Seguidores

Nuvem de Tags

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Luta de Classes. Parte 1 de 3



Precisando de grana pra pagar o cursinho, Augusto teve de arrumar emprego logo. Um amigo dele conseguiu uma vaga como ajudante numa empresa especializada em aplicar impermeabilizantes na construção civil. Em seu primeiro dia de trabalho ele chegou atrasado. Ligou para o chefe que pediu pra ele ir até o primeiro piso onde ficava a piscina. Era um prédio de 12 andares recentemente entregue, com praticamente todos os apartamentos ocupados, cheios de gente de classe média puta com o serviço ruim da construtora por não entregar o imóvel sem ter piscina vazando.

“Guto” se identificou ao porteiro com seu crachá provisório e chegou ao elevador. Eram dois, na verdade. Pegou o de serviço sem reparar na diferença entre um e outro. Errou o andar. Foi parar no segundo piso. Desceu e apanhou o social. Nele desciam uma mulher e a filha dela. “Pra quê tem elevador de serviço?”, provocou a dondoca, irritada com a presença dele, que se olhou no espelho e se perguntou por que ela havia reparado que ele era empregado. No bairro da cabanagem (periferia de Belém) onde ele mora todo mundo perguntou se ele faria exame de fezes, de tão arrumado. “Será que tenho tanta cara assim de pobre?”, se questionou.

A crise interna dele foi interrompida por aquele rosto. A filha dela, com seus olhos verdes como o mar, os cabelos tipo os das moças das novelas, loiro, sedoso, brilhante, surpreendentemente saudável emitiu um sorriso parcial, meio que pedindo perdão pela mãe. Tudo passou muito rápido e ele desceu, trocou de roupa no banheiro dos empregados e foi trabalhar. Não era muito difícil a sua tarefa. Esfregar um produto de forma organizada e padronizada rápido o suficiente para que ele não secasse até estar corretamente espalhado.

Depois do trabalho a coluna dele conversava com a vontade dele de ganhar dinheiro sobre a necessidade de ir logo pensando em outra coisa melhor para fazer. A menina branca aparecera de novo. Sentada num banco diante de uma piscina vazia e em reforma. Ele precisou pegar seu par de sandálias esquecido num banco quase ao lado dela. Depois do episódio do elevador ele ficou se sentindo um lixo fora da lixeira, por isso não tinha a menor autoestima para cumprimentos. Ele apanhou o objeto e voltou sem levantar a cabeça. “Agora eu entendo”, ouviu uma voz falar atrás de si. “Oi?”, falou Guto voltando-se a ela. “Queria entender de onde tava vindo esse fedor de chulé”, descontraiu a garota. Ele voltou. Pegou os chinelos dela, jogou pra longe e brincou: “Pronto. Agora vai passar”. Os dois riram. Quando perceberam estavam sentados conversando sobre música, filmes.

De repente, já passava das oito da noite. Conversaram bastante, mas ele precisava ir embora. Ela perguntou onde ele morava. "Cabanagem", respondeu. “Eu te levo lá”. Se ofereceu ela. “Não pode.” Determinou ele. “Ué, por quê?”, se espantou a moça. “Porque não posso subir no carro de estranhas. Minha mãe não deixa”, provocou. Ela sorriu e pra Guto foi como se o mundo tivesse no pause. “Meu nome é Yasmin”, se apresentou ela e estendeu a mão. Ele segurou. “Prazer”, saldou a jovem. Ele disse o próprio nome, a puxou, deu um beijo no rosto, respondeu “satisfação”, em seguida a puxou para um abraço e sussurrou ao ouvido dela: “Me ensinaram que o prazer vem depois”. Ela tentou disfarçar ter gostado da surpresa e o chamou para ir até o aparamento dela buscar as chaves do veículo.

Quando abriu a porta a mãe dela estava na sala. Ele a viu sentada de costas para ele no sofá. Guto não queria entrar, mas Yasmin insistiu. Ele mentiu que havia esquecido mais uma coisa na piscina e para não atrasá-los precisava descer para buscar. A moça argumentou que buscava as chaves num instante, e depois pegariam juntos o objeto na piscina, e já se preparava para falar mais argumentos quando foi interrompida pela dona. “Yasmin, venha cá”. Os dois se olharam. A pele dela de repente ficou branca de novo, os olhos dela eram de novo verdes, o apartamento dela pareceu coisa de rico e ele lembrou nem sonha em ter carro tão cedo. Ela voltou a perceber a pele negra dele, os cabelos “ruins” dele, a roupa com os panos desbotados de tantas lavagens dele e umas manchas de pele estranhas na face dele.

Ela entrou no apartamento sem dizer nada, mas deixou a porta entreaberta. Ele chamou o elevador. Chegou o social, mas ele não quis entrar. Chamou de novo. Ela saiu do apartamento. Ele já havia descido as escadas pensando se no outro dia voltaria ou não àquele trabalho escroto.


Continua...

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Formas de curtir no Feicibuqui




Quase cientificamente falando, "Curtir" no feicibuqui pode ser*:

1-Curti mas não vou comentar porque não tenho nada a dizer no momento a altura disto;

2-Curti mas isso também não é lá essas coisas pra merecer comentário;

3-Curti muito não, mas como eu vou com a tua cara vou te dar essa forcinha;

4-Curti não, mas como você me curtiu também vou te curtir por gratidão;

5-Curti, mas só pra você saber que não gostei do comentário dessa vagabunda em seu Fêici. Aguarde a DR;

6-Curti pra te dar uma força naquela promoção;

7-Curti como forma de gratidão ao seu comentário;

8-Curti, mas não cliquei no botão por vergonha de você descobrir que curti;

9-Curti pra você reparar em mim;

10-Curti mesmo.

_______________
*Baseado em algo que já escrevi certa vez em meu Fêici.
Imagem do genial TonhOliveira

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Sobre gostar de sofrer


“Tudo é dor e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor
Renato Russo

“O meu delírio é experiência com coisas reais”
Belchior

Eu gosto de sofrer, ir ao fundo do poço, chorar, me desesperar, me sentir inútil, um lixo, um grande pedaço de bosta, um idiota quando finalmente chega a época. Sim, eu gosto. Experimento a dor como quem fuma uma maconha, como quem chupa uma língua volumosa e deliciosamente saliente em minha boca, como quem resiste até o fim antes de morder o pirulito, como aquela transa na qual a gente não quer gozar nunca. Afinal de contas, a felicidade é o Super-Homem, a dor é o Batman; As coisas boas da vida são o Kid Abelha, as desgraças são a Legião Urbana; a bonança são “oncinha pintada, zebrinha listrada, coelhinho peludo”, o conflito é o “vão se foder”; as coisas que dão certo são o marido, as que dão erradas são o amante; a alegria é o Pierrô, o sofrimento é o Arlequim, e no carnaval da vida somos todos Colombina.

Custou, mas aprendi a conviver com meus próprios demônios, e ainda os acalento quando posso, com direito a por música deprê para eles ouvirem comigo. Não nego a mim a chance de quebrar a cara quando acho que algo vale a pena. Procuro não ter medo de me jogar do precipício, de arrebentar a cara. Eu não tenho a menor vergonha de chorar. Eu não procuro a dor, não nego que é ótimo estar bem, ser  chamado de comível, de inteligente, de amigo, fiel e coisas assim. Contudo, depressão é não querer dar colo pro desespero, tadinho. Eu já tive vontade de me matar, mas na hora exata não tive coragem, porque fui seduzido por minhas próprias lágrimas, saboreei o gosto salgado e fiz delas uma canção.

Não, eu não procuro coisas ruins, só parei de negar infantilmente a mim mesmo que elas existem. Uma hora o baile funk, o sertanejo universitário, o tecnomelody e o novo episódio dos Ursinhos Carinhosos acabam. Sempre acabam. Quando tudo acaba mergulhamos em nosso próprio poço, e nenhum deles é raso, só precisamos parar de ter medo de ir lá no fundo e voltar. Sempre podemos ir mais fundo, e sempre podemos voltar.


quarta-feira, 31 de julho de 2013

Milagre na JMJ 2013 - Uma mijada, um martírio


Nove graus na praia de Copacabana e meu corpo amazônida lá, brigando com a temperatura durante a vigília com o Papa Francisco. Desde que o calor começou a sumir vertiginosamente era em minha bexiga onde se concentrava a mais ardente zona de combate. Não havia banheiro suficiente graças a Eduardo Paes, e o jeito foi mijar no mar. Que bonita era aquela curva provocada pelo vento no líquido que deliciosamente saía de mim quando de repente uma onda desgraçada veio mais forte do que deveria. Eu consegui me equilibrar em pé, e ainda tinha muito a expelir quando a onda finalmente se foi e me deixou as calças encharcadas. Pelo menos eu estava com frio demais para sentir qualquer constrangimento pelas risadas. Só de bermuda, naquela praia de agasalhos, eu me deitei pra ouvir a juventude dar testemunho ao sumo pontífice.
Começou um após outro jovem branquinho e fresquinho a falar mensagens tão emocionantes quanto o roteiro de um filme piegas pode ser. O povo fazia sinal da cruz, se ajoelhava, aplaudia, eu só conseguia ouvir baboseiras inúteis como “eu sou virgem”, “eu não uso mais drogas”, “fui a cinco jornadas”, e por aí vai. Tentei dormir pra ver se a coisa ficava menos pior. Me embrulhei no cobertor mais grosso disponível e o vento gelado parecia rir de mim. A essa altura não sei se tremia de frio ou de raiva pelos aplausos homenageando as porcarias que aqueles jovens com alma de velhos falavam.

Me levantei. Puto. Como a desorganização da JMJ 2013 fez com que a vigília fosse realizada em local sem a menor estrutura, não havia demarcação de corredores, assim a galera foi se apropriando do lugar. E enquanto o Papa estava no palco travestido de altar era impossível passar, porque ninguém queria sujar de areinha os colchões. Eu saí invadindo, ou melhor, ocupando terreno a terreno. Pulando cercas de areia, e quando em espanhol, inglês ou mongol alguém reclamava de invasão de "propriedade", eu dizia que estava sendo chamado pelo Espírito Santo. Peguei um atalho pela beira do mar, que depois de me molhar parecia satisfeito e se manteve distante. Cheguei ao palco, mas alguns seguranças me impediam de entrar. Então ameacei dar porrada num dos jovens quase catatônicos a ouvir aqueles malditos testemunhos, e num olé homérico ao guarda corri para dentro.

Não sei quantas mãos me puxaram, nem quantas pernas me chutaram. O fato é que eu subi lá naquele palco que mudava de cor, e era maior de perto do que parecia pelo telão. O papa não aparentava medo, mas o jovem falando compassadamente com aquele ar de “renovado” começou a tremer. Deve ter sido por causa da minha cara de pivete. “Perdeu, playboy. Passa o microfone”, gritei com a mão por dentro da blusa. “Boa noite, galera! Vim aqui dar meu testemunho”, gritei eu competindo com uma enorme microfonia. Os seguranças já se armavam para me bater, a guarda nacional se preparava pra atirar e o povo já fazia biquinho pra vaiar quando Francisco levantou a mão direita. Em espanhol disse alguma coisa parecida com “calem a boca, pois quero ouvir esse jovem”. Eu quase choro com a emoção de não apanhar nem morrer, mas juntei minhas forças.

Foi esse o meu discurso:

Eu sou um pivete, um pichador de muro. Um negro que passou uma temporada no presídio antes de finalmente ser exterminado. Sou um camponês oriundo de minha cidade com terra e cerca demais e justiça de menos, com vontade desesperada de sobreviver. Sou gay desde de nascença, humilhado desde que me entendi, e mentiroso desde após a crisma para poder continuar na igreja. Eu fumo maconha todos os dias, e ela não me faz mal. Não faz porque foi na igreja que experimentei pela primeira vez. Nela descobri o que há de mais podre e mais santo, e foi através dela que enxerguei sentido à minha vida de opressão. Percebi como a droga do capitalismo e a mentira do consumismo são os únicos entorpecentes a serem criminalizados.

Eu faço sexo todo dia com minha namorada. E sempre foi ótimo, olha. Vocês aí que ainda são virgens, recomendo muito. Qualquer dúvida perguntem a algum padre, porque eles também fazem sexo sempre que podem. E antes de começarem a vaiar e jogar pedras, gostaria de perguntar uma coisa a vocês. O tempo que vocês ficam batendo punheta, se enganando que vão pro céu por não chamar palavrão, por que vocês não se dedicam a uma missão mais interessante? Só nesses minutos no qual discurso pelo menos um jovem foi executado no Brasil. Somos uma multidão de três milhões de pessoas num local escroto, sem banheiro e sem condições, um exemplo do que esse povo carioca e esse povo brasileiro passa diariamente por conta da má fé desses governantes filhos da puta.

Querem sentir o Espírito Santo? Então vamos agora marchar até a prefeitura, arrebentar os portões como Jesus arrebentou as barracas dos mercadores do templo. Ocupar e fazer vigília lá, e dizer que só desocuparemos quando o prefeito renunciar, uma nova eleição for marcada e prometeremos que voltaremos a ocupar aquele lugar se os candidatos forem mais do mesmo. Vamos deixar um grande exemplo pras juventudes do Brasil e do mundo e mostrar que só rezar por um mundo melhor não é suficiente. Quis Deus que a JMJ ocorresse em Madri quando os indignados foram às ruas, e agora no Brasil quando o povo bradou um mundo novo. Isso sim é um sinal, não uma dor de cabeça que passa ou um bissexual que casa com mulher e mente dizendo que deixou de ser gay.

Como querem ir pro céu sem antes ir viverem aqui na terra a santa experiência de irem à luta...

Não posso dizer se o Papa aplaudiu. Se o povo que estava paralisado se mexeu, se os que estavam cegos enxergaram ou se os mudos finalmente falaram. Eu morri antes de ver, mas pelo menos vivi antes do fim.

terça-feira, 23 de julho de 2013

ESPIRITUALIDADE DAS JUVENTUDES - Transformar água em vinho

Enquanto a santidade de um beijo molhado casual, a caridade de uma noitada numa boate com as amigas e/ou a fé num mundo melhor e possível forem assuntos conversados sem filtros apenas ao lado de fora da igreja, dificilmente conseguiremos aceitar plenamente a dimensão da espiritualidade que habita/ emana das juventudes. Por mais que alguns organismos teimem em atrair jovens para um curral onde velhos discursos possam ganhar o verniz de novas gírias, em algum momento as cercas serão puladas, quiçá quebradas por eleas/es, por mais que nem toda novidade seja “louvável” para quem perderá alguma coisa com a mudança. 

A Boa Nova cristã vive um desafio perigoso desde a sua gênese: ela incomoda os poderosos. A jovem Maria sabia disso, pois segundo a comunidade de Lucas (Lc 1,52), ao carregar “A novidade” no ventre ela cantou que “Ele (...) derruba do trono os poderosos e eleva os humildes”. Ao mesmo tempo, segundo a comunidade de João (Jô, 1-11), o primeiro milagre de Jesus garantiu que a festa, a alegria e a bebida de alguns adoráveis bêbados não acabasse, e transformou a água da purificação em vinho. É como se Jesus transformasse água benta em cachaça, no primeiro grande símbolo nesse evangelho de que o Messias era Deus em forma de homem, vivendo isso até as últimas consequências; o Divino que adiante sangraria pelo bem dos homens e das mulheres.

Talvez não seja exagero pensar que hoje algumas pessoas realizam o trabalho de evangelização das juventudes trilhando o caminho inverso. São vinhos que são convidados a serem transformados em água, alegria que precisa ser desfigurada em respeito, sexualidade que precisa ser reduzida a pecado, ousadia que precisa ser regredida ao status de desobediência. Mas isso apenas no nível do discurso oficial, de algumas publicações talvez, porque na prática o “Espírito sopra onde quer, você ouve o barulho, mas não sabe de onde vem, nem pra onde vai” (Jô 3, 8). Quem sabe as juventudes ainda sejam aquele garotinho, “perdido” dos pais dentro de um templo, evangelizando quem acha que sabe mais do que ele (Lc 2, 41-51).

Quantas/os de nós, no trabalho com jovens sabemos enxergar que até dois pães e três peixinhos de um rapaz ou de uma moça são suficientes para alimentar uma multidão faminta (Jo 5, 5-15)?  Quantos de nós não somos os irmãos mais velhos daquele filho mais jovem e mais amado pelo pai, que por inveja o atiramos no poço e o declaramos morto, ou pior, o vendemos por qualquer preço?; ou mesmo não somos aquele irmão mais velho que se acha mais merecedor do abraço do Pai do que o irmão todo errado, como aquela jovem que engravida precocemente, seja o adolescente apreendido e exibido ao vivo nos telejornais, seja aquela menina rotulada como alguém que não tem nada na cabeça?

Querer o certo ao errado, aliás, é o maniqueísmo no qual caímos em tentação todas as vezes que não compreendemos que as juventudes precisam construir com as próprias mãos e sob auxílio dos mais velhos um caminho. O fetiche das multidões e grandes eventos tem sido o grande inimigo do processo no qual a/o jovem precisa amadurecer em todas as dimensões de sua própria existência, e não apenas ser mais um número. Não estaríamos querendo que os jovens apenas digam “Eis-me aqui”, ao invés de apresentar o desafio de um “caminho aberto”?

Já pensou se a pedagogia de Jesus Cristo fosse baseada apenas em fórmulas de fácil solução, como declarar a fé incondicional, só cantar coisas de Jesus e jamais desobedecer? Tadinho do São Pedro. Seria excomungado quando duvidou que atirar de novo as redes ao mar depois já ter tentado tanto daria resultado; seria convidado ao confessionário por ser um homem de pouca fé e não andar sobre as águas quando chamado; poderia ser preso ao cortar as orelhas do soldado que prendia o Mestre ou seria chamado de herege por negar Jesus no momento mais difícil. Mas foi esse “homem de pouca fé” que ganhou a honra de chefiar a igreja, de repente porque Jesus conseguia enxergar como poucos que os defeitos expostos não são necessariamente piores do que os ocultos.

Temos jovens nas periferias, no campo, nas obras, nas bocas de fumo, na cadeia, dentro do templo, num abrigo esperando adoção, na rua esperando esmola ou no seu quarto esperando um novo videogame. E temos ao redor deles uma sociedade e uma igreja adultocêntricas que se enamoram da beleza e a energia jovial dessas juventudes, e que gastam grande parte do tempo construindo fôrmas para elas. E para quê? Será possível construir um caminho para as/os jovens sem ter a frente disso elas/es próprias/os?

É interessante ver que de lugares onde a opressão do racismo histórico imperavam surgiu através das mãos dos jovens o Blues, o Roquenrol, o samba, o funk carioca, o hip-hop, o tecnobrega, o manguebeat, o cordel, o forró, os solos de Hendrix, alguns dos atletas mais maravilhosos da história, como Jordan, Bolt, Pelé e Cia. E se o Espírito falou através de Maria que Jesus viria para elevar os fracos e destronar poderosos, como não dizer que tudo isso é fruto do Espírito de jovens ousados apesar de tudo? Os sacerdotes e levitas de hoje deveriam voltar de onde acham que devem ir e aprender com a sabedoria desses samaritanos (Lc 10, 30-37), todos eles mais próximos dos jovens do que muitos sermões e pregações.

Como o padre Hilário Dick costuma dizer, “A juventude é o sacramento da novidade”. Essa espiritualidade renovadora e, por que não dizer, transgressora, brota de quem tiramos o alimento que parece pouco, mas suficiente para alimentar milhares de famintos; é o que ajuda a sobreviver os que são atirados no poço e ainda assim aceitam o desafio de entender os sonhos dos outros; é quem dá coragem para quem diz um sim conseqüente, independente do perigo; é o que ilumina aquela/e que erra pra caramba, mas que no fundo quer muito acertar.

A espiritualidade das juventudes, portanto, é o impulso fundamental da novidade, o novo que precisamos, mas nem sempre aceitamos. Querer a juventude em suas baias e não aceitar a novidade que ela trás é um contrassenso, é o mesmo que dizer amar o Jesus loiro, de olhos azuis, o da misericórdia e que não chama palavrão, e negar que ele também foi desobediente, transgressor, e revolucionário a ponto de desagradar todas as elites da época e sofrer as consequências disso. Da mesma forma, não adianta fazer o discurso de que aceita a renovação e não querer correr o risco de modificar o que aparentemente é puro, ou sem dar voz para falar o que pensam aqueles que de alguma maneira louvam. Ou gritam.


terça-feira, 18 de junho de 2013

Os 20 Mil de Belém

Foi na avenida Almirante Barroso que tive minha primeira experiência como manifestante. Na ocasião, há cerca de 15 anos atrás, eu enquanto estudante o como centenas de outras/os pelo grêmio estudantil do então Colégio Pedro Amazonas Pedroso (CEPAP aos mais saudosos) para engrossarmos as fileiras do MST quando fazia um ou dois anos do Massacre de Eldorado do Carajás. Não lembro de muitos detalhes, mas recordo que mulheres, homens e crianças marchavam já há dias para acampar em São Brás, na histórica praça do Operário.

Não sai da minha memória também que as pessoas a frente desse grêmio eram ligadas ao PSTU, e que me senti muito bem acolhido pelas pessoas em marcha. Rostos simples de gente que eu via na TV como baderneiros e que se preocupavam o tempo todo se os estudantes tinham sede, se estavam bem. Choveu naquele dia, assim como ontem, quando caminhei pela mão inversa da Almirante que já não é a mesma. Gritei por coisas parecidas com as que gritei outrora (Passe Livre para estudantes, por exemplo). Se foi histórico pra mim caminhar ao lado do MST em minha primeira passeata, foi histórico para o mundo a data de ontem: 17 de junho.

Nunca dei azar de participar de um ato com forte repressão policial, mas não lembro de uma na qual um ou outro indignado tenha errado na dose. Lembro de uma que participei, contra a ALCA, que paramos em frente ao consulado estadunidense e algumas pessoas chegaram a atirar pedras em vitrais, arrancar gramas e coisas do tipo. Naquela época eu não gostei daquela atitude, e qual não foi minha surpresa ontem quando, já nos primeiros metros caminhados, um rapaz encapuzado abaixou para pixar uma mureta e foi logo repreendido por centenas de vozes anônimas: “Sem vandalismo!”, gritavam. Porém, deixo claro, discordo do rótulo de vândalos manifestantes que reagem contra a PM, embora eu não acredite em violência como solução a nada.

Ontem vi muita gente que me lembrava a mim mesmo quando comecei a me rebarbar contra o sistema. Gente que se sentia motivado a gritar palavras de ordem, mas ainda com certo constrangimento. Gritavam, mas só no auge do coro, e comumente erravam algumas palavras. Mas apesar daquele ar de certa forma frágil de rostos joviais, havia um olhar perene naqueles semblantes, que é impossível de ver em qualquer outra faixa etária com a mesma intensidae: era o olhar da novidade. O novo que não nega tudo que é velho, mas tão pouco reafirma tudo que era dito até então. Por exemplo, se eu fui pra rua há 15 anos puxado pelo PSTU, ontem uma das palavras de ordem que mais ouvi foi o povo mandando a galera com as bandeiras vermelhas tomarem no lugar que rima com “U”.

Ah, mas não poderia deixar de falar do objetivo de mais de 20 mil pessoas que foram às ruas de Belém em consonância com outras centenas de milhares em todo Brasil. O povo tava na rua por causa de vinte centavos, contra a copa, contra a corrupção, contra...; pra ser honesto comigo e com todos os outros que compartilharam por algumas horas o mesmo asfalto sob os pés, essa é uma das diferenças mais atraentes e ao mesmo tempo preocupante desse novo momento: não sabemos onde isso vai dar, mas sabemos que não queremos ficar onde estamos. Eu acredito nisso. E acreditar nisso, senhoras e senhores, é ótimo.

O único congestionamento que eu lembro de ser aplaudido em Belém é o que causa a passagem da imagem da Nazica no Círio rodoviário, quando pessoas aparecem nas janelas e à beira da pista pra aplaudir, homenagear e etc. Ontem eu vi muito disso numa passeata.Talvez porque o povo na beira, sejam os que apoiavam com panos brandos nas janelas, sejam os que no fundo aguardavam uma porradinha contra a polícia para acompanharem de camarote viam ali na imensa maioria de pessoas o próprio reflexo. Uma gente que não quer depredar o Estado, ao mesmo tempo que queria deixar claro que não estava nada contente com ele, ao mesmo tempo que se demonstrava a favor das reivindicações dos “baderneiros”, mas deixaram claro que não querem servir de massa de manobra de nenhum partido e não toleram violência. Alguns verão nisso despolitização. Não que não seja em parte, mas não há como negar o espírito radical disso. Radicalizar não é apenas ir para um extremo, mas também criar outro.

DETALHES
É comum a manifestações fazer silêncio quando se passa em frente a um hospital, mas nunca tinha visto esse silêncio vindo de 20.000 pessoas. Não havia carro-som ontem animando. Ainda bem. Não houve quem manipulasse as falas ou que tivesse a pretensão de querer falar por todas/os. Assim, a recomendação do silêncio vinha de boca em boca, de dezenas de metros à frente até o fim. Foi de arrepiar ver essa grande rede social funcionando ao mesmo tempo que lia em muitos cartazes a mensagem “saia do facebook”.

Eu sempre critiquei as grandes produções cinematográficas e televisivas a respeito de atos públicos. Repare, leitor, que a única palavra de ordem que sabem dizer na tele-dramaturgia é “O povo unido jamais será vencido!”. Eu nunca tinha ouvido isso numa manifestação real. Até ontem. Também havia ontem manifestantes fantasiados de “Homem Aranha” (oi?), gente fazendo poses para fotos ao lado do delegado Eder Mauro, que para quem é de fora, representa aquela figura do policial brabo que mata mesmo os “vagabundo”. Há quem ache isso bonito. Pra mim ganhar fama de assassino supostamente matando a juventude negra deveria render a ele algumas das muitas vaias que berramos.

Talvez a manifestação mais ignorada de todos os tempos da última noite tenha partido de um jovem rapaz, que simplesmente parou sobre um bloco de concreto, de frente para a multidão com uma Bíblia aberta (oi?). Jamais entenderei qual a intenção daquele rapaz, também um radical, certamente. Mas confesso a Deus Todo Poderoso que ri dele. Por minha culpa, minha tão grande culpa.

As únicas confusões que existiram em todo o trajeto foram protagonizados esporadicamente pelos próprios ativistas. Na realidade, o batalhão que acompanhou todo o trajeto mostrava literalmente na cara que não estavam ali para brigar. Eram soldos, cabos e quiçá alguns sargentos nitidamente fora de forma, longe do padrão utilizado quando o Estado quer realmente bater em alguém. Houve também xingamentos e alterações quando um repórter da afiliada da Rede Globo quis fazer uma entrevista – nem tudo pode ser tão diferente mesmo.


Voltei pra casa com o coro mais clichê de todos na cabeça: “O povo unido jamais será vencido”. Essa frase, que mais parece um verso bobo de feicibuqui, simbolicamente saiu de pessoas convocadas em grande parte através desse aplicativo. Eu ri as primeiras vezes que ouvi. Debochei, na verdade, e me peguei subestimando a novidade. Não é de uma palavra de ordem sofisticada que precisamos, precisamos de berros gritados que façam os que estão à margem entender e se motivarem a virem pra avenida da luta. Independente de qual processo vai desencadear a partir daqui, a lição que aprendi na última noite foi que não é de pessoas num pedestal do conhecimento que precisamos, nem de vanguardistas pretensiosos. Precisamos do povo ao nosso lado, com todas as contradições lindas ou não que isso traga. “E precisamos todos rejuvenescer”.

segunda-feira, 18 de março de 2013

O Canalha - Caça 9


Era uma festa normal. Com risos fáceis e nem sempre honestos; porres chatos se achando muito simpáticos; pessoas falsas, porém amáveis e olhares de todo tipo, alguns curiosos, outros ligeiramente pidões e um ou outro explicitamente tarado. O Canalha estava cercado por rapazes e moças. Gente charmosa. Gente formada. Gente bonita. Bando de gene chata, na verdade, que parecia ter saído da mesma forma, daquelas que ainda se escreve com circunflexo. Não que o nosso anti-herói não tenha tesão por mulher bonita, é que ele tinha enorme dificuldade para se relacionar com gente que não era muita coisa além disso.

Eis que ela chegou. Não era feia, mas era uma de beleza difícil, que não pairava na superfície, e sim nas profundezas de tudo aquilo a transbordar dela naturalmente. Ficava a maior parte do tempo escondendo o sorriso, de repente porque tinha um dos dentes um tanto envergado para trás. Tinha os ombros meio fechados, de quem aparentemente passou parte da vida querendo esconder os seios fartos que ela cobria bem demais, pro gosto do Canalha, com uma blusa sem qualquer decote; mas mesmo assim era volume demais para passar despercebido. Ela devia ser afim de um dos caras ali, o mesmo que fez uma enorme careta para o lado quando a percebeu vindo em direção ao grupo. Aparentemente ele a convidou por convidar, como convidara um monte de gente do trabalho dele. E ela, como meio que estava sem programa e sem vontade de ficar em casa mesmo, foi.

De repente ela começou a discordar deles, falar sobre outras bandas menos modinhas e comentar sobre a profundidade de terminologias e a relação disso com as ideologias. No início, todos meio que tentaram embarcar na onda, até que ela sobrou nos argumentos, e aí ninguém mais quis mentir pra si mesmo que queria sair da comodidade da superfície e cansaram de tentar ser simpáticos com a “esquisitinha” e foram saindo um por um.

Antes que a moça terminasse sozinha na mesa, ela ouviu um determinado “discordo” do Canalha. A partir daí, ela argumentava, e ele contra-argumentava. Ela citava uma fonte, ele associava com uma letra de música argentina, angolana ou algo assim. Ela se surpreendia com o conhecimento dele, ele ficava cada vez mais excitado com a inteligência rebelde dela. Quando a conversa engrenou, a cada fala que ela fazia ele se perguntava se ela não faria finalmente a pergunta-chave. Conversaram mais. Muito mais. A essa altura já estavam a sós na mesa enquanto os outros dançavam ou interagiam com outras turmas. E a pergunta não vinha. Ele não poderia fazer indireta nem fazer a pergunta primeiro. Tinha que partir dela.

Enquanto a pergunta não vinha, o tesão dele só aumentava. “Será que ela não está mesmo se interessando? Será que ela está mesmo apaixonada por aquele cara?”, eram alguns dos questionamentos que invadiam a mente já alcoolizada do Canalha. A pergunta que ele tanto esperava era simples: “Você tem namorada?”. Quando essa pergunta surge em meio a uma conversa interessante entre pessoas que estão se conhecendo, sobretudo quando há charme despejado de alguma parte, quase sempre significa que algum interesse já surge da outra parte.

Mas a pergunta não vinha. Até que o Canalha parou de achar que ela viria, porque a conversa fluía muito bem. Então ela elogiou um verso que ele recitou. “De quem é esse poema?”, perguntou a moça. “Ah, é só uma bobagem que eu escrevi um dia desses”, respondeu, sem falsa modéstia. “Gostei muito”, disse ela, invadindo os olhos dele com os dela. Ele soltou um sorriso tímido, desviou o olhar, demonstrando certa fragilidade. “Você tem namorada?”, perguntou ela, inclinando a cabeça pra ver se recuperava aquele olhar que a pouco dominara.

Ele retribuiu o olhar. Não respondeu nada. Chamou-a para mais perto de si, a abraçou forte, deslizou as mãos sobre as costas dela, colocou os braços dela em volta do pescoço dele, e passeou mais com as mãos, chegando ora perto dos seios e ora perto do bumbum. “Não vai responder?”, perguntou de novo. Ele a puxou mais contra ele e pediu ao ouvido dela para ela repetir a pergunta. Ela repetiu. Ele começou a beijar o rosto dela, encostou os lábios carnudos dele o máximo que pode na bochecha macia dela e vagarosamente foi beijando até a boca. Ela comentou que ele tinha jeito estranho de responder as perguntas. Os dois riram. “Estou tão afim de você, que mesmo que eu fosse o Papa eu diria que estou livre, por isso minha resposta é o que menos importa nesse instante”, provocou. Ela tentou dizer que não ficava com homem comprometido, mas antes que ela começasse a língua dela estava o máximo possível dentro da boca dele, sugada, lambida... gostosamente chupada.

Ela demorou alguns segundos para perceber que estava andando para trás enquanto era beijada de forma alucinada. Aí percebeu que estava sendo levada ao banheiro. Tentou dizer que estava tudo indo rápido demais, mas já tinha percebido que era tarde pra isso, porque ela já estava ajudando ele a desabotoar a calça enquanto ele tirava o cinto. Ela queria muito fazer sexo oral nele, mas a vontade dele de descortinar aquele espetáculo no tórax dela era mais desesperado. Ela normalmente gostava de ser beijada ali com carinho, porque doía gestos mais vorazes do parceiro naquela região. Pensava nisso enquanto ele a chupava com força, mordia e apertava bem o outro seio. Ainda doía, mas era muito gostoso ao mesmo tempo. “Acha mesmo que vai me convencer a fazer isso?”, questionou a moça. “Quer argumento melhor do que esse?”, provocou o Canalha, enquanto o dedo dele a invadia vagarosamente. “Posso ao menos dizer pra você continuar, só pra não ficar por baixo?”, perguntou ela, meio rindo, meio gemendo. Depois disso, ouvia-se apenas alguns grunhidos e gemidos abafados vindo de algum lugar entre uma privada tampada e uma porta trancada de um toalete movimentado.

___________
Post dedicado à Mirella de oliveira (que não é a moça da história)

terça-feira, 5 de março de 2013

Sobre ser e desobedecer

"Vou errando enquanto o tempo me deixar"
(George Israel/ Paula Toller)

"Ai que prazer
não cumprir um dever"
(Fernando Pessoa)


"Outros que contem passo por passo
eu morro ontem"
(Vinicius de Moraes)

"Nossa cidade é tão pequena
e tão ingênua
Estamos longe demais das capitais"
(Gessinger)

"Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta,
que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda"
(Cecília Meireles)

Por Santiago S.V.


Definitivamente não nasci para frequentar lugares onde há certezas demais, onde tudo é muito certo dos caminhos e as regras merecem ser cumpridas. Deve ser por isso que eu nunca abandonei definitivamente a Igreja Católica Apostólica Romana, de repente porque nela encontro-me entre uma minoria de vozes que fazem eco à subversão que em mim habita, independente de ideologias. Deve ser por isso, aliás, que nunca me senti plenamente à vontade em partidos políticos, em grandes movimentos sociais ou algo assim, pois em geral sinto minhas contradições sufocadas nesses espaços e já me basta uma só religião a seguir.

Não desobedeço por desobedecer e não creio que todos devam pensar/ agir como eu, mas é muito chato estar em lugares onde minha beleza não tenha espaço para ser horrível; onde eu não possa ser idiota sem perder o status de inteligente; onde eu não possa ser revolucionário e ao mesmo tempo amar um sectário da mesma forma que amo um pelego ou um doce repressor; ou onde eu não possa fazer a coisa errada tendo a certeza que é a maneira mais certa de agir.

Tem gente que não percebe o "Cabeça Dinossauro" em gente que nunca lançou (ou talvez nunca lance) um álbum melhor que "Televisão". Há gente que enxerga apenas a própria coerência ou a coerência daquele dado grupo pelo qual é "devoto" como luz, sem levar em consideração que o foco dessa luz direciona as sombras. Há gente que entende de jardim, entende de buquê de rosas, de arranjo de margaridas, mas não repara numa flor sequer, muito menos se atenta à beleza subestimada dos espinhos. E há gente que não.

Contudo, já reparei que a gente se sente mais à vontade quando aponta nos outros os defeitos que nós mesmo temos de mais grave.
________
Este post foi inspirado no delicioso blog 2 + 2 = 5

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Jornalismo Policial: Atarefa de contar histórias como a de Santa Maria



Sou da periferia, prefiro ser chamado de preto a moreno, não tenho problema nenhum em declarar quando acho outro homem bonito, mas, confesso, até hoje não me acostumei com o rótulo de “Repórter Policial” que me dão, devido trabalhar no caderno de Polícia de um jornal diário do Pará há um ano. Ser repórter dessa editoria quer dizer, por exemplo, que se trabalhasse no Rio Grande do Sul eu provavelmente teria participado da cobertura da tragédia que já matou até agora 235 e deixou outros 118 jovens feridos em Santa Maria/ RS por conta de um incêndio na boate “Kiss”. Lidar com números e informações fortes como essas, acompanhar imagens tensas assim – in loco – e me perguntar todo dia se essas coisas valem a pena é o que tenho feito durante esse tempo. Eu, que jogava esse caderno policial no lixo antes de folhear qualquer jornal, que classificava esse tipo de publicação como JA - Jornalismo Abutre, hoje defendo que a editoria policial não deve acabar tal como precisa ser, e sim tal como é.

Como exercício mental, não de quem precisa de um emprego, mas de quem precisa se sentir importante para a sociedade no que faz, resolvi criar em minha mente um mundo imaginário sem os cadernos de polícia. Cheguei à conclusão de que seria o cúmulo da banalização da vida quando assassinato cometido nas periferias da nação parar de render manchetes, ou quando a morte não for mais notícia. Aliás, é impossível desligar esse debate da questão da criminalização das periferias, ou do racismo propriamente dito. Para mim, a origem de todas as brincadeiras de mau gosto e de toda abordagem desrespeitosa que se faz nessa editoria vem justamente do desrespeito ao valor da vida dos empobrecidos, principalmente negros. Já vi uma jornalista perguntar ao delegado, após mais uma morte na favela, com as seguintes palavras: “Uma vez que a ficha policial desse elemento era extensa, podemos dizer que é ‘menos um’ pra perturbar”? Ela nunca perguntaria isso se fosse o homicídio de um deputado corrupto branco.
Imagem compartilhada no Facebook demonstra até que ponto o preconceito favorece o desrespeito à vida.

Enquanto a morte nas periferias ganham títulos derivados de + 1, são as mortes dos filhos da classe média que costuma ser espetacularizadas. Nesses episódios percebemos o quanto a curiosidade mórbida independe de classe social. Tanto em mortes de viciados negros quanto de estudantes brancos há jornais que vendem como água imagens que mais parecem parte de documentários de autópsia ou fotos de peritos do IML. Percebe-se também que a exploração da morte, da tragédia, da crueldade, é algo que definitivamente interessa às pessoas. Aceitar isso, aliás, foi o primeiro choque de realidade que levei no meu trabalho.

A ROTINA DA REPORTAGEM

A tarefa diária do jornalista de “Polícia” é correr atrás de notícia. Ao contrário das outras editorias, nós dificilmente saímos da redação com algo planejado. As coisas vão acontecendo e a gente tem que criar mecanismos para não perder nenhuma notícia. Possuir fontes no IML, e entre a população é fundamental. Mas nenhuma fonte é mais segura do que a polícia. Por isso existe historicamente nas editorias policiais de todo o Brasil uma relação muitas vezes promíscua entre repórteres e policiais. Diante de nós repórteres, toda sorte de abuso é compartilhada, há jornalistas que até mesmo batem em presos. Até mesmo a linguagem adotada no meio dá a exata ideia dessa relação. O ato de ir atrás de notícias nessa editoria chama-se “Ronda”, por exemplo.

Voltando a falar sobre morte, hoje posso dizer que consegui criar um mecanismo mental que me permite encarar qualquer tipo de imagem de pessoas mortas durante o trabalho. Alguns colegas meus defendem que não é necessário ver o corpo para escrever a matéria, mas eu discordo. O que faz um bom texto é a apuração, e às vezes um detalhe na cena do crime é o elemento mais importante da história a ser contada. Mas o que me faz perceber que eu ainda sou eu, como o peão para os personagens imersos em sonhos no filme “A Origem”, é a compaixão pelos que ficam. No dia que eu parar de ficar com nó na garganta quando percebo que aquilo que escrevo significa uma perda irreparável para muitas pessoas, certamente demonstrará que passou da hora de eu abandonar essa editoria.

Por isso penso que o caderno de polícia já começa errado pelo nome. Os jornalistas dessa editoria não deveriam agir como se fossem assessores de comunicação da PM. A linha de pensamento que move abordagens preconceituosas, racistas e que no fim das contas acaba por incentivar o ódio e a intolerância que geram violência letal é que precisa ser revista antes de tudo. Perceber que mesmo um ladrão, um estuprador ou um assassino de criança também é um ser humano, que existe um contexto sócio-político por trás dos homicídios nas periferias é algo que requer um mergulho muito além da superfície, o qual nem todos estão dispostos a fazer. Afinal de contas, compreender o processo não vende jornal, não rende status, continuar fazendo o que se faz sim. Mas, acredito, é possível prender a atenção das pessoas, vender, sem vender a alma. Vi muitos comentários interessantes a respeito de muitos textos a respeito da tragédia gaúcha – e brasileira – demonstrando que é possível re-humanizar o jornalismo sem perder a clientela.


