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quarta-feira, 27 de julho de 2011

HOMOFOBIA SIM

Como eu sou uma pessoa democrática, que procuro ser acima de tudo justo, eu vou dar aqui oportunidade para pessoas que, como Bolsonaro e Myrian Rios, tem o direito de defender seu ponto de vista enquanto cidadãos e cidadãs. A única coisa que peço é que assistam o vídeo até o fim.


Vídeo indicado por meu amigo, O Iluminado blogueiro Átila.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Postagens Retrô 10 - A Igreja Como ela é

Inspirado na Obra de Nelson Rodrigues, conto aqui histórias que deveriam ser mentirosas, mas não são (editado).




Mocidade


Chegaram praticamente juntos ao Culto da Mocidade. Já se conheciam de vista, mas como chegaram atrasados e ficaram longe de onde estavam sentadas as "panelas" de cada um, começaram a conversar. No início era um papo trivial, até que o olhar de um para o outro passou a ser a comissão de frente de uma porção de alas com fantasias aparentemente exóticas para aquele ambiente. Houve momentos em que um chamou o outro pra falar nada de importante, apenas para não deixar aquele desfile com coreografia improvisada acabar.


Ao fim do culto, descobriram que moravam perto um do outro, então, acabou ele indo para a casa dela. Ela estava só em casa naquela noite. O pai da moça era vigilante e a mãe dela estava viajando. Os dois entraram, e da feita que fecharam o portão estavam num pátio isolado da rua. Na porta da sala, os dois deram continuidade ao desfile iniciado outrora, e apesar da pausa gritante entre a comissão de frente e o carro abre-alas, é possível dizer que não perderam nem um ponto no quisito harmonia. O beijo aconteceu de forma tão envolvente e ao mesmo tempo tão automática que nem um dos dois soube dizer como foi exatamente que chegaram ali.


Ao fim do primeiro beijo, perceberam que cada um ainda estava com a bíblia na mão, e foi dela a iniciativa de colocar as duas bíblias no canto da porta. O segundo beijo, não se sabe se pela atitude anterior dela, ou por qualquer outro motivo, foi bem mais pegado. Ele ficou excitado, e ela, se já não estava, ficou ao sentir a pressão dele. A mão dele desceu até o quadril dela, e com uma força moderada a puxou contra ele, talvez pra fazer ela sentir ainda mais a pressão, ou porque a pressão que ele dava era uma forma de aliviar um pouco da dele. Os dois continuaram se beijando; um beijo cada vez mais ardente, e após a mão dele percorrer toda avenida do corpo dela, a mão dela foi a porta estandarte da noite.


No início ele não entendeu porque ela tentou colocar a mãozinha por dentro de sua cueca, na verdade no início ele achou bem estranho. Ela fez duas tentativas, e na segunda, por instinto, ele percebeu o que ela queria. Ele então encostou seu mundo no dela, ainda que o mundo dela ainda estivesse coberto pelo último manto, o que não os impediu de experimentar uma pequena porção do paraíso. Quando aquilo já estava passando daquilo que ela se permitia fazer naquele momento, ela o afastou, e mentiu dizendo que seu pai estava para chegar. Ele então pegou a sua bíblia (meio contrariado pelo fim, mas muito mais satisfeito pelo caminho percorrido) e saiu pelo portão, dando-lhe um beijo de despedida. Depois ela pegou sua respectiva bíblia e entrou também. Entretanto, talvez eles tenham demorado um pouco mais para voltar ao mundo que conheciam de cor. Palpite meu.


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Hoje é meu dia de estar no blog que é só para quem gosta da coisa (ui). Clique na imagem abaixo e conheça.



quarta-feira, 20 de julho de 2011

Ladrão de super-mercado - Parte 2 de 2

Na postagem anterior, vimos que um sujeito mal vestido e com cara de pobre fora capturado pelos seguranças de um supermercado e estava sofrendo um lixamento moral quando tirou do bolso a carteira da OAB.

Aos olhos dos seguranças e do gerente, toda aquela certeza imagética e preconceituosa que rotula o perfil dos vagabundos foi gradativamente desbotando e dando o tom cinza das incertezas angustiantes. O rapaz levantou da cadeira como quem vira a amante de quatro. "Do que é que vocês estavam me chamando mesmo?", perguntou o rapaz. O gerente, acostumado a ser indagado naquele tom somente pelo chefe, tentou colocar aquela figura exótica no seu devido lugar. "Não me interessa o que você é, se é que é advogado mesmo. Você deve saber muito bem que roubo é roubo. Mesmo sendo um pacote de M & M, você roubou", reagiu o gerente.

O rapaz puxou um gravador de voz do bolso e disse que tudo o que foi dito até então fora gravado. Imediatamente um segurança, tentando garantir a próxima promoção provavelmente, reagiu dizendo que o furto dele é que tinha sido gravado pelo sistema de segurança. "Você tá fodido, seu ladrão", concluiu berrando o segurança, dando um pequeno banho de cuspe no rapaz que tranquilo, com uma soberba real, disse aos demais que aquilo era o que precisava ouvir mesmo. Nesse momento, o gerente aproveitou a deixa do segurança pra descontar nele toda a frustração daquele momento, com xingamentos e tapas na cara do funcionário que deveria ter quase o dobro do tamanho do chefe ali. Sem perder o pique da indignação, o gerente virou para o rapaz. "Olha só, nós temos tudo gravado, mas é bom pararmos logo por aqui. Pode ficar com esse negócio, come até ter dor de barriga e some", falou puxando o rapaz pelo braço em direção à porta.

"Eu só saio daqui depois que pagar", disse o rapaz, mas foi ignorado pelo gerente. Então, num rompante de fúria o rapaz agarrou o braço magro do gerente e empurrou contra a mesa. "Acho que você não tá me entendendo, então deixa eu explicar", gritou o rapaz, parecendo o almirante da tropa. "Tenho uma câmera escondida aqui na camisa. Lá fora, tem uma amiga minha que é jornalista captando e gravando todas as imagens desa conversa, agora olha a porra do preço do M & M no sistema, caralho". O Gerente, engolindo um enorme sapo, começou a procurar o preço. "Anda, caralho", ordenava o rapaz, e quem escutasse de fora, imaginaria que se tratava de mais um menino pobre do bairro levando uma lição e uns tapas pra deixar de ser vagabundo. Entretanto, quanto mais o gerente procurava e não achava o preço, mas ele suava. "Não está registrado no sistema, senhor", falou com voz fina o gerente.

