![]() |
Foto: Mídia Ninja |
"Mandei fazer
de puro aço luminoso um punhal
para matar o meu amor e matei
às cinco horas na avenida central
mas as pessoas na sala de jantar
são ocupadas em nascer e morrer"
(Caetano e Gil)
De repente uma multidão corre na direção dela. Ela sente
medo e ao mesmo tempo quer ver o que se passa. Acompanha o movimento das
pessoas, mas ao perceber a possibilidade simplesmente volta e vai ver. Dá de
cara com pessoas mascaradas quebrando portas de vidro e atirando coquetéis
molotov. Era um filme real. Assustador e excitante. Fica estática. Depois reage.
Se esconde. A polícia vem. Algumas pessoas enfrentam. Outras correm. Parecia
ensaiado. Sentiu nojo da polícia e não sabia o que pensar dos encapuzados. Um
deles se esconde ao lado dela. Susto. O coração pulsa. Ela olha. Ele nem aí.
Ela olha. Ele tira a blusa da cara. Ela olha. Ele fala oi.
“Tá assustada por que, gatinha?”, pergunta o garoto. Ela não
responde. Mas não para de olhar. “Tu sente medo quando vê PM usando balaclava?
Tu sente raiva quando sabe que uma lei escrota foi aprovada em votação secreta
no senado? Tu deixa de ir votar toda eleição por saber que os programas das
urnas eletrônicas podem ser facilmente manipulados, sobretudo no interior? Tu
deixa de bater palma pro governador mesmo sabendo que as contas públicas não
têm transparência e que todos os cargos de confiança da secretaria de finanças
são ocupados por pessoas da ligadas ao gestor? Pois é dessas máscaras que
tenho medo, e por isso também venho aqui e quebro tudo que simboliza corrupção e capitalismo”, disse ele, num sussurro quase gritado.

Ficaram. Fizeram amor. Trocavam mensagens de texto. Certo
dia ela deixou escapar para uma colega de docência quem era o cara. “Nossa! Pra
mim esses caras são marginais. Se infiltram no meio de manifestações pacíficas
para tocarem o terror”. Soltou Amanda, que em seguida se arrependeu, mas já tinha falado. “Eu
acho que você anda assistindo muito a Rede Globo”, rebateu Maria, que também se
arrependeu. Amanda já se preparava para pedir desculpas quando foi interceptada
pela companheira.
“Eu não concordo com ele. Uma vez tentei discutir e parei de
falar quando ele me perguntou quem é mais violento, eles ou o Estado e eu
respondi que claro, era o Estado. João em seguida olhou bem dentro dos meus
olhos. Desde então eu vou pra todas as assembleias da nossa categoria. Estou
tentando me organizar mesmo depois da greve. Agora tenho moral para criticar”,
concluiu. Em seguida as duas foram ministrar aula nas salas sem ventilador, com
carteiras, equipamentos e respeito em falta e muitas crianças violentadas da periferia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário