. Darlene o nome dela. Quando ela chegou, por acaso, ele estava lá com seu celular de último tipo e suas roupas absolutamente descoladas e cabelo cheio dessas frescuras que se usam hoje em dia. Ele a percebeu impressionada com ele. Estava em seus planos ir de novo à casa dos amigos pra ver se conseguia alguma coisa com ela.

***

Para o bem de Matheus, não havia ninguém na mercearia. Ele pediu os ovos com a rispidez de um chefe comandando um empregado ineficiente. A dona da mercearia olha feio pra ele, mas evita entrar em discussão. A mulher põe os dois ovos no saquinho de plástico transparente. "Não tem uma sacola plástica daquelas brancas?", pergunta ele, recebendo resposta negativa. "Puta que pariu!", pensa ele.

Pra piorar, próximo à taberna, Darlene sai da casa dos tios ainda recebendo comandos do que comprar. Apesar de ela já estar na rua, Matheus percebe que Darlene não o avistou, devido as últimas instruções da tia. E, a partir daí, enquanto o cu dele aperta mais forte que as mandíbulas de um jacaré, começa a fervilhar em sua mente um verdadeira enxurrada de idéias do que fazer a respeito. (digoaelaqueéprafazerbolo?devolvopramulheredigoquedepoispego?saiocorrendodaqui?digoqueépromeuvizinho?caralhooooooooooooooooooo!!!!).

A solução que ele encontra é tirar rapidamente do saco e colocar cada ovo em um dos bolsos da frente de sua bermuda. Como os bolsos eram grandes, ele conseguiu disfarçar pra ela o que era. Ele vai andando com o olhar leve, aliviado, e a encara muito mais regozijando o recém-triunfo do que qualquer outra coisa. Mas para ela, o sorriso estampado no rosto dele era um cumprimento qualquer. Ela fica esperando ele dizer oi. Ele não diz porque tudo que ele quer é chegar logo em casa. Ela passa por ele, e só aí parece que ele volta a respirar novamente. Alíviu...

De repente, uma tapa forte. Era a mão dela batendo no bolso dianteiro dele, objetivando bater na mão daquele menino tão legal que conhecera no dia anterior e que parecia estar tirando com a cara dela. A mão dela bate na mão dele. A mão dele bate no ovo. CRACK!

- Ei! Não vai falar comigo, não?!

- FILHA DA PUTA!

***

Com um ovo, um ego e uma futura namorada a menos, ele finalmente chega em casa e frita o único ovo que sobrara para a mãe. A ele, restou comer arroz e feijão com farinha para aquele almoço, e a lembrança traumática para o resto da vida.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

As mulheres que me odeiam

Se você me achou/ acha um cafajeste, estúpido, chato, tarado e/ou muito antipático, cuidado: você pode estar querendo dar pra mim. Já me acusaram de cafajeste, de estúpido, chato, tarado e de antipático, mas nunca pesou-me qualquer acusação de estuprador. Portanto, minha querida, não quer dar pra mim? É só não dar e pronto.

Sim, eu sou mesmo como os mendigos do Ver-o-peso; é verdade que eu só como o que me dão, mas isso não quer dizer que eu coma tudo que me dão. Se alguém achar que eu tiro brincadeiras pesadas com as meninas que mal conheço, é porque ainda não viu que tipo de brincadeiras eu tiro com minha irmã, com minhas amigas de infância ou com meus amigos. Mas eu não faço isso necessariamente pra ver se cola, muito pelo contrário. Se fosse assim eu seria incestuoso porque quando eu vejo minha irmã, eu vou logo pegando na bunda dela. Além disso, eu não acho que uma mulher é vagabunda porque se permite brincar de ter tesão por um homem, ou que trepe no primeiro encontro, nem tão pouco, acho que seja uma santa uma mulher que está com a calcinha melada e fica dizendo que não quer dar. E vejo que no falso brilhante que tentam lapidar à sociedade essas meninas é que reside todo o enchimento de saco que tenho sofrido ultimamente.

Sabe o que é mais engraçado? Algumas mulheres ficam com raiva de mim quando (disque) me dão um fora. Quando é uma pessoa por quem eu tenho um dado apreço, confesso que dói. E olha que quando percebo uma amizade florescendo por uma menina com essa característica, ou seja, que não se sente a vontade de tirar certas brincadeiras, eu tento fazer o mínimo possível trocadilhos infames ou dar abraços mais sugestivos e coisa e tal. Daí, quando entende que eu estou querendo alguma coisa (e as vezes estou mesmo) e decide não retribuir (as vezes mesmo estando afim), ela simplesmente decide ficar com raiva de mim. Agora, senhor Deus dos tarados incompreendidos, me diga por quê? O normal não seria quem leva o fora ficar com raiva ou sem graça? Não seria mais lógico quem não me quer me ignorar ao invés de forjar uma briga que entre nós jamais existiu?

Tá, eu entendo todo esse papo psicológico sobre a opressão sexual e sentimental que as mulheres sofrem por causa do machismo velado que ainda impera na sociedade tupiniquim. Entendo mesmo. Por isso que vim escrever aqui esse desabafo.Geralmente, quando tenho oportunidade de conversar com uma dessas, eu tento falar com todo o jeito sobre como eu não sou esse tipo de homem seletivo que só come mulher que ainda respira. Mas quem disse que elas acreditam? Em geral, fazem biquinho e ficam imaginando que essa é só mais uma cantada. Penso que no fundo elas prefeririam que eu fosse mesmo, pois, mulher de verdade gosta mesmo é de homem safado, meus amigos cornos que o digam (geralmente homem corno é homem besta, ao contrário do que dizem as puristas). Eu também sei que o problema está mais em mim do que nelas, pois quando você fala a mesma coisa pra muitas pessoas e nenhuma entende, o problema está no emissor e não na receptora. Mas isso não precisa impedir-me de esporrar, né?Acho que estou com TPM reprimida, só pode!
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Galera, ganhei mais um selo! Dessa vez recebi de um grande blogueiro, Agente Foose, pelo qual tenho profunda admração.







quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Dicionário pós-moderno

As vezes, o inútil pode ser útil, sabiam?. Por isso, vamos tirar a poeira de palavras pomposas que só advogados e literatos esnobes usam apenas como forma branca de pisar nos outros. Que o "Orélio" me perdoe, mas me baseei nele...


Ambidestro - adj. e s.m. Que se masturba, com a mesma facilidade, com as duas mãos.

Alouvo - s.m. Entusiasmo da menina indo comprar o primeiro sutiã; do menino indo comprar a primeira revista pornô.

Balbúrdia - s.f. Cair algumas notas de cem reais no meio da multidão; aparecer homem pelado num convento lotado.

Belicoso - adj. Provocar mulher com TPM.

Fleumático - adj. e s.m. Homem que segura o orgasmo por mais de uma hora; mulher que vai ao shopping com R$ 10.000,00 na bolsa e não compra nada.

Frugal - adj. Que come pouco; marido fiel.

Incólume - adj. Mulher lésbica de família arcaica que envelhece e morre virgem (disque).

Irrupção - s.f. Entrada violenta; ui!



Pacóvio - adj. Eleitor brasileiro - não preciso dizer mais nada, né?


Pândego - adj. Pessoa no motel na hora de acender o cigarro; Pastor da Universal quando vê entrar na igreja o maior empresário da região pela primeira vez.

Taciturno - adj. Pessoa que calada já está errada.

Tênue - adj. Fidelidade num relacionamento desgastado.