"É claro que não, seu filho da puta", urrou o rapaz. "Assim como a dez anos atrás, eu peguei essa porra dessa embalagem aberta, de um produto que não vende aqui. Só que a dez anos, eu era um moleque da favela que foi humilhado, e mesmo eu dizendo que não havia roubado, fui torturado moralmente, mas hoje eu sou um advogado formado que veio se vingar", berrava o rapaz. "Naquele dia, tu não quis olhar a gravação, mas agora tu vai olhar. Olha aí a gravação daquele corredor as dez da manhã. O gerente viu e atestou. O próprio rapaz havia deixado lá a embalagem, sob algumas outras. 

Então, o gerente começou a implorar para que o advogado ali pedisse o que quisesse. A exposição da imagem dele, e pior, da imagem do supermercado na mídia seria o fim da carreira dele, a humilhação perante parentes, amigos e conhecidos, então ele se colocou de joelhos diante do rapaz e começou a implorar clemência. "Levanta, seu fodido do caralho, que nem os moleques que tu humilha aqui são tão fracos assim", disse o advogado empurrando-o contra a parede. "Agora vira de costas aí, encosta as mãos na parece e abre as pernas", esporrou o vingativo, que logo foi obedecido pelo gerente. Em seguida, ele pediu para que o segurança humilhado a pouco, o maior dos dois, com cerca de 2m de altura enfiasse o dedo médio no cu do gerente.

De início, o gerente tentou negociar, mas a pressão do advogado foi muita, e coube ao gerente continuar de perna aberta. O segurança, bastante constrangido, mas no fundo querendo rir, enfiou então o dedo no cu do gerente como quem procura o útero de alguém. O gerente se esguichou pra cima e soltou um gemido de desconforto. Depois, o advogado ordenou que o gerente não demitisse aquele vigia por pelo menos um ano, e que no dia seguinte, àquela mesma hora, procurasse no endereço dado o cartão de memória com a gravação, a qual teria certeza que se trataria da original.

O gerente, com muita desconfiança, mas sem muita escolha, teve de aceitar. No dia seguinte, no endereço marcado, estava lá o envelope com o cartão de memória. cinco dias adiante, quando finalmente criou coragem para ver, pra sua surpresa só havia um arquivo de power point com uma mensagem escrita ali: "A única parte verdadeira dessa história é que eu fui uma vítima sua a dez anos atrás". Restou ao gerente, portanto, dar o ano de estabilidade ao segurança, para que este não desconfiasse que tudo aquilo era bem pior do que parecia.

Não pararam de tentar roubar o supermercado depois daquele dia, mas depois de alguns dias o gerente percebeu que no cartão de memória havia uma sigla também de três letras: E C A. E após tomar no cu, o gerente começou a deixar que a justiça fosse aplicada como se deve naquele supermercado.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Ladrão de supermercado - Parte 1 de 2

Ele entrou no supermercado com uma roupa aparentemente normal. Blusa de algodão, calça jeans, tênis. O problema é que era tudo gasto, desbotado, um tanto sujo. Assim que entrou o guarda começou a falar ao rádio, pedindo aos colegas da segurança que ficassem de olho. Ele aparentemente não percebeu e continuou a andar pela loja com um carrinho quase vazio, com apenas duas ou três garrafas de vinho barato. Chegando mais a frente, ele avistou uma embalagem de m&m. Parou perto, disfarçou, andou para um lado, para o outro e acabou pegando a embalagem e colocando no bolso. O fiscal do sistema de câmeras de segurança gravou tudo. O rapaz ainda andou pelo super-mercado por mais uns cinco minutos, abandonou o carrinho e foi saindo quando os seguranças o abordaram. Pediram para acompanhá-los. Ele, com a cara fingida de quem não estava entendendo nada acompanhou os seguranças que tinham o dobro do tamanho dele cada um.

Chegando a sala da gerência, o guarda o encostou de frente pra parede, revistou os bolsos e retirou o pacote de m&m. "Aonde você ia com isso?", pergunta o guarda. Ele não responde, e apesar de estar de costas, o guarda tem a sensação de que ele está rindo. "Seu vagabundo, filho da puta. Tu vai se queimar com chocolate?", debocha o guarda enquanto o força a sentar numa cadeira. Quando ele levanta a vista, se percebe rodeado por três guardas do tipo armário e um engravatado. Essa era a estratégia adotada pela loja pra coibir os pequenos furtos que quase sumiram depois que aquele engravatado (gerente) chegara ali 10 anos atrás.

Conforme o treinamento, o gerente começaria a tortura psicológica com ameaças, berros e humilhações. Em seguida, o gerente jogaria a nota com o valor do(s) produtos(s) na cara do infeliz e ordenaria que ele pagasse aquilo até o dia seguinte. Do contrário, a polícia o acharia onde fosse e só Deus sabe o que viria depois. O meliante então, com medo, contava o endereço correto e no outro dia ia pagar. Essa estratégia jamais falhou durante 10 anos, e afastava os ladrões sem gerar repercussões que pudessem fazer os granfinos que iam a loja se sentirem inseguros. para a loja, espetacularizar os crimes era sinal de prejuízo.

O gerente começou. Berrou ao ouvido dele que lugar de vagabundo era na cadeia. Em seguida, os seguranças, muito bem treinados, continuavam gritando e cuspindo toda sorte de ofensas e ameaças. Mas, inexplicavelmente, a reação do vagabundo ali era de calma. Nem semblante de ódio, nem de desespero. Nada. A face dele estava serena, como se ele fosse o patrão ali. Em meio aos gritos, ele tirou a carteira do bolso. "Ah, agora tu vai pagar, é seu fodido?", berrou um dos guardas, meio sem graça com a situação inusitada. Mas ele não puxou dinheiro nenhum, e sim uma carteirinha. Os gritos silenciaram. Os guardas não haviam treinado para aquilo. O gerente recolheu a carteirinha e ficou que nem um menino quando é pego se masturbando no banheiro pela mãe quando percebeu do que se tratava. Olhou o rosto do ladrão. Olhou a foto de novo. A carteirinha poderia ser falsa, mas também poderia ser verdadeira. O gerente então, sentindo gosto de merda na boca, mostrou a carteirinha aos seguranças, apontando para três letras em especial: O A B.

Conclui na próxima postagem...

sábado, 2 de julho de 2011

Estado Democrático de Direito


"No coração do homem é que reside o princípio do fim de tudo"
Leon Tolstoi

Um dia, a humanidade descobriu que é legal ter poder, porque tendo poder, é possível dominar o outro. A partir daí, as relações humanas passaram a se dar de forma tal que os principais mecanismos sociais e políticos criados estivessem a serviço da proteção do dominador contra o dominado. Então, certo dia, a classe dominante criou a mais poderosa das máquinas de deixar as coisas exatamente como estão, ou como (para as elites) devem estar: o Estado. No Brasil, essa história de "Estado Democrático de Direito" não passa de uma falácia para proteger o poder de quem detém o poder. Essa é a razão de existir do Estado, e nenhuma outra mais - que sobreponha essa. Ora, o Estado não está a serviço de todos/as literalmente, porque a PM não bate nos deputados que aumentam o próprio salário mas batem em bombeiros que querem ganhar algo menos miserável para fazer algo que a maioria dos deputados não fazem: trabalhar!






Hoje em dia nós votamos. Votamos sim, e daí? Não podemos confundir democracia com direito de votar. E direito? Que direito? Direito é poder ser atendido pelo SUS? Então proponho o seguinte: A partir de hoje, nenhum filho, neto, bisneto ou tataraneto de deputado, senador, presidente e ministros do Supremo poderá nascer e ter assistência médica em clínica particular, só no SUS mesmo. O mesmo vale para os próprios políticos "eleitos". Também nenhum deles poderá estudar em escola particular até o ensino superior. Aí sim, estes deveriam ter a obrigação de ganhar uma bolsa no PROUNI e estudar em qualquer Instituição de Ensino Superior como estas que proliferam por aí sem qualquer controle da qualidade do ensino. E, claro, como não poderia deixar de ser, cada um desses ganharia a honra de viver com o salário mínimo. Lógico. Salário mínimo não é suficiente pra se viver? Então! Não seria nenhuma maldade, né? O Estado não é democrático? Não é de direito?

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O Impenetrável

A comunicação de um olhar, de um quadro, de um verso, de uma crônica, faz com que a gente perceba que a forma tem poder, tanto quanto as pétalas das flores ou os dentes de um jacaré. Toda essa beleza primária e ao mesmo tempo sofisticada e profunda encontro em muitos amigos arquitetos da palavra na blogsfera. Vou encerrar* o mês de comemorações com o presente que recebi  de Antônio LaCarne,  O Impenetrável, que muito inspira meu Eu Cronista. Ele é alguém que conheci a pouco tempo, vasculhando ao leo a blogsfera, e representa, com seu talento homônimo, a vertente da blogsfera que também me encanta: Existe muito ainda a desbravar! Abaixo, o jeito impenetrável de escrever:



Amigo Eraldo:

As formas continuam a desaparecer e você narra os acontecimentos do dia com a palavra fisgada na boca. Cada detalhe simétrico é parte de uma visão sua, e ausentes percorremos os espaços das ruas, prédios infinitos, ruelas, sensações caídas e salvas de um décimo quarto andar doloroso, diário, preciso. Meu preciosismo profundo por cartas, bilhetes, avisos próximos. De longe, envio palavra, significado e aceitação às suas crônicas - eximias na retratação da modernidade. Cada pedaço é um grão de areia imantado no seu jardim. Nas costas do envelope deixo data e hora marcada. Pense que estou aqui: a ler cada frase sua reconstruída num papel guardado, jamais jogado fora. Outros anos virão e mais celebrações serão planejadas. Mas a rota, desconhecida.
________________
*Esse tipo de postagem continuará com outras pessoas ainda. Gostei de brincar disso!

domingo, 26 de junho de 2011

Coisas e Coisas

Seguindo as homenagens aos meus amigos da blogsfera, hoje gostaria de partilhar um texto de alguém que me muito inspira o meu eu safado. Não foi muito fácil escolher alguém pra me ajudar com esta postagem, pois graças a Deus acompanho muita gente safada (oi?), mas, devo confessar que sou completamente apaixonado pela Nina, criação de Alline do blog Coisas e Coisas. Alline, aliás, é o arquétipo da mulher do século XXI. Linda, livre, sem amarras machistas, e principalmente muito inteligente e escreve crônicas com uma energia incrível. Ainda bem que Canalha... 




 SOMOS DOIS

Queria chegar cedo e passar o som com os rapazes, seria nosso último show antes de eu viajar para Floripa. Sem carro, busquei o ponto de táxi a duas quadras do apartamento, na frente da padaria. Da esquina já vi o carro, um Uno com cara de rodado, o último do ponto. O taxista falava ao celular e pensei que não faria diferença se eu passasse na padaria para comprar cigarro, afinal a noite ia ser longa. Peguei logo dois maços, um saco de balas de hortelã e o último pastel de carne do balcão e fui fazer contato com o homem.
Ele me viu e sacudiu a cabeça e o indicador ao mesmo tempo querendo me afugentar. Custei a entender por que fechou a janela na minha cara. Era bem provável que se eu não tomasse uma atitude iria ficar para trás. Dei a volta no carro e me instalei no banco do carona.
Encarei-o de frente. Barbado, suado, a camisa aberta no peito ornado pelo cordão fino de ouro com um crucifixo. Abri a boca para dizer alguma coisa e quebrar o gelo, mas ele foi ríspido ao me interromper – não estava livre. Canalha! Sem dúvida me interessou, não pelo conjunto previsível, mas pelos lábios grossos que logo imaginei me percorrendo os bicos do peito. Me beija lá, vai... Também chamou a atenção a aliança na mão esquerda, uma aliança vistosa de quem não esconde seus laços. 
- Eu não vou sair daqui enquanto você não disser que vai me levar.
Ele desligou o carro.
- Tá certo, moça. Pra onde?
Pegou o endereço da minha mão, me tocou, e não consegui ficar indiferente à intensidade de seus dedos, meu estômago se contraiu inteiro. Ele? Não demonstrou nenhuma emoção e me mandou colocar o cinto para podermos ir embora logo. Podia ter me ajudado, podia ter me agarrado de surpresa e feito... feito tudo! Mas só deu a partida no carro. 
Reclamei do calor, puxei assunto, falei de mim e aos poucos ele foi relaxando. Não sabia se devia, talvez fosse minar o clima amistoso que demorou a se estabelecer entre nós, mas a curiosidade foi maior que tudo. Então você é casado? Ele fez que sim com a cabeça sem parar de mascar chiclete.  
- E você? É?
- Não tá vendo que não uso aliança?
- Isso não quer dizer nada.
- Se eu fosse casada usaria.
- Se fosse casada sairia com outro cara?
- Depende.
- Depende do quê?
- Se ele fosse um amigo, por exemplo...
- Não tô falando disso.
- Eu vou ser obrigada a responder?
- Sairia comigo?
- Com você?
- É. Por que não?
- Por que não?
O sinal estava verde. Será que vai dar tempo? Eu ri, não precisava traduzir meu desejo em palavras para aquele ali. Canalha! Ele sabia que ia me conduzir e fez uma ligação antes de se desviar do caminho indicado no papel. Canalha!  
Entrei na frente cheia de expectativa. A sala comercial aparentemente desocupada era o local de encontros dele e dos colegas do ponto. Estava imaginando coisas? Havia apenas o colchão de solteiro encostado na parede e o frigobar caindo aos pedaços no outro canto. Ele esticou o colchão.
- Quer beber alguma coisa?
- O que você beber.
Ele veio com duas latas de cerveja não muito geladas. Tirou a camisa mostrando logo a barriga bronzeada e nada saliente. Tomei um gole só e também comecei a me despir naturalmente, sem falar nada, não precisava. Ele esfregava a mão por cima da cueca enquanto me observava e esperou que eu me livrasse da calcinha para se aproximar. Puxou o elástico que prendia meu cabelo. O que é que ele quer? Ele pegou algumas mechas e arrumou-as sobre meus seios. Cheirou, acariciou o cabelo. Dedilhou o mamilo que se contraiu com o toque e me surpreendeu ao dizer que sua mulher tinha cabelos curtos e ele adorava cabelos compridos. Ai, canalha...
Deitamos na cama improvisada sobre o chão. Os cheiros variados indicavam que outros corpos tinham ocupado aquele mesmo espaço há não muito tempo, não liguei. Estava ansiosa para provar aquela boca carnuda, mas ele fugiu afundando a cabeça em meus cabelos. Por que não? Para não trair a mulher? Lutamos por alguns minutos até ele me imobilizar com o peso de seu corpo. Fiquei estática sentindo os músculos rijos, a carne quente, suada. Ele me penetrou de uma vez, me roçando por dentro, meus peitos tremiam e eu derretia nas mãos dele.
Quando levantou a cabeça para ver minha expressão de gozo, consegui me agarrar ao seu pescoço e surpreendê-lo com um beijo. Ele tentou me empurrar, não deixei. Me beija e esquece tua mulher, seu porra! Ele me atendeu e se entregou, a língua chupando a minha, vasculhando minha intimidade com saliva e sem o pudor que achei que tinha. Mordi-lhe o lábio inferior com vontade, deve ter doído, era o que eu queria. Para se vingar me colocou de bruços e o perdi de vista, a boca, tudo. Tentei me erguer, mas ele se enfiou onde devia e foi fundo. Acho que passamos mais de uma hora nos digladiando naquele colchão e não consegui outro beijo. 
Eu não lembrei que tinha prometido chegar cedo para passar o som com a banda. Ele esqueceu que aquele era o dia da semana que as crianças ficavam na casa dos avós para ele e a mulher poderem transar. Tarde demais para dois canalhas como nós.



quinta-feira, 23 de junho de 2011

Batom e Poesias

Tem gente que quer ser estrela e não é. No caso de Rossana Mazza Masiero é o contrário: ela é estrela mesmo sem querer. Rossana tem um defeito: Ela só consegue ser poetiza quando respira, quando existe. Muitos tentam fazer e até fazem poesia, mas poucos como ela são poetas de fato.


A conheci através do seu blog, o Batom e Poesias.Depois passamos a nos falar através de msn e facebook. Numa dessas conversas descobri que ela havia publicado algumas obras e que também é uma cantora excelente - quem achar que exagero pode comprovar no vídeo abaixo. Mas pra ela, isso tudo não é nada.


A descendente de italianos não gosta de tocar no assunto, mas é um ícone cultural de São José dos Campos/SP. Semana passada, a generosa Rossana me enviou um exemplar de uma obra publicada dela, o "101 Poemas" - e que presente! Com certa agonia desembrulhei o Sedex, e descobri ao abrir primeira e exatamente a página 109, que ela publicou um poema pra mim, mesmo antes de me conhecer.



De mim

Quando pensei me conhecer
enxerguei-me um quebra-cabeças
de peças dispostas aleatoriamente
confuso, difuso e disperso

um mosaico...

Aos poucos, me olhando melhor
achei que fazia sentido
o padrão dos desenhos
da minha alma refletida
num espelho de almas repetidas

um caleidoscópio...

Já hoje, me sabendo cada vez menos
sob o olhar arguto da vida

Sei eu:
múltiplos caleidoscópios
de um enorme mosaico indefinido
refletido em espelhos quebrados

sou eu...


segunda-feira, 20 de junho de 2011

Aniversário das paulinisses

Hoje o "Eraldo e suas paulinisses" completa 02 anos de existência. Nesse tempo, foi como se o egocentrismo que me fez criar esse cantinho tivesse sido vítima de uma operação "Cavalo de Tróia" quando percebi que o barato mesmo da blogsfera não é o EU e sim o NÓS; não de mim PARA os outros, mas COM os outros.




Por isso, sem demagogia alguma, hoje fico feliz por ter um blog porque ele me deu possibilidade de conhecer pessoas maravilhosas. Gente amiga, talentosa, estranha, genial, que pelo mosaico desses "tus" extraordinários fizeram o meu eu ganhar mais partes interessantes ao mosaico existencial que é a vida. De uma forma geral, todas as pessoas que visito frequentemente e a as que infelizmente o tempo não me permite ser tão presente são realmente algo que tem me feito feliz nos últimos dois anos.

Por isso, resolvi encher o saco de um monte de gente para celebrarem comigo esses dois anos de paulinisses. Não queria explorar ninguém (juro), mas é que interagir com gente que admiramos é coisa mais legal de ter um blog. Por isso, perturbei algumas pessoas para me ajudarem com isso. Por exemplo, em relação ao novo layout, o novo banner/título maravilhoso deste blog eu ganhei do mágico Tonho, autor de vários blogs e o melhor poeta visual que eu conheço; o banner deu o tom ao novo visu. A nuvem de tags com meus "eus", ganhei da indomável Luna Sanches , uma das blogueiras mais originais do Brasil. Na hora que não sabia mais o que fazer com o novo layout, a lírica Michele P me deu uma forçona.



Essa semana ainda vai ter mais gente participando aqui com posts. Alguns eus do meu/nosso mosaico terá a participação de alguns blogueiros que tiveram a gentileza de aceitar o meu convite para participar. Falarei melhor sobre eles a cada postagem. Agora, gostaria de apresentar a quem não conhece duas blogueiras que transcenderam a barreira da blogsfera e se tornaram minhas amigas mesmo, como já aconteceu algumas vezes nesse tempo. Mulheres sensíveis, nem por isso menos fortes. Trata-se de Mirella de Oliveira e  Michele P que interpretam abaixo o poema que ganhei da última. Pessoas lindas que dedicaram uma parte da vida corrida delas para participar das paulinisses. Se tenho motivo pra me gabar nesses dois anos? Tenho: só acompanho gente foda na blogsfera.


Abaixo, um poema, dois sotaques:



Ora avesso, indiferente.
Ora amigo, confidente.

Por vezes maroto,
outras vezes domado.

Sempre coerente,
pungente.

De olhar distante,
faz-se presente.

De sorriso poupado,
faz-se de rogado.

Partes de um quebra-cabeça
em que as peças não se encaixam.

Dividido,
ambíguo.

Incerto,
perplexo.

Tão ele.
Tão eu.
(Michele P)
___________
*A imagens são algumas das propostas do Tonho até chegar ao que ficou o Banner. Muito obrigado, companheiro. Jamais esquecerei tua generosidade.
**Muito obrigado também, Luna, pela generosidade. Teu profissionalismo e criatividade são exemplos para mim.
***Obrigado a todas e todos.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Vem cá, você me conhece?

Meus caros amigos da blogsfera. É com muito orgulho que anuncio o segundo aniversário do meu blog a ser completado ainda este mês. Por isso, peço um pouco de paciência a voz por não postar nada até o dia em que celebrarei com você esta data tão importante pra mim. É que, através daqui conheci pessoas maravilhosas, artistas e amigos/as que, não fosse por esta ferramente, talvez jamais tivesse oportunidade de conhecer.


Mas enquanto isso, deixo a vós um post com a cara da minha amiga Michele Pê . É um dos desafios que ela sempre propõe aos seus. E tem haver com esse momento de renovação/avaliação que esta casa passa. Consiste em 3 etapas. E se você não se sente muito a vontade com esse tipo de questionário, diga o que/como quiser sobre o que achou do blog como ele é até agora - críticas sempre são bem vindas.


1. Vocês deverão, nos comentários, apontar algumas coisas que descobriram sobre mim, lendo o blog:
  • Um vício
  • Um defeito
  • Uma qualidade
  • Um medo
  • Um mico (Ahhhhh... este tem vários! kkkk)
  • Um sonho

2. Em seguida, perguntarão algo que sempre quiseram saber sobre mim e eu nunca falei aqui. (Sacanagens não estão liberadas! kkkk)

No mais, até as novidades!


_____________
*Imagem by Michele P

domingo, 12 de junho de 2011

Mènage à Trois

Quem disse que namoro, sexo e fim de namoro não se faz a 3? Em homenagem ao Dia dos Namorados, três blogueiros resolveram falar a 3 sobre o tema. Michele P., Eraldo Paulino e Mirella de Oliveira, cada um com um tema, falando sobre a parte do namoro que não cabe nos comerciais de perfume.


Abaixo, a parte onde entro na história




AMAR


Amar é aceitar a TPM dela como uma aventura e o futebol dele como um aprendizado. É rir junto com ela/e daquele sujo no dente. É berrar que a odeia e receber o olhar mais sensual do mundo dizendo "vem".


Amar é não ficar se perguntando todo dia se é amor.É qualquer coisa, desde que seja com ele/ela. É broxar na hora H e fazer disso oportunidade pra conversar o que não foi possível a semana inteira. É ouvir falar que esse amor não é de Deus e preferir ficar com o amor a um Deus preconceituoso.


Amar é receber aquele presente de aniversário horrível e mesmo assim não odiar (isso tem prazo de validade curta, alerto). É se jogar do precipício, e junto dela/a parecer que é do trapiche. Amar é não ver mais a mesma graça em ficar azarando qualquer um/a pelo msn. Amar é entender a diferença entre frescura e romance.


Amar é essa retiscência que faz parecer exclamação, é esse eufemismo que faz parecer interjeição, é essa antítese transformada em ironia.


Amar é ter medo sim, mas finalmente não ter medo de ter medo. Amar é achar que vai doer, mas ter certeza de que valerá a pena.


Amar é tudo isso... ainda que não seja nada disso.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Deus é de quem?

Por que as pessoas acham que Deus é um pássaro irracional, inocente, disposto sempre a cair nas armadilhas mais rudimentares e a piar enclausurado numa gaiola religiosa qualquer? Dizem que Deus é o Todo Poderoso, mas não passa de isca para presas sedentas de alguma resposta nesse mundo repleto de verdades mentirosas. Vivenciamos atualmente, após a derrota das maiores promessas da modernidade (né, Freud, Marx e companhia?), o retorno pós-moderno ao sagrado. Retorno que significa mais do que o ópio do povo na Idade Média, significa prejuízo ao consumidor e à inteligência. Como é que as pessoas podem comprar Deus, ainda por cima um Deus idiota, e achar que estão livres e salvos?