Não, eu não acredito que isso vá mudar amanhã, mas penso que até lá, quem realmente discorda dessa linha não precisa esperar o dono do jornal passar por algum tipo de epifania para seguir os próprios princípios. A partir de pequenos gestos, como por exemplo ouvir o que os suspeitos têm a dizer, ao invés de escrever “populares” escrever “pessoas”, ao invés de dizer “bandido morto” escrever “vítima”, o olhar já pode ser modificado. O Brasil é considerado o maior país católico do mundo, possui um grande número de protestantes, mas não consegue ser cristão na hora de pensar em soluções para a violência além de punir. A pena de morte em nosso país é uma realidade velada, cujos juízes são os policiais e os advogados são os jornalistas omissos diante disso.

Rogo para que um dia os cadernos e as editorias que lidam com situações de morte possam ter como chavões não mais palavreados importados dos quartéis, e sim dos jardins. E como quem não precisa esperar o carnaval pra poder sambar, eu vou escrevendo como acredito que tenha que escrever, assim como outros bravos colegas. Portanto, é preciso evitar o olhar maniqueísta dos grandes jornais, porque nele há pessoas sensíveis e que quando são competentes conseguem fazer um trabalho digno. Defendo a humanização dos cadernos de polícia, e penso que o título da editoria também poderia ser revista, mas discordo de quem pensa que eles não deveriam existir. Parafraseando Vinicius de Moraes: “Cadernos de Polícia? Melhor não termos. Mas se não temos, como sabê-lo?”

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

SER UM HOMEM FEMININO NÃO FERE O MEU LADO MASCULINO



“Se Deus é menina e menino
Sou masculino e feminino”
(Baby do Brasil, Didi Gomes, Pepeu Gomes)

Não faz muito tempo eu soube de uma confusão armada por uma mulher na escola de educação infantil onde o filho dela estudava o maternal. Era a festa de aniversário de uma coleguinha, que levou bolos, doces e balões para celebrar o dia dela com a turma. Ela não levou balões azuis, apenas cor de rosa, e o filho dessa dita mulher quis levar uma bexiga para casa assim mesmo (apesar da cor). A babá foi buscar o garoto, que quando chegou ao lar, todo alegre, com o balão na mão, viu sem entender a mãe se revoltar e voltar na mesma hora à escola para tomar satisfações. O barraco só não foi pior porque as crianças já tinham ido embora. Ao voltar para casa, a raiva se voltou ao filho e depois de ter dito que aquela cor não era coisa de macho, ela certamente deve ter dito "homem que é homem não chora", ao ver o filho aos prantos.

Poderia dizer que é assim que as pessoas começam a se tornar machistas, mas na verdade não é. O buraco é mais embaixo, ou melhor, mais antigo. A opressão de gênero tem início no mesmo período em que o homem começou a dominar técnicas para literalmente se apossar dos territórios e se iludir ser dono de onde (e de quem) pisa. Através da força, o menino subjuga quem não tem a mesma força física ou não é “detentor” dos mesmos bens, e entre as vítimas principais estão, sobretudo, as meninas.

Antes dos garotinhos começarem a brincar de oprimir e cometer genocídios nefastos para provarem a si e aos outros que são grandes, quando a humanidade sobrevivia da coleta, a solidariedade aferia mais grandiosidade às praticas das pessoas. Nesse período, não por acaso, a figura feminina era endeusada. Mas não era um poder de cima para baixo, e sim uma relação circular de poder, horizontal, de quem prefere olhar ao outro e à outra a mesma altura, e não com a cabeça inclinada para baixo.

E se o branco é superior ao negro, tudo que vem do negro é pecado, criminoso ou feio; se o ariano é superior ao judeu, todo judeu merece sofrer o que o ariano quiser; se sulista é melhor que o povo do norte-nordeste, tudo que vem da parte de cima do mapa é coisa de pobre, mal educado, de quem não sabe votar, desse povinho disposto a invadir a minha terra me roubar. Ou seja, a mesma lógica vale para o homem em relação à mulher. Numa sociedade patriarcal, tudo aquilo que é atribuído à mulher é inferior, merecedor de chacotas e indigno dos seres superiores: os meninos. Na verdade, isso tem até um nome: Misoginia, ou seja, ódio a tudo que vem do lado feminino da vida.

Já se perguntaram por que as meninas usam calça e os meninos não podem usar saia? Já se questionaram por que a mulher diz que a outra mulher é bonita e os meninos não podem? Já se intrigaram com o fato de que menina chegando com balão azul em casa não dá confusão, mas os meninos não podem? Já se inquietaram com o fato do homem gostar de ver mulher pegando mulher, mas não o é assistir a homem fazendo enxerimento com homem? Está tudo interligado. Tudo relacionado ao feminino é tolerável nas mulheres, ainda que considerado inferior, mas, homem traindo a dita superioridade herdada de Deus é inconcebível. Por isso gays , travestis e transexuais são os maiores alvos dos homofóbicos violentos em relação a lésbicas.

Na verdade, como diz a feminista e teóloga biblista Tea Frigério, o patriarcado não fez mal somente a mulheres. Fez mal também ao homem, que negou o lado feminino que todos nós possuímos. Ao homem restou o papel de ser frio, calculista, o que não chora, e à mulher foi colocado o papel de ser mãe, tolerante, a do sim, que não arrota, não peida, e tem de sempre ser linda aos padrões eurocêntricos; sendo que isso tudo é apenas uma capa, pois todos nós somos dotados de ternura e força, sensibilidade e ousadia, carinho e agressividade.

Então o homem mesmo se colocou nessa prisão de não poder demonstrar carinho, sobretudo para com outro homem, nem sensibilidade demais, sob o risco de parecer gay. Ou melhor, de demonstrar que possui algo daquele ser “inferior” do outro sexo. Portanto, aceitar que há uma menina em todo menino pode sim começar a provocar novas relações de poder, uma outra visão de mundo onde a diversidade  e a tolerância podem ser acolhidas com um doce abraço de menina e (até que não reprimam) de menino também. É preciso entender que um balão rosa é mais recomendável aos meninos do que reproduzir as práticas milenares do patriarcado opressor.