Não há espaço aqui pra que eu discuta com vocês o que acredito ser Deus, mas posso dizer que se Deus for essa peça publicitária para pastores e padres enriquecerem ou essa desculpa furada para pessoas mesquinhas e preconceituosas travestidas de cristãs oprimirem outros seres humanos, então não acredito em Deus. Aí eu tenho que ouvir/ ler diariamente termos como: "bancada evangélica" vota contra projeto de lei anti-homofobia, ou então, "bancada cristã" se opõe a kit sei lá do que. Nem vou entrar no mérito do debate aqui, falo sobre isso em outra oportunidade, mas, o fato é, toda vez que leio esse tipo de frase, só consigo entender da seguinte forma: bancada diabólica usa o nome de Jesus Cristo e do evangelho pra satisfazer os próprios anseios sádicos.

domingo, 5 de junho de 2011

O Canalha - Caça 6

Dias de cão. Naquela empresa ninguém ia trabalhar e sim ter audiências diárias com Deus. O chefe fazia questão de deixar claro a todos os funcionários que aquele salário pago um pouco acima da média do mercado deveria ter como contrapartida toda devoção a ser expressa incondicionalmente durante as 08h de expediente ao onipotente e onisciente chefão. Só o chefe tinha razão. Só o chefe era o bom. Só o chefe tinha cultura. Só o chefe tinha uma vida feliz. Na verdade, só o chefe recebia o ódio unânime de todos, mas o medo de perder o emprego era tanto, que nem nas mesas de bar ou nas rodas de conversa durante o almoço esse ódio era conversado abertamente entre os "colaboradores".

Dia desses, enquanto o Canalha refazia um texto considerado ótimo por todos, menos pelo chefe Todo-Poderoso, uma mulher sentou ao lado dele. Era linda, vestia-se como uma lady, mas seu olhar revelava uma plebeia aprisionada num castelo. "Ela não parece combinar com essa casca que veste, mas é uma casca linda", chegou a pensar o nosso protagonista enquanto se concentrava. "Como 'Deus' escreveria essa merda?", já raciocinava. Estavam só os dois na sala. Os demais já haviam feito a vontade sagrada e se retirado dos pés do altar. Quando o Canalha procurava relaxar daquela tenção logo a figura da dona chamava a atenção. Ela parecia esperar uma oração presencial com o divino.

"Você está muito ocupado?", puxou assunto a loira com um sorriso de batom vermelho. Ele estava. Muito. Mas quis ser simpático. Conversaram sobre vários assuntos enquanto ele tentava adiantar alguma coisa. Mas a conversa emplacou quando trataram sobre o gosto comum por vinis. O rapaz descobriu que ela tinha vários compactos raros, muitos dos quais eram desejados por ele.

Depois de um tempo de conversa inteligente e divertida um silêncio momentâneo se apropriou do ambiente. Aquele silêncio que demarca o fim da primeira etapa da conversa, quando as pessoas simplesmente percebem no outro algo interessante, e dá lugar à perguntas sobre a vida (na verdade essa é a hora de saber como está o terreno da caça, se livre ou com obstáculos).

"Eu sou Mariana Avelar", revelou a moça ao responder a pergunta do Canalha. Um frio subiu pela espinha dele como um foguete de São João. Era o mesmo sobrenome do chefe. "Você é filh..." já ia perguntar quando foi interrompido por ela: "Sou a esposa dele". O terreno estava mais do que obstruído, o caminho estava minado. Ela era linda, o chefe uma pessoa idosa, digamos, fora dos padrões de estética vigente para coroas bonitões. A lógica do Canalha, então, processou automaticamente: mulher linda+ velho feio, chato e rico = casamento por interesse. A conversa terminou com um sorriso insosso dele para ela. O texto ficara pronto. Foi aprovado. Quando saiu do santuário de Deus, ela se despediu dizendo que outro dia emprestaria um daqueles compactos a ele. 

Naquele mesmo dia, em casa, o Canalha já estava maldizendo-se por ter um emprego tão escroto quando a campainha tocou. Meio atordoado, o Canalha abriu a porta para a esposa de Deus. Nas mãos, ela trazia alguns compactos. "Você não precisava se preocupar em trazer hoje", tentou falar sem tremer o Canalha. "Ah, isso? Nem sei quais compactos são esses", respondeu. "Como assim?", se espantou o garoto. "No início até tentei lembrar quais você havia mencionado. Como não consegui, peguei qualquer um, afinal eles são só um pretexto mesmo", provocou.

Ela fechou a porta com as próprias costas. Fitando-o. Não havia porque se segurar. Nada foi comentado, mas estava claro que, pelo nervosismo dela, não teriam muito tempo ali. O Canalha a pegou pelos braços, imprensou-a contra a porta, e quanto mais ele a espremia, mais ela parecia puxá-lo, numa sucção de libido voraz e arrebatadora. Ela mesmo levantou a saia, arredou a calcinha e se fez penetrar. Ela expirava fazendo um suave "sss" a cada subida dele, a perfeição dos seios dela eram quase sagrados na boca erética dele.

Então, sem medo de pecar, o Canalha profanou o sofá da sala de estar a pondo de quatro para concluir ali a celebração. Quando estava para gozar ela começou a gemer. Um gemido baixo, mas lindo, avisando a ele que o céu estava próximo. "Eu vou chegar dentro de você", avisou ele. "Vem! Vem!", suplicou em resposta aquela mulher que naquele momento ganhou sabor de esposa do chefe e ele recheio de empregado do marido quando a penetrou o máximo ao cumprir o prometido.

...

No dia seguinte o Canalha foi trabalhar normalmente. Mas quem tinha semblante de Deus com os chifres passou a parecer um simples diabinho. A cada bronca, a cada ordem, a cada leseira do chefe, o Canalha continha como podia a vontade de rir. Muitos vinis ainda foram entregues depois daquela noite. Muitas promoções vieram também. O Canalha passou a ser referência de empenho e inteligência emocional na empresa. Depois que o Canalha saiu dali pra abrir negócio próprio os vinis perderam um pouco da graça.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Josés e Marias da Amazônia - Terra sem lei

Este post é dedicado a José Cláudio, Maria do Espírito Santo, Herenilton Pereira dos Santos e Adelino Santos (Dinho), mártires da Amazônia, tombados diante do neoliberalismo.


A Amazônia é uma imensidão de verde manchada de sangue. Lugar que fede a fumaça do desmatamento, lugar que se desenvolve sobre o trabalho escravo e que vê tombar quem não se cala. Uma porção de terra que dá luxo pra bois e destino pior que o de suínos a muitos seres humanos. Isto pode até ser uma visão apocalíptica ou no mínimo pessimista, mas ainda assim mais verossímil do que a imagem transmitida pelo PiG* sobre a Amazônia. Parece que Amazônia é só bicho a ser preservado, mato a ser preservado, micro-organismos a serem preservadas, boi a ser preservado, soja a ser preservada, Belo Monte a ser condenado, etc.

Manaus -AM
Acontece que a Amazônia é formada também e principalmente por pessoas. Além de toda a beleza exótica (para os outros, não para nós) da floresta, existe por aqui um panteão de vida, de diversidade, de riqueza cultural que pouco se vê em outros lugares do mundo. Aqui falamos vários idiomas, dialetos. Aqui nós tomamos banho de rio e corremos no mato, mas também andamos de avião e passamos por engarrafamentos. Aqui nós somos um pouco índios, mas também somos um pouco japoneses, um pouco africanos, mineiros, nordestinos, europeus, goianos, etc.


Por isso, não foram ambientalista (apenas) que morreram nos últimos dias defendendo a Amazônia, foram pessoas, acima de tudo pessoas, seres humanos que tombaram diante de um modelo nefasto de desenvolvimento que premia escravagistas, grileiros e madereiros assassinos e esquece ou finge não esquecer quem de fato se importa com a Amazônia. Pessoas morreram defendendo o meio-ambiente sim, mas também o direito de pessoas buscarem o desenvolvimento desta terra de forma plenamente sustentável, não essa sustentabilidade que o sistema mente querer, agora que esta palavra está na moda, mas a sustentabilidade que não vê o lucro acima de tudo.

Chico Mendes, mártir da Amazônia.
Uma outra irmã como Dorothy foi martirizada defendendo a Amazônia, por exemplo, e ninguém sabe, pois não renderia tanta audiência ao PiG (Ir. Adelaide Molinari). O que quero dizer é: quem precisa de nós não é a floresta, ela não precisa de nós, nós é que precisamos dela. Quem precisa mesmo de nós são vários homens e mulheres de diversas etnias e localidades espalhadas pela Amazônia. Pessoas como eu, como nós amazônidas precisamos de atenção a nossas vidas, prioritariamente. Precisamos que o desenvolvimento da Amazônia sirva para vivermos, não para que vivamos para ele e muito menos que morramos por ele.


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*PiG: Partido da imprensa Golpista.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

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Pessoas...



Era uma vez, no universo das palavras, conversavam num ambiente cheio de reticências dois pontos de interrogação. A dúvida dos dois era a mesma, mas os dois, de modo diferente, tinham muito medo de qual exclamação viria como resposta. Os dois então se debruçaram nos planetas diversos que a palavra proporciona. De repente, eram dois pontos passeando por vários ambientes de dor, sofrimento, alegria, fogo e fantasia. Até que sob a sombra de uma árvore, num paraíso de concreto já bastante escuro, a luz substituiu a palavra, e o que já eram dor, sofrimento, alegria, fogo e fantasia, misturaram-se numa viagem a outros universos de sensações. Sucções de libido e ternura envolveram as interrogações até que a certeza já não importasse mais, ou pelo menos não o suficiente pra modificar a importância de estar ali, fazendo aquilo, falando nada e dizendo tudo o que realmente deveria ser dito.

Vez ou outra, quando acidentalmente pousavam as duas interrogações no mundo dos pobres desgraçados, um chegava a perguntar ao outro coisas como: "Valeu a pena esperar?", "Mas tínhamos que esperar tanto?", "Por que você desorganiza meu coração já bagunçado?", "Porque você é a resposta pra todas as perguntas que nem ao menos perguntei?" Mas então, o mais suave que a rapidez pode ser, eles voltavam a navegar em correntes macias e envolventes de outros nichos, experimentando o que já sonhavam, sonhando com o que não haviam experimentado.

Até que as duas interrogações viraram apenas uma palavra: "tchau". E com a forma que apenas nossos olhos dizem e somente nossos corações entendem, disseram: "até breve"...

sábado, 21 de maio de 2011

BLOQUEAR REDES SOCIAIS NO TRABALHO

Existem muitas repartições e até mesmo instituições de ensino (superior, inclusive) que bloqueiam as redes sociais, sobretudo msn, youtube, orkut, facebook e twitter. Paira ainda em mentes da década passada (rápido, não?) a concepção de que rede social é vagabundagem. Existem colegas estagiários que vivenciam a censura até mesmo em assessorias de comunicação de muitos órgãos governamentais. Eu, naturalmente, sou contra o bloqueio a qualquer site no ambientes de trabalho, da mesma forma como sou contra a proibição de conversas descontraídas entre colegas durante o exercício profissional.

Vamos supor que msn, twitter e companhia também não são fonte de informação imprescindível atualmente. Vamos criar aqui a hipótese de que tem razão os patrões ao achar (porque certamente fazem uso dessa forma) que esse tipo de ferramente só serve para bobagens. Ainda assim seria um equívoco bloquear. Ora, se eu contrato alguém, se eu aceito namorar alguém ou até mesmo se eu aceito vender fiado é porque eu parto do princípio que o outro em questão é confiável.Então, não é bloqueando os minutos que o funcionário pode ter de lazer que vai fazê-lo mais responsável. Se eu contrato alguém, é porque quero ver os resultados. Se os resultados aparecem, o que vai me importar se o cara acessa sites x ou y durante o processo? Há empresas mais espertas instalam programas espiões (o que também não concordo) para monitorar o comportamento dos funcionários sem que estes saibam.

Eu penso que tudo e qualquer decisão na vida deve passar pelo crivo do bom senso. E a menos que se contratem crianças (de quatro anos pra baixo), não vejo sentido em bloquear essas páginas. Seria o mesmo que calar a boca dos funcionários para que não falassem besteira, para que não fizessem piadas, para que não partilhassem informações de vez em quando - das mais sérias as mais simples. E pela lógica, se numa empresa algum funcionário deixar de produzir porque fica usando de forma irresponsável o acesso à internet, quem tem que ser bloqueado na empresa é o próprio funcionário, não os sites em si, porque estes são úteis (de forma lúdica ou não) às pessoas, seja pra ter acesso a informações, seja pra dar uma relaxada durante um momento de tensão, ou mesmo pra não gastar telefone e interromper o trabalho pra saber como a filha está se saindo com os estudos em casa.

Mas o que é mais legal mesmo nessa história, é que as empresas barram as redes sociais para que os empregados produzam mais, para dar mais lucro ao patrão em cima do suor dos trabalhadores, para que depois estes, com o salário injusto (porém legal) que recebem possam comprar celulares que acessem as redes sociais. Resumindo, patrão nosso querer bloquear as redes sociais no ambiente de trabalho é tão eficiente quanto pai exigir que a filha case virgem. Ou seja, o ideal é educar pra fazer da melhor forma possível, porque proibir só nos dá mais vontade de fazer.

O que vocês acham disso?

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O mercado fonográfico brasileiro

Sem dúvida o grande mercado brasileiro vive uma entre-safra musical. Tem algum tempinho que não aparece nada no cenário nacional que vire uma febre e que dure mais que duas espinhas adolescentes. Na minha opinião isso é fruto da falta de visão do mercado fonográfico brasileiro ao dar larga visibilidade para bandas modinhas e ao mesmo tempo fechar os olhos para o efervescente cenário alternativo recheado de coisas interessantes.

E sabe, apesar de me irritar ouvir músicas com letras e arranjos que rimam com idiotice o tempo todo no rádio, nem estou querendo dizer que elas não devem existir. Afinal, o que seria dos homens bonitos se não fossem os feios como eu? O que estou dizendo é que o mercado fonográfico brasileiro tem uma síndrome de colono e uma falta de visão que o faz desperdiçar rios de dinheiro com os nossos talentos e investir a cada dia que passa apenas no sucesso do momento, mas isso é um péssimo negócio. Vejam bem que eu nem estou aqui criticando a lógica do mercado em si (que gostaria de deixar bem claro que não concordo), estou questionando o fato de que nem pra ser capitalista o empresariado artístico brasileiro presta.

Para ilustrar o que digo, vejamos aqui as atrações brasileiras confirmadas para o Rck in Rio 2011:
Cláudia Leitte; Sandra de Sá; Ed Motta. Capital Inicial; NX Zero; Milton Nascimento; Ivete Sangalo; Jota Quest; Marcelo D2; Cidade Negra; Skank; Frejat; Erasmo Carlos; Zeca Baleiro; Arnaldo Antunes; Pitty, Tom Zé; Titãs.

Bom, dessa lista, tirando NX Zero e Pitty, tudo já tem no mínimo mais de dez anos, e dos dois ainda, só Pitty tem alguma relevância. A maioria já tem, só de tempo de carreira, mais idade do que a maioria na platéia que se fará presente no maior festival pop brasileiro. Não estou dizendo que os clássicos não merecerem toda honra e toda glória, agora e para sempre (amém!), mas está muito claro que existe algo de errado quando num balcão de novidades só as relíquias brilham. É como se comprássemos sempre o jornal de ontem.

O que mais é espantoso nisso, é que não é verdade que não existam ótimos talentos aparecendo todo santo dia por aí. É que a indústria cultural brasileira faz uma nítida opção preferencial pelos jovens superficiais, edonistas, egocêntrico, efêmeros e egoístas. Todas as grandes programações e produtos culturais voltados para a juventude parecem dizer "jovem é idiota". E a própria mídia contribui e muito para que o jovem nesse contexto pós-moderno em que vivemos acabe ficando assim mesmo. Um jovem com medo de sonhar, de olhar longe, mirar e caminhar não importem as pedras. O Carpe Diem passa a ser então confundido com o aproveite o agora, e o medo de se construir algo que dure mais do que uma cachaça ou que um orgasmo acaba provocando uma dor existencial encravada no vazio de cada um.

Nunca se viu tantos jovens suicidarem-se. Nunca se viu tanta depressão e caso de jovens que piram do nada e pra nada. Antes da queda do muro de Berlin, ainda tínhamos um ideal, ainda que chulo, de que poderíamos derrubar o capitalismo sem nem sabermos ao certo o que fazer depois disso (na maioria das vezes era mais tolice do que ideologia, mas era alguma coisa). A partir do momento em que o muro caiu, as utopias também desabaram junto com os escombros. Desde então, todo e qualquer horizonte que passe daquele risco entre o céu e o mar parece perigoso. É como se voltássemos a acreditar que a terra é quadrada e que depois que cruzarmos aquela linha logo ali nossa embarcação afundará num vazio infinito rumo ao inferno. Hoje paira uma verdade absoluta(mente idiota) que defende o ter ao ser, e, ainda pior, ter pra mim ao ter pra nós, fazendo com que experimentemos a vida com dois cliques (apenas), e que nos tornemos rasos e unidimensionais como uma música do Restart..

E como exigir uma música profunda, com a longevidade da verdadeira obra de arte, se tudo o que essa juventude acredita é em tudo, menos nela mesmo? Como exigir águas profundas de uma poça dágua? E o que acontece aí? O mercado fonográfico, que faz avaliação semelhante a minha, aposta apenas em bandas que façam eco à superficialidade de então. Só que assim como nem toda juventude da década de oitenta admirava o rock brasileiro, hoje em dia também há muita coisa boa na contramão de tanta coisa tosca. Só que, não fosse a rede de computadores, talvez jamais conheceríamos. A arte nesse país simplesmente não tem o mesmo espaço que as porcarias. Resultado: bandas superficiais produzem sucessos superficiais e todo mês o mercado precisa encontrar uma nova porcaria superficial pra voltar a fazer sucesso superficial num ciclo maldito.

Ao contrário de muitos, eu nem defendo o extermínio disso aí que chamam de música. Só penso que o mercado poderia parar de subestimar a inteligência do público, principalmente da juventude, a exemplo do que faz a indústria cultural inglesa, por exemplo. Existe porcaria pop do lado de lá? Existe. Mas por lá um show do radiohead (considerado cult) arrasta muito mais público do que um show aqui da eguinha pocotó (in memorian), por exemplo. Os empresários brasileiros precisam aprender com o primeiro mundo, ou seja, oferecer produtos culturais de qualidade não fará a revolução. Nos EUA, o System of a Dwon não derrubou o Bush, e ainda deu muito lucro pros bolsos empresariais gritando bom gosto. O capitalismo daqui precisa aprender a não ser orgulhoso e abrir espaço pra bandas e artistas com algum tipo de alma. Não se preocupem, mercado fonográfico brasileiro: O sistema não deixará de ser cruel, os empresários não deixarão de ser filhos da puta, mas pelo menos o bom gosto terá mais espaço e num Roquenrio como esse, nós não teremos que esconder nossas porcarias pop dos gringos e só chamar a velha-guarda pra salvar a pátria (que nos pariu).

Abaixo, só no cenário nortista, exemplos de bandas que poderiam estar facilmente na grande mídia no lugar de muitas COISAS por aí:

Madame Saatan, Pará, mistura metal pesado com carimbó (ritmo paraense)


Los Porongas, Acre, tem a admiração de nomes como Dado Villa-Lobos